Livro do passado à limbo


Em 1998 com a minha rapeize da EBA, saímos do Museu de Belas Artes em direção à Lapa. Andando ao longo da rua Evaristo da Veiga alguém percebeu rabiscos que cobriam toda a parede lateral de um prédio. Essas pixacoes contrastavam muito com as encontradas pela cidade.

1016552_995351250605253_1982748180_nNo meio desses escritos também apareciam exercícios matemáticos. Ambos eram identificáveis, a matemática e a literatura, mas com algarismos e letras diferentes das  familiarizadas pelos cariocas. Rolou uma suspeita, que talvez isso fosse conhecido noutro canto e logo o Audrin revelou o que publicaram nos jornais. Outras cidades importantes no mundo apresentaram esses escritos e ninguém podia decifrá-los. Isso foi numa sexta, na terça-feira voltei ao centro para tirar foto exclusivamente dos escritos, mas eles foram apagados do mármore preto numa habitual renovação do edifício ou das ruas às segundas. Os sinais foram afixados com giz branco.

Recentemente descobri a existência do Manuscrito de Voynich. Pra mim, aqueles traçados no muro, de uma coordenada muito importante da cidade maravilhosa, era uma cópia de alguma coisa do Voynich. Aquele passeio no centro ficou quase que gravado na minha memória como um momento SAGRADO. Naquele mesmo ano existiu um bum da comunicação por causa do impacto da internet. Certamente algum grupo acadêmico resolveu fazer uma certa intervenção artística MUNDO AFORA, quem sabe era com intuito de resolver o enigma desse manuscrito…

Voynich_Manuscript_(32)Uma das teorias do Voynich é que os textos sao de uma língua sem norma escrita, era falada mas nao haviam desenvolvido a escrita. Geralmente a gramática é formada ao longo de muitos anos e por muita gente. As linguas modernas levaram muitos livros publicados até alguém ser envolvido no trabalho de mapear as “leis” dessa lingua. Os estudiosos de linguistica acham padrões nas línguas e repetição de letras, fonemas, estruturas. Nessa lingua do Manuscrito os padroes esperados não se configuram. A língua encontrada na Ilha de Páscoa por exemplo nunca foi entendida, era uma lingua falada e só tem um exemplo dela escrito, numa pedra. Mas será que já existia a escrita dessa língua mas quem desenvolveu o livro não tinha alfabetizado? E portanto criava sua própria escrita pra passar informações importantes a tempos futuros, como a si mesmo mais velho, ou a seus filhos? A necessidade era grande e maior era solidão…

Livingstone-TheUnsolvableMysteriesoftheVoynichManuscript-893Outra coisa apresentada no manuscrito, que parece que eu já havia visto antes, sao as ilustrações. Principalmente a florzinha no lugar do asterisco (o nome dado ao sinal asterisco está datado de 1576) indicando parágrafos. As meninas da minha escola desenhavam exatamente a mesmo flor, quando tínhamos 8, 9, 10 e 11 anos de idade. Eu na contra mao da estética estipulada por elas, desenhava mulheres de salto alto, roupas na moda italiana arrojada dos anos 80, e com cabelos suntuosos para acompanhar o corte das roupas e da maquiagem pesada. Em meados dos anos 80 eu ouvia The Romantics e o White Snake, a moda estava voltada no olhar metalizado. O vintage era baseado nos anos 40 & 50 e este se embalava com neon ou com materiais e cores não disponíveis noutrora. Eu acompanhava o contemporâneo, elas mantinham o esperado perfil FEMININO, ou seja, quieto, curvilíneo, cor de rosa e doce.

Umas copiavam das outras como numa confraria medieval (se torna invisível na cadencia da uniformidade). Aquela que vinha com a melhor solucao de enfeite era logo apontado para o grupo como DEVE ser feito. As mais entusiastas dessa mania faziam deveras outros exemplares, que seriam julgados pelo grupo de trabalho. Um dia notaram que nao era bem sincero a articulação das escolhas dos modelos e a moda de desenhar na margem esquerda dos cadernos cai em declínio. Percebi anos depois, que os meninos TAMBÉM faziam ilustrações conforme suas inclinações, eram mais ou menos como os meus, só que os humanoides capturados nessas investidas artísticas DELES estavam em guerra, exibindo armas.

Voltando ao Manuscrito de Voynich; dentro da minha experiência, tenho por mim que o manuscrito foi desenvolvido por nao mais que 2 maos FEMININAS e de diferentes gerações. O teste de carbono indicou o ano de 1420, dando uma data talvez do ano de produção do papel utilizado e nao do que foi escrito ou quando foi ENCADERNADO. Como me referi antes (no post chamado “Inconstantes que se tornam icônicos“) em algumas sociedades existia a necessidade de passar conhecimento em forma de código para sua própria proteção e das informações contidas. As vezes essas infos nao significavam nada para o grupo; ou basta ser incomum pra que uma pequena sociedade confunda: proibir o diferente. As mulheres sempre foram delimitadas das sua liberdade, ao perceber que nao fazem parte da bolha privilegiada masculina, é possível que de vez em outra esse tipo de fenômeno literário ocorra.18814830_10154822074538869_3041192807873195635_o

