As imagens, as noites alternativas, as freiras e a profissional.


Depois que eu li Umberto Eco & José Saramago passei a refazer as minhas idéias sobre a Idade Média que ainda não estavam ali. Ali, digo, nas estantes do meu imaginário, nas páginas da  minha mente. A coisa não se deu num estalo, foi galgando bem devagar, bem devagar mesmo. Os próprios autores tem a sua forma de conduzir com os leitores seus estudos, sua divagações sobre o tema, sobre essa determinada fase da humanidade, forcando-nos a refletir e pesquisar, e as vezes em outras atividades, retornar ao ponto por eles levantados. Em 2015 pra cá, começou pipocar estudos que espelham tudo menos “trevas” no que funcionava e não funcionava na cultura ocidental. A Idade média está passando por uma revisão e um olhar “positivo” está sendo super debatido.

O revisionismo tem muito que passar a limpo. Inclusive a história recente no século XX. A maioria das pessoas saiu da porta da Igreja pra ficar prostado de frente pra televisão. Irônico e intrigante pensar que o trabalho crucial da igreja é nos ensinar a não sermos viciados. A exemplo, ser refém de IMAGENS, refém de algo que vc gosta muito de fazer e tira você do outras importantes atividades para sua existência.


Noites alternativas

“Foi mal, mas nós preferimos não serví-las”. Estava sentada num desses bares da praia de Copacabana junto com um monte de amigas, todas estudantes universitárias. Aceitei para evitar discussões (Elas contudo ficaram muito irritadas, vasei mais que depressa dessa espelunca e me salvei de desperdiçar dinheiro atoa). Incrível, mas houve mais aborrecimentos na minha infância e adolescência numa escola católica por babaquice semelhantes, com a grande diferença é que você já está pagando pela cadeira que está sentada e não pode simplesmente sair.

Já com os caras, não achei estranho quando ouvi comentarem que foram detidos/atacados por estranhos simplesmente porque usavam brincos. Muitos de nós foram maltratados em sua própria casa porque escolhemos nos vestir “crossdressed“, um termo que achei recentemente sambando na boca de doido. Muitos foram rotulados de loucos continuamente por conhecidos (o que queriam enfatizar com isso?). Só estávamos interessados no diferente, queríamos uma outro OPCAO pra o visual próprio, que melhor espelhasse outras opções intrínsecas a personalidade.

Deixávamos ser guiados primordialmente pela cultura e dentro dessa instancia, principalmente pela música. Aquilo nos aproximava de uma resposta, então naturalmente crescia essa ânsia por saber mais sobre esses que mais moldaram essa abertura na nossa cabeça. Queríamos saber sobre tudo, queríamos até discutir da sua experiência!

Não via nessa época posições políticas embutidas nesse contexto, aliás evitava separar, queria que todos assimilassem o que vivia. CONFLITO afasta. A minha posição e opção era e é a alternativa.


Uma FREIRA quis me dar uma volta de R$300¹medieval-nuns

Desenvolva, Ricardo:

Ela não estava fantasiada… Se estivesse acreditaria mais no que se sucedeu… Até tive pena, não chamei a policia… Se não tivesse devolvido minha merreca, aí sim, teria chamado os cops…. Se nos dias de hoje dão uma volta na cara dura por 300 pila, imagine o que não faziam na época da Inquisição em troca de metade dos bens dos acusados de bruxaria?

CONTA DIREITO, CARALHO

Porra, ontem vi um anuncio de um piano para doação, cheguei lá pra ver qual é, me disseram que o piano era 500 reais. Não tenho essa grana e os notifiquei disso. Uma das irmãs, me falou pra “abrir meu coração” e fazer uma oferta.

Hoje, cheguei lá com 300 pratas pra oferecer pelo piano, uma das freiras pegou o dinheiro, apesar de ter dito que só podia pegar o piano depois das 19h… Quando cheguei lá no horário marcado pra pegar o piano, a irmã avisou um novo valor de 1500$. Pedi meu dinheiro de volta e ela perguntou: “que dinheiro?” O sangue subiu, brother...

Apareceu um padre, foi logo se metendo, falando pra eu ir pra casa, que já tava tarde, amanha resolveríamos essa história. Só que desde o dia anterior eu estava sabendo que naquele mesmo dia eles iriam cair na estrada, era o último dia no Rio. Essa gangue iria partir de madrugada pra outro estado. Depois de eu ameaçar chamar a polícia, eles me devolveram o dindin.

Me deixa bolado pensar que se essa historia chega à polícia é capaz de eu sair como pilantra, afinal de contas é a minha palavra contra a de uma “freira”… Que loucura e um bando de filho da puta.

