A carne é fraca (cronológico)


Minha mae era um grande exemplo a se seguir. Não só pra mim e meu irmão mas para muitos que a conheceram, especialmente outras mulheres. Mas entre a maioria dos homens ficou conhecida como um obstáculo, uma maldição, uma pedra. Por causa disto algumas vezes a posicionaram numa área marginal nas concorrências de crescimento de carreia. Na minha opinião, esse machismo idiota e obtuso foi a Kriptonita¹ que a adoeceu, mais que a fumaça dos cigarros e ar-condicionado central dos edifícios aonde trabalhou.

Quando entrou para o Banco do Brasil seu primeiro cliente, seu primeiro trabalho com conselho economico-administrativo foi para também um cara que iniciava como empreendedor, o Mario da Churrascaria Marius. Nós nos tornamos fregueses desse estilo de brunch² que este moco introduziu no Rio, comum nos Pampas. No rodízio dessa churrascaria em Bonsucesso oferecia banana frita, batata frita, salada de alface, salada de tomate, cebola em conserva, salada de palmito, spaghetti, farofa, feijão e arroz, além dos espestos que corriam com uma diversidades das carnes de boi. Todos aqueles acompanhamentos eram servidos naquelas bandejas que parecem discos voadores ovais. Não havia direito a todos esses discos voadores, o rodízio era acompanhado de apenas 5 daquelas opções. Nós escolhíamos as mais leves, os mais verdes pra comermos mais CARNE.arroz_feij_o_brasil_combina_o_nutricional_paix_o_nacional

Meus pais em toda sua vida nunca tinham visto tanta abundância de carne servida. Eles estavam com seus 3o e 30 tantos anos de idade e em completa felicidade ganhando salários que seus pais não conseguiram nunca ter, era o produto da batalha VENCIDA. Então dividiram com amigos com histórico similar em almoço-ajantarados nessa loucura de lugar, o Mario respondia atencioso, como uma reverencia de agradecimento por esse bom marketing que fazíamos. Um dia o Mário não estava mais lá, se passara quase uma década desde daquela primeira vez e já haviam dezenas de outras churrascarias pela cidade, oferecendo pães de queijos e outros carboidratos e saladas mais modernas, mais sofisticadas.

Nessa mesma época aluguei na rua de mao inglesa da Tijuca, um filme que o enredo era bem similar com o “Fantástico Senhor Raposa” de Roald Dahl. Um primo veio morar com a familia X. A familia do primo era vegetariana, deve ter sido a primeira vez que tive contato  e explicação sobre o que era viver assim. Nesse filme apresenta ao mais sessão da tarde público norte-americano uma série de conceitos e estilos de vida orientais que deveriam ser mais bem-vindos na América. O primo argumenta que a vida de outro ser vivo era preciosa demais para ser consumida numa simples refeição que vc nem se lembra do dia seguinte. A mae da familia X se pergunta:

– O que eu vou fazer pra ele comer então?

Essa cena nunca foi esquecida. Ora, a comida na minha cabeça naquela época nao incluá carne todo SANTO dia (um produto caro, sempre foi, mesmo que encarássemos bastante aceitável em comparacao a qualquer outro canto do mundo, tirando a Argentina & Uruguai). Comidas de todos os dias podiam ser saladas, massas, graos, peixes e FRUTAS.

Os anos foram passando, a lusitana foi girando, fui revendo comentários e posições que ouvi MUNDO a fora, examinei em que pé andava a economia global a minha volta. Antes o mundo foi me dado pelas experiências e aspirações de meus pais, nos anos 90 tomei o timão para que nao encalhasse nesses recifes:churrasco

