Pessoas do fim do mundo


A Katarina tem aulas de música na escola. Nao fique pensando “que lindo!”, ela não pode sair tocando um Strauss caso falte eletricidade na festa. A professora é cantora de música clássica norueguesa. Ela se incumbe de apenas mostrar a produção do país e países similares nessa área.

Cavucando a cultura musical nórdica, ela encontrou uma canção dedicada a uma cozinheira, já que o hit folk mais famoso da Irlanda tem também o mesmo perfil nas letras. Esse tipo de som eu chamo de “música de caras gordos & bêbados”, é um estilo caipira. Isso se espalha por todo mundo nos pubs do meio do nada que conta com a clientela que trabalha em fazendas, estradas e minas. Se existisse uma cartela de cores determinando estilos de música, esse estilo estaria na ordem oposta ao do jazz.

Mas por que ela mostrou isso aqueles estudantes? Por causa de uma lenda do norte da Noruega cativante. A jovem Anne Rebecka Hofstad nascida em 7 de abril de 1878 pode ter sido a inspiração da coisa toda. Ela trabalhou com os Rallarene (Peões) e ganhou o apelido de Svarta Bjørn (Ursa negra), que era até uma alcunha comum pra mulheres pobres de cabelos escuros. Quem quer seja a musa inspiradora dessa canção de pub de beira estrada, morreu 500891_4477871c8d6d42qb358442por volta do ano de 1901. A moca morreu num mix de falta de tratamento duma briga² que se meteu e mais a pneumonia.

De tanto cantar essa musiquinha tosca para esquentar tabernas circunvizinhas da localidade Narvik, Nils A. Ytrebergs escreveu um romance em 1959 (o mesmo ano do lançamento do “Gabriela, Cravo & Canela” & “To kill a Mockingbird“) baseando-se numa série de entrevistas que foram feitas nos anos 40 com os ex-operarios da linha férrea. Sagazmente ele destacou Svarta Bjørn emcabecando todo o projeto.


10 anos depois um cara ficou tao abismado com a história dessa rapariga que resolveu bradar
 que a protagonista nada mais era que sua tia por parte de pai, dando mais cara ao fenômeno. A partir desse contexto, nos anos 70, diversos outros livros, pesquisas e também intérpretes musicais foram resolver suas contas com o mito. Nos anos 80, Narvik decorou uma das esquinas do lugar com uma escultura enorme da heroína e um pequeno mu1024px-Norrbo-rallareseu dos rallarene. Como deveriam ter feito em Ilheús com A Gabriela e os retirantes. Já a estátua do escritor brasileiro tinha que estar na cidade dele, 100km sertão a dentro pra quem vem de Ilhéus.

A garota de 21 anos trabalhava sozinha com o labor massante da cozinha e da limpeza. Diferente da Gabriela que estava no centro da cidade amparada por uma série de infraestruturas como carregamento de mantimentos pra dentro do estabelecimento e o próprio clima tropical que oferta frutas e plantas; Svarta Bjørn manuseava uma grande quantidade de carvão para aquecer a estalagem, tinha que fazer gelo virar água, carregar baldes e baldes pra cima e pra baixo nas semanais limpezas do dormitório e roupas dos peões, alem da manufaturação da bóia deles todos os dias.


Os rallarne e essas empregadas ralavam 10 horas por dia direto, um grupo no turno de dia e outro no da noite
. 10hs dormindo e 4hs de tempo livre. Claro que os rallarene faziam de tudo para deitar com essas empregadas e do menos dispendioso modo. ElRallare vid riksgransen 1899as estavam no meio de um monte de caras que foram pra aquela terra distante tentar a sorte porque as industrias em seus locais de PROVENIÊNCIAS os peneiraram. Os governos da Noruega e da Suécia tentaram resolver o que fazer com essa mão-de-obra excedente criando esse investimento aonde o vento-faz-a-curva, um lugar praticamente inabitado, se tornando um lucro win-win (todo mundo ganha).

Nas fontes da internet que tomei leitura (maior parte do Museu digital Norueguês), os historiadores que tiveram acesso aos arquivos afirmam que desde os seus 0187_115 anos, Anne Rebecka fugira de casa algumas vezes – nao era uma vida, no mínimo, confortável junto a sua própria família. Antes de se estabelecer com a indústria férrea naquela área mais remota da sua província, ela trabalhou pra um engenheiro como empregada  durante 2 anos, depois 2 ano
s numa firma e finalmente 2 anos responsável pelos 15 peões da Linha Férrea do Ártico – sempre os mesmos “exercícios”.


Temos uma barriga aqui: toda essa criação nos anos 60 aos 80 da personagem Svarta Bjørn
vai de encontro ao romantismo escondido nos nossos corações de crianca. Acharam, acataram, converteram um número num símbolo, ela era um numero entre tantas cozinheiras nas determinadas estações da linha férrea e se tornou um símbolo do que era a vida da mulher antes da Revolução de 1917 e do Sufrágio. Nao me satisfaço e dispo a maquiagem dessa história. Acho mais bonito aquilo que mostra a verdade mesmo cheia de rugas.

