Gabriela, cheiro nas axilas de uma flor seca & cor de um pauzinho, das Indias


Um questionário baseado nas idéias de análise literária de Jeffrey C. Barnett, professor de espanhol & estudos latino americanos na Washigton & Lee University, Virginia. Dei uma passada rápida achei complicadíssimo, portanto rescrevi e tentei ser mais clara e objetiva nas questões. Passei para o português mais que imediatamente porque li o próprio livro em port..

Romance: “Gabriela, cravo e canela”

1. Enredo

a) Seria o romance um conto de duas histórias? Estão esses interligados, independentes ou co-dependentes?”.

Pelo que eu entendi é uma larga crônica de uma cidade quinhentista baiana. A questão baiana por si só é abrangente, pois é o estado mais antigo brasileiro que tem fundido as 3 etnias humanas a mais tempo que aparentemente qualquer outro lugar no mundo que eu conheça. O choque da cultura europeia em roupas e gastronomia é fato, pois o calor (o sol mais a umidade constante) são os azedadores dessa cultura estrangeira, estranha ao clima e a vegetação reinante. Isso precisa ser levado em conta, já ter de anti-mao quando se constrói cenas do romance na  imaginação.5c19dbdaab7fe35701b938b58ab78e5c

A cidade não tem aquele rítmico de crescimento mais comum ocidental ou mesmo brasileiro. Isso é muito interessante e é repassado no início. Este arraial teve o mesmo tamanho durante quase 400 anos, uma igreja e um pequeno povoado intocado desde das primeiras chegadas dos europeus. Lugar nascido & batizado com o ciclo do Pau Brasil, hibernado enquanto outros ciclos de extrativismo dominavam outros cantos do país e só se emancipado com o cacau.

Existe diversos dramas paralelos que só estão inseridos para ressaltar as mudanças sociais dos ditos “Anos Loucos” (talvez um termo mais norte-americano devido a política econômica da época). O amor de Nacib & Gabriela quando acha-se o foco se torna o drama central, seria em tese um drama pitoresco, marginal aos acontecimentos reais que dominaram esse lugar,  porém como o autor é modernista ele inverte a coisa toda e faz de uma trivialidade de pessoas comuns o grande drama do livro. Todas as crônicas estão entrelaçadas fazendo algamagacoes. O estopim para essa dissertação de mudanças num lugar que não previa receber o século XX como uma avalanche de gelo seria o assassinato do dentista protestante com dona Sinhazinha, uma mulher de sobrenome, e pela primeira vez um coronel havia sido levado pelo braço da justiça.1977efa858650c6eb420c5907878ce9d

Co-dependentes parece ser um termo que até se encaixa bem na construção da obra.

b) Quais são as várias linhas de enredo (nomeie pelo menos 1) e como eles se fundem em um único enredo?

Sei

2. Você vê o romance mais como uma obra de arte ou uma obra de memórias? Dê exemplos do estilo de Amado:

Todas as obras são obras de memórias pra mim. Memória é uma fonte fantástica.

a) Quais são as dramas principais?

O assassinato do dentista e da sinhazinha por um coronel a fim de salva guardar sua honra (aonde honra vale mais que vida? – isso é um absurdo total!). 13419276_10208397119158485_2693395087340577967_n

A fuga da filha do Coronel. Ela não pertence as dinâmicas daquele ambiente, pois passou a deliberar/arguir/PENSAR sobre determinados tabus locais. Diversas ocasiões dramáticas praticamente a forcaram a escolher: prefira a vida de princesa medieval presa ao seu lindo jardim ou se torne um terráqueo comum de vida igual aos seus semelhantes num mundo modernista sulista.

A ação clandestina da agora senhora de família Gabriela que salva um fugitivo/ criminoso dos braços da lei e da morte. De placa marca gol com o partido conservador (coronéis).

b) Seria um romance formado de detalhes vívidos ou imagens subliminares?

Detalhes vívidos!

3. O que movimenta o romance: história política nacional, os dramas secundários, outros?

Pequenos e triviais dramas, como havia escrito antes, são postos a frente e a política se torna secundaria como um linha que junta tudo isso.1920_21

4. Voce acrescentaria uma pergunta? Não

  1. Que autor norte-americano esse romance se assimilaria?

Falei pra mim mesma o tempo inteiro que li esse livro, Harper Lee! Muita coisa similar, são do mesmo ano!! Sao clássicos amados nos 2 países!

