Exibições II (volutariando)


O trabalho voluntário mostrará quem sao aqueles que participam dessa jornada, como num teste. O trampo nao se constitui de horários e sacrifícios estipulados, mas de flexibilidade e nenhuma exigência de carga horária ou responsabilidade de riscos, no máximo com sua própria palavra, aparência & educação. Nesse serviço as chances entre os concorrentes a uma vaga de trabalho junto a instituição aumentam. Aqui na Noruega nao há testes ou concursos portanto o trabalho voluntariado é muitas vezes esse diferencial na escolha do candidato.

No Kapittel, festa literária de Stavanger, conduzida pela biblioteca da cidade, nao deixei de ganhar, como parcialmente observado em Exibições. Servindo como uma memória do evento e fechando com chave de ouro, recebi dos organizadores um guarda chuva(!) de brinde e festinhas com comidinhas. O primordial mesmo é o exercício que saía muito, no final das contas, prazeroso pra mim. Isso é totalmente um negócio meu, assim eu funciono, as festinhas, as comidinhas, os bate-papos e os brindes apenas cobriram seu papel, qualquer bonus é sempre bem-vindo.

Conduzi uma gama de gente desconhecida, o que me fez perguntar aonde tava todos que conheço e já conheci aqui nesses 13 anos de Stavanger. Se mudaram? Nao tiraram folga para o evento sendo tao amantes dos livros? Era da boca pra fora? Acabei; nao sei, por sorte talvez, lidando com uma maioria aposentada. Concluído minha missão do dia, sentava e ouvia os palestrantes junto a rostos sorridentes sobre pelos prateados.14566414_10207261696157564_6088537407867105870_o

O primeiro foi de um professor sueco, se voces leitores acham que eu viajo de uma ponta a outra em uma teia que sai e volta envolvendo algum tema, nao estou sozinha, esse senhor fez isso também. Contudo se limitou em nadar em águas clássicas. O papo era pesado, tinha que ter conhecimentos prévios, se nao, profundos sobre caras como Molière, Kant, Copérnico e outros… que tipo de senhoras eram aquelas que ali ouviam isso, estavam acompanhando na boa? Essa pergunta minha nao se deu apenas durante o festival Kapittel, ela, a pergunta, é muito repetitiva todas as quintas na hora do almoço nas palestras literárias conduzidas semanalmente durante o ano letivo pela Sølvberg. Esta palestra literária da biblioteca tem os mesmos moldes desse festival.

O segundo palestrante no festival, foi o meu favorito de todo o programa, Robyn Davidson. Uma pessoa incrível que viveu o que poucos fazem mas muitos consideram a verdadeira alternativa pra uma vida com felicidade: “sair da zona de conforto”. Para neguinho comprar pão e leite se usa o carro, uma máquina dependente, na muita maioria das vezes, do combustível fóssil que há de acabar na geração dos meus netos (contando que pelo menos 50% dos meus rebentos podem vir a ter pelo menos uma “cria”). Isso é muito usado, quer dizer, abusado – na melhor reflexão da palavra.

– Pra onde foi a Robyn quando saiu da sua “Zona de Conforto”? Ela nao foi à lua?- Voces, leitores, devem estar se questionando.

Nao, ela nao foi assim tao longe e nem tao pouco fez uma viagem INUTIL, ela foi ao lugar certo se misturar com as pessoas certas. Nao era faculdade, nem igreja, nem governo, nem multinacional, aliás em muito casos, essa galera da Robyn é um verdadeiro problema pra algumas dessas instituições acima citadas que defendem uma TOTAL homogeneização por parte dos habitantes do globo.

Logo me apeguei e rebatizei-la de Crocodillo Dundee e nao era pra menos. A muitos anos eu li, nao sei em que país ou em que revista, que a verdadeira pessoa que deu inspiração para esse clássico new wave da sétima arte, era uma moca. Tal como o artigo passaria batido em muitos jornais, os produtores do filme resolveram pôr o velho esquema de trocar fêmea por macho se tratando de heróis, inovadores ou estrelas. Homens sao populares entre homens e mulheres. Mulheres sao impopulares entre ambos os sexos também, mulheres apenas se tornam um alvo aceito como heróis, inovadores e estrelas sem ser mártires quando seu público está despido de estigmas e preconceitos e otimizado com muito estudo, ali a Robyn Davidson tinha esse público.

Ela mencionou algumas coisas do seu livro, com mais afeto ela falou sobre o seu guia de longa data, um senhor que teve raros contatos com brancos na sua longa vida andando pelos desertos australianos. Depois sobre comidas e alimentação, o que como no próprio filme, é a parada que a galera mais gosta, mais quer saber. Só com esse tema ela chega ao núcleo da vida nomade, pra depois ela estacionar de mancinho no ponto crucial que é a empoderacao da mulher na sociedade nômade, uma liberdade bem maior que gerações a fio na cultura ocidental se desconhece.

expo8No livro “Gabriela” o autor descreve bem caprichoso cantos do povoado que se transformava em cidade, com diversas novidades sob o clima tropical onde essa heroína com um grupo de retirantes vai de encontro, fugindo da secura e pobreza do agreste. Os retirantes nada mais sao que nômades. Por um processo qualquer vão continuar uma vida errante ou se nao, caso haja avanço político-democrático vão de fato chegar ao objetivo de estacionarem num espaço disponível. Gabriela sem pudores, sem problemas escolhe entre os retirantes seu parceiro sexual, ao findar da jornada, ela nao exige mais nada dele como também nada antes exigia; ele ao contrário, “implora(ria)” cometimento, parceria. Ela se despede de igual maneira se despedia de cada um dos retirantes do grupo.

O livro “Tracks” de Davidson que está disponível na Sølvberg é de 1980, se nao me engano ela começou a se misturar com dezenas de povos nômades na Asia & Oceania a partir de 1976. No correr dos anos 90 esses grupos nômades que ela fez parte se extinguiram. Na extinção ela observou um fenômeno no mínimo peculiar, a mulher perde a liberdade que tinha quando nômade, ela passa a ser PROPRIEDADE. A coisa é tao rápida de uma geração para outra.

Ce5mgBvXIAARvs6.jpg-largeNo dia seguinte fui ver o Knausgård, que eu já encontrei pessoalmente no natal do ano passado. Seu espaço de palestra foi a maior sala disponível, a sala de cinema aonde se exibe filmes blockbusters, conclusão ele é o conteúdo pop. do evento. Ele leu trechos dos seus últimos livros, intitulados: “Primavera”, “Verão”, “Inverno” etc… eu acho que o quarto dessa coleção pode-se facilmente se supor o título. Precisamente nesse momento, o meu medidor de depressão começou a oscilar forte e conforme a palestra dele ia caminhando, o medidor caía vertiginosamente para números negativos, graus perigosos. Nao que o que ele dizia me fazia… mas me azia.  Ele falava da família dele, tudo muito comum, banal, igual e até mesmo normal. Talvez como um espelho dos próprios leitores. Aquilo ali funciona como leitura pois esse autor é muito popular por aqui e vive sendo chamado pra tv, sem dúvida, a leitura é prazerosa por ser trivial e facilmente entendido. Quero dizer que se uma moca assim escrevesse detonariam-na com muito prazer focando a superficialidade, esquecendo do resto, os outros lados bons da obra, Knausgård não me pareceu ruim. Mas sendo ele um homem alto, de olhos azuis cara séria até demais, NAO se registra superficialidade, nao se registra dados negativos.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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