Torturas e tatuagens das ninfas


Acompanhando o que é publicado pelos meus camaradas surgem memes populares na minha tela. Só depois com mais atenção que descubro a notícia que deu fruto a essas criações artísticas, populares e de comédia.

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Lafa sempre atuante e rápido quantoo que acontece em Terra Brasiis

A notícia da semana passada que chocou o país foi 2 delinquentes de 27 e 29 anos torturarem e tatuarem na testa de um adolescente a inscrição: “Eu sou ladrão e vacilao“. A internet dá uma abordagem de como as pessoas pensam sobre o crime de sequestro e tatuagem FORCADA. Nada ali pode nos levar a crer que o garoto era de fato ladrao, quem diz isso sao apenas os DELINQUENTES. Eu não tomaria como verdade as palavras de quem comete um crime horrendo como capturar, aprisionar, torturar durante 11 dias um menor. Aparentemente muita gente acredita nos bandidos. Se for provado furto é outra coisa, mas nunca validaria esse tipo de “prenda”, mesmo que o menino tivesse roubado milhões, como alguns juízes fazem. Faria esses deliquentes a mesma violência com gente poderosa, de sobrenome poderoso com conta suíça?

É capaz de mês que vem toda a nação já ter esquecido dessa história toda. Quem nao esquece uma história semelhante é o estado de Indiana. Um infortúnio muito parecido ocorreu em outubro de 1965, hoje quase todos os envolvidos já estão mortos. Tomei conhecimento da tragédia de Sylvia Likens em 2013 por acaso quando procurava um bom filme pra ver no domingo de noite. O filme “An American Crime” de 2007 mostra acontecimentos bastantes perturbadores. No dia seguinte fui rever os fatos e notei que o filme abrandou a violência, porque a realidade era severa. Li e reli tudo sobre o crime e o que aconteceu com os coadjuvantes. Essa fábula urbana me influenciou bastante quanto a rever condutas de certos tipos que tentei descrever nesse texto sobre performaces conservadoras.

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Essa foto é quase tao triste quanto dela morta com a tatuagem feita no local sujo e insalubre -acusando algo que ela nao é. A menina era apenas muito bonita

Silvia Likens era uma menina pobre, filha de gente de circo. Seus pais estavam pra se divorciar, sua mae havia sido presa por pequenos furtos (deve ter pego alguns meses de prisao). O pai estava numa economia debilitada mesmo assim nao exitou muito na primeira oportunidade de oferta que teve d’alguém que amparasse ele com suas filhas. Tudo pra que elas mantivessem ali em Indiana a frequência na escola.

Gertrude Nadine BANISZEWSKia pessoa que coube essa missao de RESPONSABILIDADE, casou-se com 16 anos de idade (1947). Voce acha que alguém que se case com uma idade dessas, sabe alguma porra na vida? Enquanto centenas de estudantes são lapidados com mais estudos, níveis avançados e até numa faculdade, mocas que se casam se aprimoram aonde, na cama? Tanto no filme, como as fotos reais revelam uma pessoa de saúde encolerizada, clara condição de muita gente que substitui refeições por um maço de cigarro. O pai da Sylvia não tinha formação o bastante para ler tais sinais, conheceu a mulher na social da igreja, largou suas filhas e foi cuidar da sua vida a fim de capitalizar.

O que fez a menina criar tanto ódio na cabeça da Gertrude? Nada, sua existência era tudo que a Gertrude mais odiava. Sua juventude, beleza e SOBRETUDO sua formacao intelectual sobrepujavam o que a Gertrude não conseguiu se casando. Com 36 anos sua renda era lav

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ando e passando roupas pra fora, além de uma eventual mesada do primeiro marido (no histórico das relações aparentemente ela apanhou de todos esses caras). Outra característica que gostaria de considerar é que Sylvia cantava todas as músicas dos Beatles, pense na problemática aos olhos de uma semi analfabeta que isso poderia gerar?

