Bem posicionada


 

Cada dia que passa nessa minha aventura em terras norueguesas fico mais e mais abismada negativamente com a interpretação limitada de certas pessoas daqui. Logo as pessoas que detém um documento que as destacam como seres de interpretação superior  e  elucidada. Eu tenho as minhas desconfianças que isso não procede, que isso é faltoso com exercícios de assimilação e conhecimentos prévios de história.

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Um exemplo que gostaria de citar sobre o que descrevi no primeiro parágrafo é que a uns anos atrás eu cheguei a conhecer uma dona que visitou o Brasil algumas vezes. Ela apesar de muitas vezes ter passeado em diversas cidades brasileiras, optou nunca por o Rio de Janeiro no seu itinerário. Numa mais alongada estadia no país, ela se envolveu com um índio. Perguntei dos costumes do sujeito, e foi afirmado que seu “clã” só comia churrasco de dia, de tarde e de noite. Quando eu me deparei com o sujeito, a primeira coisa que percebi era que o cara não me parecia ser índio, ou melhor, no máximo um cafuzo, já a gerações. Índio é só um gíria usada pra pessoas marginalizadas ou fora dos eixos “civilizados” (melhor dizendo: urbanos) no sul do Brasil, da Argentina e dos demais países dos Pampas – ou em outras palavras, um termo até bastante romântico e assertivo pra designar “DESCLASSIFICADO”, ofendendo menos ou nada. Outra coisa é a dieta dos índios, essa nunca fez exclusividade as proteínas, muito menos à carne de gado, uma carta claríssima que quer dizer o quanto esse grupo de pessoas que ela conheceu não passavam de pessoas bem afetadas pela ditadura do consumo brasileiro atual.rosas

E daí? Uma norueguesa dessas tem a prepotência de ser o elo comunicativo da cultura da América do Sul para centros nórdicos, só porque visitou o patropi um par de vezes.


Na segunda pipocou no meu visor a nomeação de uma mulher pelos meus camaradas nórdicos. Ela simpatiza pelo partido Høyre (direita). Esse partido governa a Noruega no momento. Essa moca é mais um peão do partido, foi nomeada sem as devidas prévias de entrevista. Hierarquicamente falando, essa posição de diretora do museu de arte de Oslo pode ser visto como a mais alta depois do representante do ministério da cultura.

Não ouvi sobre a nomeação dela na rádio. Ouvi sobre a data nacional Samer (Lapoes) que completa 100 anos redondinhos no calendário. Isso sim tinha que ter pipocado entre os meus conhecidos noruegueses. Os Samer até meados dos anos 50, viviam o preconceito na pele todos os dias. A data nacional comemora a criação de um grupo Samer com objetivo de estreitar relações com o governo norueguês e fazer representatividade na capital. Os Lapoes pagavam mais tributos pelo trabalho e pelo lugar aonde moravam só porque eram Lapoes. Esse projeto que iniciou numa reunião, ou melhor, numa arena foi o início do fim de um povo ser subjugado porque são um pouquinho diferentes. Eles são diferentes porque a natureza impõe certas circunstâncias, a roupa deles está diretamente ligada as condições climáticas e o material disponível naquela região. Já a Noruega por pelo menos 200 anos impôs o bokmål¹ e o luteranismo aos Lapoes no intuito de eliminar a língua deles lá e a execução das suas cantorias (o Joik).

A luta deles não terminou ali nesse dia 6 de fevereiro de 1917, voltaram muitas e muitas vezes até que nos anos 80 conseguiram transmitir jornal e programa para crianças na língua Samer pela tv norueguesa. Infelizmente a emancipação lapônica está intrinsecamente ligada com a expansão da comunicação. Quando os Lapoes foram aglutinados ao povo norueguês NATURALMENTE, se eliminou o estigma de serem “índios do polo norte” pois os “comunistas” ganharam o status amaldiçoado.

Sempre vão achar alguém para apontar o dedo sujo na cara do outro. Depois que a cortina de Varsóvia se abriu, passou a ser o pessoal que usa turbante e que segue o profeta Alah, os bandidos da vez  pra o homem de bem.