Diria que “Kill a Mocking Bird“, um título que nem em Portugal ou no Brasil conseguiram dar uma tradução descente ao negócio, está pra esse romance do Amado assim como a nogueira-peca está pra a castanha de caju. Ainda consigo gostar mais da primeira castanha como também gosto mais do romance norte-americano. A autora mostrou o desastre que é ser pobre e mulher, seu gol contudo era centrar o romance na questão racial. Em contrapartida o romance do brasileiro é mais punk-no hope, com uma enxurrada de piadas pra todo gosto. No quesito universo feminino ele explora mesmo. Ambos os romances podem ser lidos diversas vezes, sem erro.

malfatti_076. Que pintores retratariam melhor essa a obra literária? Di Cavalcanti & Anita Mafaldi.
7. Que momento histórico foi determinante pra o autor conduzir a obra? “Os anos Loucos”.
8. Qual liberdade do gênero literário foi crucial pra representar a Bahia? Modernismo.
9. Civilização e progresso são sinónimos? Quase sempre.

10. Que lições o autor nos dá sobre Brasil?

Querendo ou não as mudanças se fazem (mesmo no Brasil) e as forcas de embate são os conservadores contra os progressistas. Lembre que aqueles que apoiam o Golpe de 2016 não passam de conservadores & retrógrados, estes são os mesmos que votaram no Collor, que nao marcharam pelas Diretas, que não se descontentavam com o regime militar ou até informavam os não simpatizantes desse mesmo regime. E na época do romance se sao mulheres, são essas mulheres que estavam escondidas atrás de um homem dentro de casa, sem poder conversar com uma outra mulher com semelhantes problemas, que não podiam ler livros, só ver revistas, que tinham que trabalhar apenas e não podiam dançar ou ir a praia. Os filhos homens de mulheres sem vida serão homens completamente ignorantes com mulheres com vida.

  1. Qual é a melhor passagem? e porque?

A melhor passagem pra mim é quando a Gabriela entra na rua dos bordeis de jagunços, bordeis que só frequenta gente pobre, aonde não existe lei mesmo… peraí, há lei deles lá: um código de conduta pre-civilizatório.

Senti uma simpatia enorme pelo maluco que era o acionista/leão de chácara do último puteiro da rua, uma casa de má fé que me pareceu o mais tradicional da área pela leitura. Senti simpatia porque o maluco parecia tudo de sofrido na vida porém o autor ressaltou a perspicácia da personagem. De início ele não reconheceu a Gabriela (ela andava no auge da sua transformação visual para o modelo de madame vigente e requerido pela sociedade, do qual ela rebeldemente não VALORIZAVA) já no segundo olhar desse personagem com a precária iluminação de um ambiente desses no meio da noite percebeu quem era. Foi até a senhora Gabriela Saad pra saber o que ela ali fazia.

jorge-amado-1Na “cena seguinte”, num tempo de espera em que esse maluco vai buscar o alguém que Gabriela procurava, ela se encontra cara a cara com uma menina dentre 12/14 anos de idade, que era a namorada de fé¹ (ou pelo menos a personagem ninfa acreditava nessa posição “honrosa”. Honrosa ganha aspas porque significava muito pra a adolescente ser a MULHER de um sujeito vivido, mesmo que pra 99% dos leitores não passe de puro mal gosto, se não, total sofrimento e “armagura” de uma vida miserável.) do bandido que Gabriela precisa acionar.

O contexto dessas 2 cenas são muito legais. Primeiro mostra a falta de amabilidade da Gabriela com os frequentes do local, ela queria e estava lidando com estes da mesma maneira que lidaria com os mais importantes do cenário de Ilhéus. E se não fosse Ilhéus, se fosse no Rio ou Paris? Ela não mudaria essa conduta. Ela continuaria educada e simples, direta e solicita com qualquer um não importando seu status, seu sobrenome, sua conta no banco. Na segunda cena, eu acho que ela teve um baque, tipo caiu a ficha de algumas coisas. Ela era só um fruto que tem como pauta do dia ser espremido até todo sumo ir embora, ali ela deveria estar sendo espremida, mas em algum ponto da vida dela, ela ganhou uma carta de sorte do qual a trabalhou bem e a vida rendeu.


¹) É um termo que foi usado nos anos 90 pelos traficantes, aonde o dinheiro corria e por conseguinte acumulava um certo número de namoradas. Junto com esse veio também “lanchinho da madrugada”, uma relação sexual que passa desapercebida como um consumo de fast food depois da boêmia.

Anúncios

Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias arte, arte moderna, arte pop, belo, cinema, comunicacao, cronica, historia, modernismo brasileiro, politica, sociologicoTags, , , , , , , , , , , , , , , , , , , 3 Comentários

3 comentários sobre “Gabriela, cheiro nas axilas de uma flor seca & cor de um pauzinho, das Indias”

Qual seria a sua perspectiva sobre esse assunto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s