ae8de1d14de92f0fc16c354e56005428Jenny, a irma mais nova de Sylvia nao conseguiu se fazer ouvir, apesar de algumas vezes procurar por ajuda, como outra irma e vizinhos (O servico social engavetou o pedido depois de uma breve visita). Elas apanhavam de cabo de vassoura dessa mulher. Jenny não foi levada a tortura porque tinha sido marcada pelo pólio. Durante os dias de tortura no porão de uma casa velha e suja, Baniszewski tatuou com uma agulha e tinta de caneta na barriga da menina: “Eu sou prostituta e me orgulho disso”. Toda a sua própria defesa se baseava na condição de que Linkens fosse uma garota promiscua que desvirtuaria sua familia. Por causa disso foram feitos teste no corpo da moca, contabilizaram 150 marcas de queimadura de cigarro e o hímen intacto.

Não consigo deixar de pensar como funciona a cabeca dessa mulher marginalizada e sem futuro. Todo santo dia, fraca e cansada, sem capacidade intelectual de formular soluções que melhorassem sua vida com tantos rebentos, ter que lavar a roupa que nunca se extinguiam, acabava por pensar assim: “Poderia ter me deitado com 5 homens na metade do tempo que se lava e passo essa roupa. Mas com essa cara? Com que coragem? Nao pode, todos dizem. E a igreja? Quem nao pode é essa aí, vai que todo mundo vai querer ela, nada sobra pra mim!” Gertrude respondeu pelo homicídio que indiretamente ela cometeu mas que foi feito pela mãos de seus filhos e outras crianças da rua induzidos por ela. O advogado de defesa trabalhou bem, livrando a cara dela da pena de morte. Ela pegou pena perpétua porém tendo um comportamento exemplar na cadeia (lá a ofereceram o remédio que mais procurava: disciplina) saiu em 1985, morreu em 1990. A sua filha mais velha era professora no estado vizinho, perdeu o emprego em 2012 por causa do refrescar de memória do filme.

Essa foto tirada em 1971 quando ouve um segundo julgamento do caso liberando a Paula Baniszewki , mostra claramente Gertrude mas saudável no tempo na prisao

Gertrude foi a típica megera de drama grego, se encontrava poderosa diante das calunias que fazia de uma menor de idade. De súbito, eu imagino que ela no meio daqueles jovens queria até se passar por um deles.

Alguém formulou uma questão que se faz de lupa nessas relações norte-americanas de bullying.  O anônimo que respondeu essa pergunta nao deu nem sua localização, nem quando isso se sucedeu. Suspeito que deve ter sido em torno de apenas 15 anos atrás, mesmo assim uma moca chamar outra moca de “puta” ela a princípio endossa apenas a questão machista. O que significa isso? Ou entendo pouco.

O que aconteceu com a pessoa que te atormentava na sua escola?

Ela morreu de overdose há alguns anos atrás. Para essa história, me referirei a ela como Hanna Moretti.

Iniciamos como camaradas o primeiro ano no ensino médio, eu e essa moça. Circundávamos a mesma rede de amizades e dividiámos uma maioria de classes escolares. Geral dizia que poderíamos passar por gêmeas, usávamos cabelos curtos de tons escuros, tínhamos olhos claros, rostos redondos e narizes pequenos. Um detalhe curioso era os nossos aniversários, apenas diferenciavam em um dia de intervalo entre eles, se assim me lembro bem. Por essa forca de notáveis superficialidades nos aproximamos, mas nunca nos tornamos super-amigas. Admito mea culpa dessa aproximação não avançar mais. Secretamente condenava a garota, ela não me parecia uma pessoa ajuizada e, muito menos, sagaz. É claro, um dia deve ter caído a ficha e ela percebeu que eu fazia pouco caso de um maior estreitamento social com ela, ou pouco caso DELA. Muito provavelmente foi esse turbulento sentimento de rejeição que desencadeou todo drama a seguir.

O primeiro capítulo dessa novela se desenvolve quando um coleguinha nosso ME convidou para dar uma volta. Eu não estava a fim dele. Essa nova rejeição a um amigo da nossa teia de amizades foi definitivamente a gota d’água pra Moretti passar agir contra a minha pessoa.