A foto que circula dela é o maior catalizador da nossa interpretação naive que inverte recontos perdidos da memória. Nessa mostra uma jovem muito branca, bem vestida na moda vigente da primeira déc11038403_1423167391311101_3623995887461231974_n250px-Svarta_Bjornada do século XX. A fotografia é de boa qualidade, foi tirada ao ar livre, muito comum em tal época aonde fotógrafos iam as feiras e ofertavam o serviço; as vezes apresentavam a técnica fotográfica pela primeira vez na localidade. No fundo da imagem há uma cortina esticada com o visual bucólico norueguês, pintado a mao (!), mas com pinceladas grossas. Esse panorama faz uma perspectiva insólita à figura humana. A moca tem um traje muito fino de domingo, jóias e um anel de casamento (!). Os noruegueses em  sua completa maioria nao usam na mao direita o anel de casado, por conseguinte, ignoraram esse singelo signal característico da protagonista dessa foto, que visivelmente está de luto e por isso, mudou de mão o anel e ainda segura uma cadeira vaga simbolizando seu marido que descansa o corpo de baixo da terra.

Essa dama deve ter morrido muito antes do livro sobre a Svarta Bjørn ter sido publicado, nunca ouviu a musica folclórica e acabou 100 anos depois na internet ilustrando a lenda. Porém a saga da Anna Rebecka me lembrou a trajetória de algumas das prostitutas assassinadas pelo Jack, the Ripper. Muitas foram empregadas em casas de família e pequenas organizações, foram casadas e tiveram filhos, foram abusadas pelo seus maridos e mal pagas pelo sistema. Procurando resposta fora da Igreja, só encontraram num copo.

Mas essa foto tao legal de uma viúva tao bela e jovem me lembrou também a aventura do Wyatt Earp. A lenda norte-americana cresceu de modo também similar por causa de uma modelo na capa de um livro.

Wyatt_EarpNunca tinha visto o filme Wyatt Earp antes do mês passado. Desperdiçaram um par de bons comentários com a personagem interpretado pelo Denis Quaid. A obra me pegou de surpresa, e por acaso, com paciência, mas me fez perdê-la em pouco tempo. Deixei de ver como acabava aquele VEXAME romântico e bélico, usufruí da minha liberdade e optei LER o que os americanos tem escrito sobre o incidente que tornou o velho-oeste um grande material para filmes de ação durante todo o século XX.

O Wyatt Earp é os córneos do mestre-mór da Katarina. Este se chama Stein, um cara equilibrado, muito querido por ex-alunos, solteirão e apaixonado por fotografia. Quando voce olha pra foto do maluco do velho-oeste, voce identifica um Stein, um cara civilizado, só que a realidade nao era essa. O perfil dos Earp se encaixa muito com o Comando Azul³. Ele com seus irmãos montavam milícia e prostíbulos (aquela combinação!), tiravam dinheiro dos bandidos, dos peões e das mulésinha (lógico, não tinha lei Maria da Penha ou porra alguma) e gastavam com armas, bebidas, com a policia corrupta e empreendimentos mal administrados.

Nas dezenas de filmes toscos que os Yanks se comprometeram a descreve10712931_10152295860951536_3153050255812299009_nr a chacina no estado do Arizona aonde aparece os Earps, se pinta esses criminosos de uma maneira completamente romanceada usando subterfúgios retóricos que dao aquela áurea dourada aos desbravadores do oeste.  Esses sim eram verdadeiros sangue sugas, verdadeiros vampiros.

PS: O romance que tirou o fôlego dos californianos se chama: I married Wyatt Earp“, autobiográfico.  Parece-me que o romance norueguês que descreveu a vida dos operários de Narvik usa do mesmo gancho com a cocota de chamariz. O livro californiano é dos anos 30, e a moca central objeto da aventura era judia, a Josephine. Ela foi o tempero a base alho do prato literário que tanto chamou atenção do mercado californiano, naquela época, antes da WWII e das lutas sociais dos anos 50, 60 & 70. Aparentemente ser judia era pior que ser prostituta para a classe média nos anos 30.

Se os homens morreram, as mulheres viveram bem até os anos 30 pra darem entrevistas. Pesquisas póstumas mostram que se elas eram as mesma coadjuvantes dos que foi travado naqueles territórios, as informações delas não batem, nem mesmo as suas pessoais. Tudo é uma grande mentira.

Em 100 anos irão abordar a violência nas favelas do Rio, Sampa e Bogotá, o clima tropical e a galera cor de cobre tudo de uma maneira romanceada, os cara macho pra caralho, – sei... Que interpretação darão das poucas fotos digitais que sobrarão dessa sociedade?

Ps2: Antes a professora de música tivesse mostrado ao adolescentes Ella Fitzgerald que completaria 100 anos se estivesse viva. Essa gente que forca cultura de branco tá com nada.


¹) Essa estrada era pra recolher minério de ferro. Engenhosamente corria a costa sueca encurtando a beca a viajem.

²) A briga se sucedeu com uma outra cozinheira de acordo com as entrevistas feita aos peões nos anos 40. Todas as cozinheiras mais ou menos eram rebatizadas no local, nomes de guerra, como havia no banco aonde a minha mãe trabalhava entre os funcionários. Pra variar (no sentido irônico) geral romantiza esse conflito, o pivô foi a paixão das duas empregadas ao mesmo determinado cara. Muito improvável receio informar, pela razão 15 homens pra cada cozinheira. É mais racional achar que um dia alguém acordou menos paciente em encarar um trabalho mal feito do parça, que deixou serviço por fazer. Foi discutir, deu na cara, a doida não leva desaforo pra casa, partiu pra dentro. A briga foi notada pelos peões, porém nao apartada.

³) Pensa

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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