Epi-quê? _…fania


Den evig populære mørke horisonten skal slippes denne dag.¹

Hoje é o sexto dia de janeiro, uma data que eu tenho muita simpatia. Já sei por causa de quê.  Eu acho o Natal muito chato, não tenho a minha mae do meu lado pra mutuo qualquer nota. As atividades comerciais estão tão impregnadas… de alguma coisa braba que você se pergunta: “aonde termina nosso trabalho começa o trabalho de consumo?”. Já a Epifania ficou, digamos assim, sem aquele mérito todo obsessivo que estamos vendo durante a data do nascimento de Cristo.

epiphanie-2017-les-patissiers-rois-de-la-galette-photo-12Pela segunda vez conferi o Galette des Rois ontem no Instituto Francês de Stavanger. Um chega-mais coroado com um bolo deles lá, que é uma massa de torta salgada-doce com amêndoas e macas… Uma criança de 3 pra 4 anos estava com uma coroa de papel que não era do Burger king, o que me pareceu uma grande sacada francesa de configurar as crianças como aqueles inusitados convidados do nascimento de Cristo que partiram para sempre naquele dia que nós hoje chamamos também de dia de Reis. Quem eram esses caras? Além de reis…

2015-01-04_15-40-36_galetteFui pesquisar e ler sobre esse pastelão francês recheado com creme amanteigado de amêndoas e a data comemorativa na Franca. O padrão festivo segue igual em todos países franco-filiados. Essa Gallete des rois é outro lance da culinária francesa pró-caloria, sem fruta fresca nenhuma, amigo. O chefe de cozinha do refinado hotel próximo ao instituto que preparou o doce deu uma manerada na trosobada para que o confeito não descesse tao pesado.

A Gallete foi criada por uma genial dona de casa ou cozinheira do século XVI, Madame Brégy como presente para a mãe do Rei Sol, Anna d’Austria quando em sua regência. A receita deve ter saído em periódicos de tempos em tempos para assim tanto se popularizar entre os franco-fonicos. Depois, usar frutas frescas em pleno inverno, difícil e o olho da cara. Não me lembro de amêndoa nenhuma em nada brasileiro, só algum creme cosmético brega que obviamente nunca usou  nenhuma amêndoa na composição. A castanha só dá cara ao produto de consistência europeia, uma coisa exótica para o sul-americano e portanto atraente. A amêndoa está presente em praticamente todas as paradinhas de natal, ano novo, páscoa dos países escandinavos, Franca, Alemanha & Italia.

spartacus03Aparentemente já existia essa data comemorativa com os antigos romanos, chamada Saturnália. Por sua vez a Saturnália é só mais uma tradução do festival popular de Atenas, a Kronia, em nome do Deus do tempo, pai de Zeus, Cronus – para os etruscos, Saturnus -Esses festivais fechavam com chave de ouro a pausa laboral do ano, quero dizer, a produção de manufaturados & agricultura iria voltar as atividades normais depois desse acontecimento. Também trabalhar sem luz é phoda, e no frio! Mesmo que não houvessem nem na Grécia, nem em Roma, nem no século XVI na Franca órgãos de pesquisa, dava pra notar que a incidência a incêndios é maior quando existe necessidade de luz e aquecimento na maior parte do dia para se trabalhar. Aqui em Stavanger nessas 3 semanas da virada para ano novo sempre deu mais trabalho aos bombeiros. Agora, nesse par de décadas, arranjaram um rival nessa estatística: pizza congelada na mao de solteiro, o maior cúmplice de acidentes incendiários na Noruega.

A Saturnália era pública e provavelmente arranjada pelo município. “O dia que os escravos são reis” era tipo um slogan (defendido por historiadores) e dentro dos padrões romanos, se sabe que o banquete era regado a vinho, mulésinha pagando peitinho, samba sobre távola, etc…  Uma parada que me parece o melhor exemplo de POPULISMO clássico, assim como o novo prefeito da cidade de Sao Paulo quer fazer do seu governo, salpicado de pequenas ações exibicionistas como esmolas, mas com controle total em que as classes não se misturarão ou muito menos se movimentarão.

BREVES ANOTAÇÕES SOBRE O DIA DE REIS

de Luis Antonio Simas

(…) o Natal foi datado em 25 de dezembro pelo papa Julio I, em 376. No calendário católico, o Natal marca o encerramento do Advento 1 (as quatro semanas que antecedem a celebração do nascimento de Jesus) e anuncia a Epifania (a manifestação de Cristo aos Reis Magos do Oriente).

A nossa tradição do Dia de Reis é ibérica – a festa é forte pacas na Espanha e Portugal – e manifesta-se na formação de grupos de foliões que visitam as casas com estandartes e instrumentos musicais. Munidos de violas, pandeiros, reco-recos, sanfonas, chocalhos, cavaquinhos e triângulos, os foliões entoam músicas em louvação aos Santos Reis e recebem, em troca, oferendas propiciatórias ao festejo.