A moca nomeada se chama Karin, ela escreve para o jornal sobre cultura e arte. Ela como um monte de jornalistas na Noruega enfia um Trump no seus textos mais que coisas sérias norueguesas, como os Lapoes ou o desemprego na industria petrolífera. min-cewe-fotoverden-2016-brasil_mcf-dateien

Ao acessar o seu último texto publicado – ela escreve um por mes – vi que ela tentou “desenvolver” uma reflexao em cima de uma pintura escolhida pelos Republicanos para coroar o almoco de inauguracao da nova presidência. Um ato solene tradicional dos EUA. Ela nao acopla, ou se quer, meniona o texto original do qual ela se inspira ou pesquiza. O texto original do qual ela PLAGIOU, é de autoria de Philip Kennicott, crítico de arte e arquitetura, publicado em 13 de Janeiro desse mesmo ano, titulado. “The controversy behind the painting that will hang at Trump’s inaugural luncheon“. Kennicott já foi premiado pelo Pulitzer como escritor & cronista. Nessa crônica, ele detalia mestralmente tudo em volta da pintura, cita nomes com incrível bagagem, alías todos os nomes de responsabilidade pelo movimento da pintura até a capital americana e do movimento contra a pintura. É um texto muito interessante que antes de mais nada faz publicidade das obras confeccionadas por esse povo. Mas a dinamarquesa (ah, tem esse detalhe ela é do país vizinho) leu mal lido, julgou destacar um certo material quente para o jornal que está vinculada, e nem se deu ao trabalhao de intercambiar culturas. De fato, o que me irritou foi sua análise da obra que se reduz a apenas:

“Aqui estão as pessoas reunidas: os homens bêbados e jogadores, homens proeminentes e rapazes. (tema) Central para a pintura “O veredicto do povo”, vemos um grupo de homens brancos que representam os formuladores de políticas

As mulheres estão bem posicionadas em uma varanda, como espectadores de fora do evento, enquanto alguns afro americanos sao representados na pintura, como servicais e escravos.”

bf22e26d-010d-47dc-8dec-d3957de11dc0A pintura “The Veredic of the people” é realmente magnífica. Ela conta milhares de histórias, assim como muitas de gostos comuns e notórias daquela época. Hoje estao perdidas em arquivos bibliográficos. A pessoa que teve a idéia de escolher essa obra está de parabéns e galera que nao perdeu tempo em criar caso com os Republicanos, dou todo o meu apoio.

As mulheres praticamente nao existem no universo político feito pelo estudo cirúrgico do pintor. As que aparecem estao sobre o brilho da luz, que interpreto como: uma ponta de esperança.  Elas aparecem alegres e festivas, protegidas do populacho que toma conta da rua. Deixando óbvio ululante que eram as mulheres da mais alta ala da pirâmide social. Ao lado delas está o banco (pra tu vê). Assim como elas que margeiam o canto e o fundo da perspectiva, no lado opostao da obra, está no primeiríssimo plano: o ESCRAVO. Como se fossem destaques da sociedade que NUNCA vao se intercambiar, digo: nunca!16487420_1790361457656570_5516771353410096504_o

O pintor George Caleb Bingham era filiado ao Whig party. Esse partido norte americano nao tinha contato com o inglês. O partido dos Whig nos EUA eram bastantes progressistas, anti-escravagistas, anti o status quo que os democratas e macons praticavam. Agora, se a proposta do presidente dos EUA era deixar esses 2 grandes símbolos “negro” e “mulheres” como foram representados num quadro de 1855, estamos muito mal.


O movimento Lapao foi liderado por Elsa Kristina Laula Renberg. Seu objetivo era que a língua lapônica fosse aprendida nas escolas. Fico imaginando ela reunindo esse grupo  de lapoes, todos criadores de renas como ela, pra ir à Oslo e lutar por esse direito, que nao foi concedido em sua vida. Outras mulheres deviam ficar boqui-abertas com a energia que ela emanava, pra quê? Pra salvar a cultura dos seus antepassados nesse mundo que cada dia se torna mais pasteurizado.


A OCA, organização de Arte contemporânea publicou o tema pra esse ano a ser explorado: as tribos indígenas do Lapão.


¹) è a língua oficial da Noruega, descendente do dinamarques antigo.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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