A roupa do constituinte norueguês


O dia nacional da Noruega seria uma forma de reiteração, uma festividade à honra da democracia que progride na Noruega. Ela, a democracia, não é de toda perfeita, nunca será em lugar algum, já até vacilou, não tenha dúvida disso (leia esse post), e ainda tem, uma parte de gente que nessa data exibe nacionalismo, mostrando uma faceta triste e conservadora (pode-se dizer fascista) que se dissipa no dia seguinte. O dia 18 é dia de branco (nunca entendi muito esse termo, mas meu pai me disse que tem a ver com a camisa branca que se usa quando em escritórios).

748px-Jean_Baptiste_Debret_-_Oficial_da_corte,_1822
“A escrava e o senhor” gravura de Debret 1820. Vai cair a mao do maluco carregar aquela tralha toda.

O uso de bandeiras estrangeiras na parada do dia 17

Rosa: “É absolutamente incrível desperdicar energia num debate desses. (…)” (16 de maio kl. 22:24)

Ásia: “Isso é apenas uma demonstração de solidariedade à/com a Noruega. (…) Especialmente quando levam 2 bandeiras nas mãos, celebram junto ao povo norueguês pois são parte da sociedade. Há uma imensa massa de diversas nacionalidades espalhada por toda Noruega. Não tem nada a ver em desviar a atenção para qualquer outro país. (…). (16 de maio kl. 22:47)

Peter: “Que tal deixar as pessoas se divertirem como elas mais desejarem, ao invés de criarem mimimis?” (16 de maio kl. 22:50)

Caroline: “É isso aí, é Dia da Constituição da Noruega e não do resto do mundo.” (16 de maio kl. 23:06) – Aposto minha janta de hoje a noite com sobremesa inclusa que essa moca estava usando Bunade¹ naquele dia.

Christian_Frederik_J._L._Lund
Christian Frederik, foi indicado para ser rei da Noruega no dia 16 de maio de 1814 (a constituição foi homologada no dia seguinte) e a união Dinamarca e Noruega continuaria até 1905. Esse sucessor da casa dinamarquesa era “neto” da Juliane Marie que mencionei no post “Humanizando as cartas altas”. O filho da Juliane Marie, Frederik que regeu no lugar do seu meio irmao mais velho pela incapacidade mental dele, nao foi capaz de ter sucessores, todos seus “descendentes” eram filhos do militar aristocrata Frederik Von Bucher. Pra fechar com chave de outro, Christian Frederik se divorciou de sua “prima-irma” e esposa, pois ela assumiu uma relação (porra! ele nao era aristocrata) com um professor francês de piano.  O rei noruegues casa-se novamente com a neta do Struennse, que pela linhagem real era bisneta de Frederik V da Dinamarca, como ele próprio seria neto, só que igualmente ambos nao levavam nenhuma gota do sangue de Frederik V, dando assim melhores descendentes a coroa (Isso tudo pra mim é tramado de ante-mao).

Priscila: “Eu honestamente acho super estranho. É até comum fazê-lo por aqui, mas vejo como desrespeitoso. Que fique registrado, se assim o fizessem no meu país, acharia um ato pretensioso (…). (16 de Maio kl. 23:51) – Foi uma resposta honesta, mas levemente ingênua. Acredito que em 2002 o mesmo passara pela minha cabeça, com tempo se acaba por entender melhor a dimensão da democracia, pois se vê ela com mais nitidez depois de um tempo fora da America católica. Será que as festividades do 5 de maio no México convidam toda a comunidade para a celebração? Incluindo os Norte-Americanos, que ora sao hermanos, ora seus administradores tem politicas insanas?

b80489ed279cab6d9ad04470eba637f4Comentei recentemente que as manifestações do dito dia se assemelham ao Carnaval pelo uso das fantasias, as paradas, as bandas e a comunhao total. Contudo os recheios dos desfiles são muito diferentes. De manha, quando o começa a “procissão” das crianças, TODOS, quero dizer, toda e qualquer criança estará na parada. No dia que meus filhos terminarem a educação secundária daí nao terei que acordar sedo para acenar para eles. A tarde é o percurso popular, aonde diversos grupos desportivos, criativos e de associações sem fins lucrativos desfilam com seus respectivos estandartes. Passeia pela minha cabeça que esse tipo de coisa deveria existir com os ingleses e portugueses pelo Rio, lá por volta das décadas de 1820/1830 (talvez antes) até virar alvo da criatividade da rua, da mistura dos povos e acabar sendo esculachada e revisada no entrudo. O Carnaval é o desfile do povo.