Resumindo: o anuncio era pra doação, quando cheguei lá a historia começou a mudar, virou 500 e depois 1500. Eu somava de anti-mao os mundo & fundos que gastaria pra reformar, afinar e descupinizar o treco. Num site de compras, dá pra achar por 1500 outros pianos em bem melhor estado. Tenho certeza de que era uma ordem religiosa pasque elas faziam parte de um tradicional colegio católico, que acabou de encerrar suas atividades em Botafogo.


aroo2Sao Tomás de Aquino afirmou: “Se a prostituição fosse suprimida, a luxúria descuidada derrubaria a sociedade”. Justamente porque era uma época com muito pouco entretenimento visual. Geral, estou falando de números que superam a margem de 95% da sociedade, não sabiam ler ou escrever, o que não interferia tanto em serem mestres em diversas áreas de manufaturados e na produção alimentar. A Igreja sabia que a grande droga europeia era o sexo, em tal época superava qualquer outra. Hoje o nosso hábito de ler e escrever se tornou mais uma droga que compete com o sexo.

Prostitutas na idade média por lei eram condenadas a andar nas mais simples indumentárias tais quais as freiras que estavam conectadas a uma ordem. Ambas estariam assim pra que não se confundissem com mulheres da sociedade, ou seja, com aquelas atreladas a um senhor. Rendas, jóias, qualquer luxo, posses eram usurpados delas por autoridades. Em parte, funcionava no mérito de que o ganho nessa atividade seria pouco ou nunca investido em ostentação, mas em básicos, como: alimento, saúde, higiene & dependentes. Darius Stransky, um blogista medievalista, coloquial e simpático na narração, comenta também que freiras exerciam desse mesmo oficio caracterizado como mais antigo do mundo. Ele sugere leituras de vários autores. Esses afirmam ser o clero a maior clientela de uma casa de massagem na Inglaterra no séculos XIII,  as casas de massagem igualmente conhecidas como “Stews“.


Profissional das ruas de Copalady-300x300

Copacabana não me engana e muitas vezes me deparei com damas da noite nas ruas do bairro. A caminho da Bunker, tive a infeliz idéia de ir pela orla a exatos 20 anos atrás. A noite estava quente, queria sentir os ares do bairro que pouco frequentei na minha vida.

Como um filme catástrofe hollywoodiano veio a chuva com violência, aquele seu volume compatível ao final de janeiro. Um porteiro que conversava com um morador, abriu o portão de ferro já que andava grudada ao prédio pra evitar chegar ensopada num lugar público. Ele disse: “Pode entrar e esperar a chuva passar”. Passado 2 minutos, sai do elevador e ao meu lado fica apreciando a chuva comigo, uma moca que podia ser 2 anos mais nova ou mais velha. Ela parecia uma estrangeira, loura e alta, de tez clara, muito pálida para o verão carioca e uma roupa bem estranha que até lembrava a Jamie Lee Curtis no filme mais engraçado dos anos 80 “Trading Places“. Como eu não me expressava, ela tomou pra si que deveria iniciar o uso do verbo comigo.

Primeiro comentário da moca foi que dado esse tipo de chuva d’onde ela vem, só no dia seguinte seria possível se deslocar. Medo. Não me movi, não pilhei conversa, apenas continuei gélida apreciando a chuva se queimar quando encontrava os holofotes a beira da areia. Todavia continuou ela a mover discussões. De todas as pessoas mais simples, trabalhadores, descendentes diretos de escravos, moradores de cidades empobrecidas da região metropolitana, eu nunca ouvi alguém falar tão errado na minha vida como essa moca falava. Se eu naquela época a ouvisse pelo telefone, eu assumiria que fosse negra, pela tradicional maneira do Brasil assegurar  ensino básico a sua PRÓPRIA população. Mantendo o status quo de séculos passados.

Portanto perguntei de que lugar no Brasil ela vinha e era do MT. Entre outras particularidades dela, me disse também que seu cliente fez questão de ficar com sua peca íntima. Dessa vez eu revidei: “essa info é desinteressante”. Tola, não entedia que o horário de trampo está contando. Possivelmente eu estava sendo vista, como quem sabe, mais um cliente alto padrão, ora seja o Benedito. A chuva abriu um corredor ao meu destino e vazei.


De baixo de uma roupa tem uma pessoa nua, igual a qualquer outra. Que luta contra problemas externos ou internos, que tem passado, que torce esperançoso por um futuro melhor.

PS: Aquele piano que as freiras vendiam pertencia a quem ou que organização? Foi doado ao grupo?


¹) História compartilhada de um camarada Dj & tatuador.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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