Num belo dia, ela chega pra mim e em alto e bom som me xinga com os piores nomes alusivos àqueles profissionais do sexo diante de todos os nossos colegas de classe.  Sem qualquer discriminação por parte dos alunos no recinto com o que ela fazia, ela continuou com o teatro de condenações até o professor presente no ginásio perceber o rebuliço e pedir pra que ela parasse.19030649_473486383043498_6162136074326041016_n

A impossibilidade da auto defesa naquele momento em 6 ângulos:

  1. Eu era muito quieta, na minha. Como de repente posso sair batendo boca como uma pessoa?
  2. Nunca lidei bem com confrontos, isso não fazia parte do meu dia a dia.
  3. Eu era bastante católica na época, acreditava que o que uma pessoa faz ela irá pagar por isso, então não tinha que nada contra atacá-la, as circunstancias iriam dar cabo numa hora certa.
  4. Era uma ávida praticante do karatê, portanto seria desonroso lutar com ela que nem praticava esporte.
  5. Eu nao passava de uma típica nerd, tinha até banda, qualquer paco errado ali poderia piorar a situação imensamente na minha vida.
  6. A vergonha é tao imensa numa hora dessas que de uma forma te neutraliza num choque muito potente. Ela gritava salivando direto na minha cara, em outras ocasiões estaria comentando alguma gracinha como “sem molho”. Aquela mise-en-scéne ali nao fazia sentido NENHUM. O que ela ganharia com aquilo?

Votei pra casa como se tivesse sido baleada. Achando que aquilo nao passava de um incidente isolado. Outro engano.

Na manhã seguinte, ela me esperava na entrada da escola, me seguiu até meu armário me chamando de nomes, esculachando o quanto podia. Iríamos ter aula na mesma sala,  ela parou cada aluno pra informar que não deveriam falar comigo porque eu era uma garota imoral. Se alguém viesse se direcionar a mim, ela se inseriria fisicamente entre eu e a pessoa para que a COMUNICAÇÃO nao existisse. Não tardou para que ela dissesse às pessoas mentiras, todas de natureza sexual.

Ela aproveitou todas as oportunidades que pode para me alienar dos outros. Isso ocorreu principalmente no ginásio e na aula de inglês, ambas das quais eram lideradas por professores preguiçosos. Ela continuou com essa tática por semanas e eu continuei a não fazer nada. Tentava ignorá-la.

Acabei afastada de todas as minhas amizades da escola. Ninguém queria nada comigo (no fundo as pessoas acreditam que o problema ou o terror que eu enfrentava era culpa todo minha). Por outro lado, acho que eles simplesmente não queriam se envolver com a situação (quando voce nao se indigna, é porque voce já optou pelo lado do opressor). Os professores também não estão nem aí. Estava completamente sozinha, chorava todos os dias em casa,  sem vontade de voltar à escola.19025024_474254372966699_7251533489606863499_o

O tormento criado por Hanna Moretti se tornou uma parte regular da minha vida por alguns meses. Já estava ficando acostumada. Daí as palavras parecem que morriam e  sua forca impactante não estava causando o mesmo efeito esperado de antes, uma pessoa como ela sem muitos prospectos não iria agendar um solução elaborada, queria era partir pra violência. Foram muitas ameaças, ameaças vis, barulho e grosseria. Todas de intuito a violência física, ao medo, o que não deixa de ser, no momento da ameaça, uma violência psicológica.

Quando estava no ponto auge da trama d’um pesadelo, pensei que dessa vez eu tinha de contra atuar. Ela só pode estar pedindo que eu faca algo, pois nao fui eu que comecei nada.

Numa hora do lanche da escola, ela veio com novas ameaças que iria me surrar, machucar. Calmamente respondi:

-Ok, Hanna. Quando e onde? Parto pra briga com você a qualquer momento.