¹) Na quarta-feira a NRK divulgou um artigo (o tipo de coisa que os canais privados não ligam, porque nao é de gosto popular, foca no genesis da coisa) que relembrava quem foi o responsável pelo estimulo do uso do Bunade, a atriz e escritora híper-nacionalista Hulda Gaborg.

18588720_1446257895420739_2009540640014169807_o
Estudantes que irão cursar a universidade no segundo semestre do ano. O ano letivo começa depois do verão, ou seja, em agosto! Foto dos anos 50.


Eu só precisava do nome dela
. O bunade é uma coisa que chama muita a atenção assim que voce poe os pés em solo norueguês, especialmente se estiver visitando nos meses de primavera, que até cai bem. No verão fica sendo uma roupa pesada, quente demais; já no inverno a lä que praticamente reveste toda indumentária é pouca pra proteger do frio avassalador, e no outono a mesma se encharcaria com a chuva, igualmente inadequado. Acaba que quem porta uma Bunade somente o usa naqueles 3 meses no ano que engloba a festividade do dia nacional, um eventual casamento, crisma & batismo (ritos religiosos e tradicionais).

O Bunade é mais um dos grandes ícones nacionais. Ouvi na época que primeiro aportei na Noruega. Um cidadão desses complementa a tirada com o pensamento que outros países europeus tem apenas um traje modelo enquanto na Noruega há pelo menos um par de traje tradicional para cada província, e sendo o país um pouco maior que média européia, conta-se um numero maior de províncias. Desfazer d’outras culturas ou nações não anula o seu desconhecimento em relação ao tema. Imagino que isso foi passado desse modo como uma estratégia de marketing.

-Por acaso eu já estudei por 4 anos trajes no curso especializado na Belas Artes, focando na nossa historia ocidental. A começar,

nintchdbpict000300349561
Carmen Miranda exibe melhor faceta da “Bunade Carioca” se baseando naqueles negras e as vezes, cafuzas que andavam pelo centro e vendiam frutas locais: pitanga, abacaxi, pau de cana, manga, vanila-orchidea, limão, laranja, banana, jabuticaba, caju, etc…

Portugal tem uns que diferenciam as camadas sociais. Gostaria mais de ter mergulhado na Asia e na Africa assim como eu fiz com a Europa, só que nao aconteceu. O bunade nada mais é do que a moda convencional européia no final do século XVIII, observe. O que é usado hoje foi concebido como se concebem costumes teatrais, baseado numa pintura mas atualizado na moda vigente. Quando foi instituído o bunade? Assim como no Carnaval no Rio não nos vestimos EXATAMENTE como os índios se vestiam, tomamos a idéia e a estilizamos,  usando muitas das penas dos magníficos pássaros da fauna local mais pedras brilhantes encontradas nas bacias hidrográficas, e a pintura direto na pele. Os descendentes de africanos no Brasil ainda se vestem com rendas brancas e turbantes, o no sul do Brasil os gauchos tem seus bunades que como na Noruega copia a moda usual entre 1789 ate 1830.