(…)
Além dos músicos e cantores, muitas folias são compostas por palhaços, dançarinos (…). Os palhaços são personagens que não podem faltar nas Folias de Reis. Folia sem palhaço é fake, pode apostar. Tem uma curiosidade bacana aí. A tradição diz que a função dos palhaços é a de distrair, pelas brincadeiras, os soldados de Herodes, impedindo que eles encontrem a Sagrada da Família, (…)15844274_1163706030364079_8740623488790038441_o

(…) Veio da Europa a nossa tradição do bolo de Reis, normalmente preparado com frutas cristalizadas. Em algumas regiões de Portugal, o bolo é servido com uma fava 2 escondida. Quem encontra a fava – ou algum outro brinde 3– deve ser o responsável pelo bolo do ano seguinte. Tradição similar ocorre na Itália.

Na Espanha é hábito a criança colocar um sapato na janela (costume entre nós enraizado no Natal) com alguma oferenda aos Reis. Reza a tradição que, na manhã seguinte, o sapato amanhece com doces e presentes deixados pelos magos do Oriente.

Já a minha avó gostava de fazer a simpatia da romã 4. A fruta, originária da Pérsia, é presente em várias culturas com significados propiciadores da prosperidade e da fecundidade (fato provavelmente originado da sua grande quantidade de sementes). Os judeus lembram que a romã possui 613 sementes; mesmo número dos “mitzvotis”, os provérbios sagrados da Torá. O suco de romã ainda é tomado em regiões da Índia como um propiciador da fertilidade feminina. O Brasil herdou de Portugal a tradição de que devemos retirar da romã nove sementes no Dia de Reis; com rogações a Baltazar, Gaspar e Belchior. Três sementes devem ser comidas, três devem ser ofertadas e três devem viver dentro de carteiras ou bolsas onde se leva o dinheiro. A prosperidade no ano que se inicia estará garantida.

Um bom dia de Reis para todo mundo. O cancioneiro de Reis na música brasileira é vastíssimo. Aqui eu vou de Trio Parada Dura, dos grandes Creone, Barreirito e Mangabinha. Essa versão, adaptada da tradição popular pelo Mangabinha, é linda.

Aqui eu entro com as minhas observações sobre as anotações do historiador carioca.

  1. O calendário adventista é super valorizado nos países nórdicos (Alemanha & Escandinávia) – eu fiquei impressionada que no filme Bad Santa, aparece aquela tosquice dos chocolatinhos do calendário. Cada buraquinho com uma passagem bíblica e um chocolate merda que é consumido gradativamente durante 24 dias até chegar o Natal. As crianças ganham as dezenas essa porra, que me irrita pela quantidade de lixo que isso faz. O método de lavagem cerebral promovido da igreja fica a desejar, porque as crianças avançam no chocolate. O comercio está mais interessado em vender motivos mais adorados pelo esse mesmo público como as imagens do Lego, Disney & Star Wars e não de Cristo, sinto muito.
  2. Em algumas tradicionais padarias portuguesas eu encontrava fácil o bolo de reis. Não necessariamente com frutas cristalizada, ao gosto do freguês, e com um brinde: um cordão ou anel baratinho envolto no plastiquinho dentro do bolo!
  3. Na noite de natal na Noruega tem uma brincadeira na sobremesa. Eles escondem a amêndoa no arroz y leche deles aqui. O arroz doce norueguês é carregado no creme, como quase tudo por aqui é puro creme, tanto que se chama riskrem (Creme com arroz – forçosamente traduzido a se fazer entender em português). Essa sobremesa muitas vezes é banhada com Jul-på-Gimle-gård-0101uma boa calda de framboesa. Depois de comidas bem pesadas como costelas de porco – a janta mais popular no país no Natal – geral cai dentro dessa sobremesa. Todos querem ser sorteados com a amêndoa do riskrem, pois a prenda é um porco de marzipã (uma massa de açúcar e amêndoas). Apesar das frutas secas serem muito consumidas na minha casa, o marzipã é completamente mal visto. Sou mais paçoca ecológica. Amendoim é coisa de festa junina que marca o lance de inverno (noite mais longa do ano) igual o Natal está propositado com o pessoal da Ursa Maior².
  4. Já que desencovaram a romã, no livro do Roald Dahl,My uncle Oswald” vem com essa mesma temática de que a fruta é um estimulante, masculino, tudo pra enganar os trouxas. Além de ser deliciosa é vermelha, a cor da paixão. Por falar em amor, o Jorge Amado insurgiu com a folia de Reis na Gabriela. A heroína enclausurada numa festa em clube, de branco, como outras damas estavam, me faz o absurdo de sair do coquetel de classe, pra ficar cantado e dançando descalça com caras vestidos de palhaços e outros desclassificados. Eu, sorrisos.

¹) “A eterna popular escuridão do horizonte vai se desfazer hoje”

²) As estrelas do hemisfério norte que guiam viajantes. Bom lembrar.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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