  1. Frequentar churrascarias e rodízios foi uma coisa que comecei a abominar as vésperas do ano 2000. Se satisfazer com essa abundância de comida era uma coisa deselegante para minha NUTRIÇÃO e amarga para o meu bolso.
  2. Bené & Gundi eram um casal matogrossense que meus pais conheceram num cruzeiro. Eles eram latifundiários no oeste desse estado fazendo quase divisa com o nordeste da Bolívia. Esse casal tinha uma cobertura de 300m2 na praia da Barra. Gundi era alema, nao tenho idéia das suas proveniencias, ela nao diferenciava nada dos colonos que vieram fugidos dos maltratos de pobreza e desigualdade no século XIX. Por uma especia de um duro na vida encontrou na velhice muita riqueza monetária e provavelmente muita solidão. Então se uniu a esse cara. O sotaque dela era muito leve (o que me fazia suspeitar que sua língua alemã se evaporava sem ela sentir depois que seu ex-esposo, também alemão, faleceu). O Bené era sem dúvida analfabeto. Isso nao invalida ninguém à comprar carro, apartamento e passagens de viagens, porém instiga qualquer um a questionar como alguém fica assim tao rico sem ter exatamente uma mente brilhante que o destaque para soluções convenientes ao grupo ou a si próprio, que não sejam ILEGAIS.  O que ele entedia e praticava era o a lei de Gerson³. Ele supria um companheirismo que faltava para aquela senhora branca e com grana num lugar notório pela ignorância em relação as mulheres. Com isso ele também criava uma barreira legal caso ele tenha filhos com seus casos sexuais. Um pouco antes de vir pra cá, visitei o apê deles com os meus pai e meu irmão, na Barra. Na cobertura tomando uísque muito preocupada com o rumo da minha carreira, fui conversar com o Bené sobre o que ele andava fazendo. Desvirtuou ao gosto dele o rumo do papo e me confidenciou que eu era muito inteligente, ele estava muito a fim que eu escrevesse um blog pra ele (o termo “blog” não foi usado na ocasião, talvez mandar cartas à revistas e jornais do Rio & SP), ele queria opinar sobre as ocupações que MST na região dele. Que os proprietários de imóveis assim deveriam ter mais direitos contra aquela gente “CRIMINOSA”. O Bené era mais um que parece jurar vingança (sem filtro e alto teor nazista) da miserável infância que teve. Atenção, ele nao se movimentava contra o sistema, ou quem criara as injustiças daquele lugar, porém ele se alterava com quem tenta mudar as regras do jogo (a infelicidade de ver outros felizes, o medo de ver outros crescendo quando ele não teve as mesmas sortes). Perguntei como ele tornou pecuarista, aonde ele ganhou know-how ou que exercício ele fez para capitalizar e arrendar o primeiro hektar. Ele disse que foi comprando aos poucos, muito devagar mesmo. E antes? – Insisti – e antes trabalhou pela selva amazônica revendendo pele dos animais nativos que comprava de caçadores até IBAMA confiscá-las (daí, o cara desliza juras de ódio ao governo por medidas que protegem o país dessa ilegalidade e imoralidade). Abri as velas do meu barco e rumei ao extremo norte do Atlântico e nunca mais os vi. Sabe, cada vez que você come um boi (ou seja: visitar 1 vez churrasco + 20 vezes o fast food + 2 vezes a churrascaria) voce deixa essa pessoa mais rica, que muito provavelmente injeta, feliz da vida, divisas na bancada da bala, na prostituição, etc…
  3. A descoberta da soja pelo burocratas. Existe umas dezenas de relatórios disponíveis na internet, estudos, a grande maioria publicado por norte-americanos, sobre empresas que estão sediadas no oeste do Brasil fazendo desse espaço o celeiro mundial. Que órgãos de proteção ambiental ou trabalhista vão tomar conta disso com um governo que se curva em total obediência ao requerimento desses aliens?

Adoro carne, mesmo na sopa tem lá um pedacinho pra dá gosto e incrementar.  A diferenca é que andei me conscientizando bastante nesses últimos 15 anos. Mudei muito a forma como registro o que consumo, limito muita coisa porém anular jamais. É um pensamento bastante similar com o uso parcial de drogas já que estas capitalizam a industria bélica. O consumo animal se tornou mundialmente mais acessível, contudo o principio disso nunca foi estancar a fome da espécie humana, o gol é a vender, multiplicar os fornecedores e fabricar dinheiro para mãos ERRADAS. 5857398094_a1bceb42ef

Acho louvável o crescimento de vegetarianos e veganos no OCIDENTE. E o fato de como eles sao encarados por correntes medíocres, fica me parecendo um alerta forte que a mais real forca rebelde hoje sejam justamente quem nao adere a carne.


Dr. Drauzio Varella

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda ingerir, por dia, cinco porções de frutas e outros vegetais. Apesar da recomendação, a dieta de dois terços dos adultos não atinge esse nível.”


¹) Pedra do planeta Krypton que enfraquece o Super man

²) Lanche/almoco que toma TODA a tarde de domingo.

³) Tirar vantagem com TUDO.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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5 comentários sobre “A carne é fraca (cronológico)”

  1. como sempre gostei muito. Sua mãe estava certa porque agia corretamente e, consequentemente, sofria por isso. São os ossos de viver no Brasil, mesmo sabendo que o MUNDO é machista. O Brasil tem suas particularidades de pequinês na forma de pensar dos brasileiros.
    Permito-me acrescentar que na “kriptonita”, além desses desgostos profissionais diários, há também que por na balança algumas decepções e mágoas pessoais, o que como irmã, acompanhei, mas que não vêm ao caso, por não ser este o foco do tema.
    Acredito que sua mãe sentia, como eu, uma necessidade de superação constante desse sistema nacional facista, o qual nos engole por sermos de origem pobre, mulheres, cultas e fortes, não se vendendo e, ainda, “termos a ousadia” de ter acesso a coisas boas como viagens, boa comida etc, que são ditos como privilégios dos ricos.
    Ela foi economicamente mais bem sucedida do que eu, o que sempre foi motivo de orgulho para mim, que até hoje tento muito dar um “up grade” na profissão.
    Mas hoje é muito pior, o sistema é bem mais sujo e cruel, talvez Deus a tenha levado porque provavelmente ela não aguentaria tamanha sordidez.
    Quanto a carne admiro sua postura de conscientização, é no mínimo sustentável nos termos de hoje e elegante.
    Tenho pensamento similar.
    Só acrescento que hoje o peixe não é mais um alimento acessível no Brasil, ao contrário é caríssimo, só privilegiados comem.
    Na minha luta com esse sistema, teimo em comer ao menos uma vez por semana (peixe de qualidade claro).
    Porém o nobre salmão ficou mais raro.
    Vegetais e frutas sempre serão “os recomendados”, os bonitos da fita, adoro, mas como filha do Chrizanto, seu avô, não perco uma boa “fritada”, omelete na versão mais pobre e saborosa, assim como angu, lagosta e torresmo.
    Vamos indo.
    Parabéns, linda!

    Curtido por 1 pessoa

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