17 mai ENDELIG(1).jpg (rw_smallArt_1201)Gaborg, a pessoa responsável pelo conceito, vai pra minha lista aonde figura nomes como Magareth Tatcher, Sarah Pailin, e até Fernando Holliday, (ela é considerada uma feminista, alguma coisa está errada, como uma feminista defende a mulher fazer papel de mulher, me explica? Ter roupa comportada e viver longe dos grandes centros). Essa senhora depois de aposentada ganhou a mais alta honraria do Rei norueguês, a medalha de St. Olav pelo conjunto da sua obra, entre: livros, pecas, e a criação do Bunade. Vindo de um lar desfeito, sem pai nem mae, seu conceito de moral era menos preso, se destacando liberalmente das mulheres a sua volta que deveriam proteger sua castidade a fim de casarem SEM EXPERIÊNCIA PREVIA com um homem. Mesmo sem estudo, conseguiu um trabalho razoavelmente descente pra época no centro de Oslo. Os donos do estabelecimento eram nacionalistas e muito a influenciaram. Ela com 22 publica seu primeiro romance, hoje dizem que esses romances nao fazem mais parte do acervo de leitura dos noruegueses. Publicando livros se locomoveu para teatro. Dentro do seu engajamento politico efervescente que contraiu a idéia de conceber a criação da bunade.

Um traje em que todos os noruegueses possam usar em dia de festa. Todos os noruegueses deveriam ter poder de COMPRA para essa peca mais cara do vestuário. A 100 anos atrás nao era uma realidade, de uns 40 anos pra cá vem funcionando. Os modelos de bunades se baseariam nas vestimentas de expoentes fazendeiros ou mercadores encontrados em documentos e conservados nas devidas instituições como na pintura de Eidsvoll¹ em 1914.

Enquanto de repente a partir de 1910 as mulheres se interessavam em diminuir roupas, nao perder tempo em brocar estampas, e consumir tecidos confeccionadas com fibras sintéticas porque sai mais em conta. Hulda devolve o valor ao bordado sobre a la, tecidos sem mistura de fibras e que tampem bem os moldes mais sensuais FEMININOS, exatamente como um pároco eunuco de um lugar esquecido prezaria a fim de desvalorizar a praticidade nas mulheres do século XX.

18423007_1418669114857648_6694977532474180289_oO custo da bunade nao sai nada acessível, é bem caro, entre 10 à 40 mil coroas², justamente pela qualidade acima descrita. Porém sua durabilidade é incrível, os donos de bunade geralmente as compram entre 15 & 25 anos, ganham com a crisma ou quando entram na faculdade e as usam pro resto da vida. Essa vestimenta anda mais popular agora do que nunca, um negócio da China! Saindo quase o mesmo preço para aqueles mais prolíficos cidadãos que podiam comprar uma paletó desses e exibir naquele evento fechado da igreja em pleno ano de 1800. Entenda que os 10 botões eram decorados a marteladas18595429_458148697910600_6423423643903925037_o, hoje os mesmos, cheio das gracinhas, tem sua produção controlada e facilitada. O corte, o bordado da peca também era outro problema, achar gente apta pra fazer o negocio. A la saia menos salgada em 1800 por aqui, mas os tratadores de tecido e coloração só mesmo em Copenhagen, Amsterdam e Paris. Era assim, o produto básico saía daqui, ia pra lá e depois voltava com cara de obra de arte. Hoje tudo é feito na Tailândia, o tecido vem desses países do leste europeu, só o design centenário mantém, como também o mercado.


PS: Nao tenho nada contra a Bunade. Neguinho ou branquinho se veste da melhor maneira que quiser ou puder.

¹) O local aonde foi  promulgada a Constituição na Noruega. Talvez essa pintura histórica de Eidsvoll seja mais famosa para os noruegueses que a obra prima “O Grito” de Edvard Munch.

²) 30 mil coroas na cotação à 1 mês ante do 17 de maio estava 11 mil reais.

Anúncios

Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias cronica, cultura saber, historia, museusTags, , , , , , , , , , , , , , 3 Comentários

3 comentários sobre “A roupa do constituinte norueguês”

  1. Como sempre aprendi alguma história da indumentária.
    Não salvaguardado de críticas sutis, é um ótimo texto.
    Só não entendi a metáfora contida no desenho, do cérebro batendo no coração.
    Parabéns!!!

    Curtido por 1 pessoa

Qual seria a sua perspectiva sobre esse assunto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s