No Manuscrito se nota uma boa parte dedicada à natureza (botânica e imagens de mulheres) e depois à astrologia. Será que isso nao é um signal pisca-pisca pra dizer que o livro é sobre coisas relacionados ao mulherio, prevenção, período ruidoso¹, etc…

O livro está em poder da Universidade de Yale desde de 1969 quando adquirido de Hans Peter Kraus. Esse cara foi um comerciante de livros raros, começou nesse ramo em plena recessão, mas lá na Austria, seu país de origem. Com a babaquice nazista ele acaba por aportar em NYC. Em 1961 ele compra o livro pela bagatela de 24 mil dólares da nova-iorquina e aposentada livreira assistente. Ela era Anna Hill e ela viria a morrer naquele mesmo ano!

Mural-Ariel-Rios-Rockwell-Kent-1A jornada de 100 anos de um livro feito a mão começa com um polonês num sebo italiano, eles atravessam o Atlantico evitando ficar pra ver o placar da WWI. Anterior a isso, se cogita que o Manuscrito esteve passeando em prateleiras de um palácio italiano, e antes, com monges. Nessa onda se acredita que livros parecidos como esse, foram trazidos com a corte portuguesa na década de 1810 para o Rio de Janeiro…


Na década de 1950 o governo criou a Ilha do Fundão que se integrou por meio de aterros, naquele manguezal surgia um pequeno arquipélago formado por oito ilhas: Baiacu, Bom Jesus, Cabras, Catalão, Fundão, Pindaí do Ferreira, Pindaí do França e Sapucaia. O aterro teve a função de abrigar a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma proposta antiga sugerida por Gustavo Capanema em 1935.

640px-Igreja_do_Bom_Jesus_da_ColunaA única edificação existente do Brasil Colônia ali era a Igreja do Bom Jesus da Coluna, erguida no início do século XVIII. No local, encontram-se as ruínas de um convento construído por padres franciscanos. Depois holocausto indígena no norte carioca durante o século XVII freguesias se ergueram as margens da baía, a Ilha do Governador data de 1711 e no seu brasão se colore com vermelho de sangue simbolizando a luta portuguesa contra as tropas de francesas.

Agora cabe aqui um outra espécie de registro, a baía da Guanabara era rodeada por tribos de dois povos indígenas, embora rivais, pertenciam a mesma família linguística Tupi: os Tamoios e os Maracajás. Na metade do século XVI, os Maracajás se isolavam no que seria a futura Ilha do Governador. Segundo o cosmógrafo francês André Thevet, havia 36 tabas, cerca de 8 mil indivíduos. Estariam cercados por 70 mil Tamoios capitaneados pelo temido Cunhambebe. – ALENCAR, Emanuel. “Baía da Guanabara, descaso e resistência“, Rio de Janeiro : Fundação Heinrich Böll. 2016

O Parque do Catalão é uma reserva da mata atlântica. A área preserva ecossistemas como manguezais e uma lagoa.  Quando transitava pelo Fundão me chocava com essas descrições acima. Notava que os livros das bibliotecas de cada curso eram digeridos diante dos nossos olhos pelo calor e humidade. Até a arquitetura sofria erosão. As costas praieiras na ilha nao existem em plenitude, sofrem ao contrário com a poluição, com a criação do homem, e estavam lá em resistencia, como se fossem um bravo cavalheiro medieval que luta até seu último suspiro contra as forcas criadas pela TECNOLOGIA, tao estudadas naquela própria ilha.

Em maior contraste com a Universidade de Yale que além das bibliotecas, disponibiliza uma biblioteca dedicada a livros raros com a tecnologia própria mantém luz, humidade e temperatura numa constante e nao influenciando o envelhecimento precoce desses volumes, a UFRJ nao tem nem forcas contra os periódicos ataques das mazelas de terceiro mundo. Durante aquele mesmo ano de 1998, semanalmente as segundas um corpo parcialmente dilacerado, se encontrava na bela entrada da Reitoria. No ponto de ônibus oposto via o corpo de um sujeito negro banhado de sangue que os urubus davam visíveis sinais de agradecimento pela oferta de dejejum posta. Eram removidos ainda nos primeiros período da manha.

Os estudantes sem cerimônias ou histeria cruzavam a entrada mesmo com o corpo exposto. Um dia um professor de projeto comentou que a ilha era um antigo cemitério índio. Ele continuava:

– Tudo que for planificado no Fundão afunda, maldição dos Tupinambás. – whatever fessor, pensei…

E o Kraus desanimado com uma sucessao de falhas, ninharia de erros, se convence que já estava no hora de largar essa profissao dele, doar tudo, viver do que já deu… Afinal estávamos na era da televisão e as gerações seguintes seriam até ensinadas ou governadas pela mídia; livro era coisa do passado…


¹) Período de muitos ruídos, ou seja, sons ruins. Sons que vem dos stereos, por isso, histeria, histérica. Histeria provacada pela dor nos ovários.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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