Esse foi o momento x da mudança do jogo, me mantive silenciosa esperando por ela marcar a data e a hora. Voltei a lembrá-la que estava esperando pela resposta à peleja por ela SOLICITADA. Isso só a deixou mais agitada e em resposta reformulou as ameaças de sempre. O sino tocou, o almoço terminou, voltamos pra aula. Não voltamos a nos ver naquele dia.

Veio o dia seguinte. Ela repetia como um disco arranhado ameaças físicas em pleno corredor antes das aulas do dia. Naquela mesma manha, retornei com uma mais entusiasmada resposta a suas demonstrações de valentona:

 – Estou prontinha, pode vir. Quero acabar logo com isso. – A garota me olhou como como se eu fosse uma espécie de estúpida e revidou com algo do tipo:

-Tch, agora mesmo, estou te poupando Quando acabar com a sua raca, você vai querer nunca ter nascido. – Tive que rir, mas ela continuou com um sofrível ar de ser o maior pistoleiro do oeste, ou coisa do tipo.

Pela manhã, tive uma aula com a melhor amiga dessa garota. Acabei por me aproximar dela e comentei meio blazer que fazia karatê regularmente. Estava certa que poderia machucar a Moretti, da mesma forma também estava certa que ela não seria capaz de provocar um se quer arranhão em mim.

Passou o dia, não vi a Hanna nem nos corredores, nem no almoço, além de cabular as aulas que compartilhávamos. Finalmente a sensação de poder tomou conta de mim. Os estudantes da escola passaram a me perguntar sobre a briga, se eu estava com medo, se era verdade que lutava karatê, coisas do tipo. A escola estava excitada. Depois de meses vivendo como excluída, estava adorando toda aquela bajulação. Não mais que de repente, o último sino do dia tocou.

Fui lá ao lugar onde deveríamos nos atracar. Algumas pessoas apareceram, esperando que algo acontecesse, depois de uns 10 minutos aquela gente se dissipou, alguns estavam a mercê dos horários de seus ônibus pra voltar pra casa. Aguardei pelo menos 45 min. A Hanna nunca apareceu e já estava na hora de ir para minha pratica de música.

Podia ter deixado pra lá, mas nao me contive (foram meses de escárnio com a minha pessoa), ao iniciar a aula na manha seguinte a inquiri.  Dessa vez fui eu que chamei a atenção usando das artimanhas que ela mesmo me ensinou, o tom mais alto de volume postando a voz com seguranca:

– O que aconteceu ontem? Você nunca apareceu… – Todos em classe nos visualizaram. Em murmuras e com muita raiva:

– Faremos hoje… – Concordei porém algo me dizia que ela iria dar bolo novamente.

Desta vez havia muitas mais gente no local pra ver o que iria rolar. Obviamente a garota furou. Aquela amiga dela apareceu e veio com a notícia que ela tinha ficado meio doente e teve que ir pra casa cedo. Dei de ombros e disse que acabávamos ali aquele caso. Naquela semana ela nao voltou a escola. Na segunda-feira seguinte, nem sequer lançou um olhar na minha direção.

A vida prosseguiu, os anos passaram. Moretti me evitou o resto daquele ano. No nosso último ano na escola ela se tornou uma outsider, e por essa época mesmo ela tentou reatar a amizade. Completamente sem noção ou num tremendo desespero social. Ao chegar da primavera a garota aparece visivelmente grávida. Pra piorar o caso, ela nao admitia essa situação pra evitar as ridicularizações que nunca foram diminuídas. A situação era tao infeliz que ela preferia mentir e dizer que estava gorda, do que encarar a realidade.

Todo o quadro era como um presente de felicidade, toda aquela derrota visual e social dela me enchia de satisfação. Hoje ao lembrar disso me amargo comigo mesmo, que coisa estranha e má educada da minha parte, que falta de sensibilidade e empatia. A vida daquela garota era completamente miserável, muita gente acabou também se regozijando a custa das mazelas dela.

A cerca de dois anos atrás ela apareceu na minha vida por conta dos programas sociais da internet, coincidentemente era aniversário de um ano de sua morte. Deixou pra trás 2 crianças pra criar…

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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