Laland I (Primeiras impressões: primários impressionistas)


Laland, 15/08/2016

Texto 1 (diário da residência – diário de resistência)pic

Era uma acardia tão barulhenta quanto as ruas de Copa, o que a deixava mais viva. Não resisti, fiz minhas regressões na máquina do tempo, que não precisa de máquina alguma, só um neurônio funcionando bene. À caminho do centro de Klepp, não sei quanto tempo levei no percurso, mas regredi 60 anos observando o movimento do mato verde e o cheiro de repolho apodrecendo num dia quente norueguês. Alguns dos noruegueses ou poloneses responsáveis pela colheita dessa verdura fundamental faziam uma reunião sentados em grandes cestas quadradas de recolhimento da safra com caras sérias, tronco suado e empoeirado, desacompanhados de pão ou vinho, sem enxadas, sem drama das pinturas francesas realistas.

A regressão não se dava aqui em Laland, eu ía pra bem longe.
Jacarepaguá é um bairro que eu só me dei conta da sua existência quando eu estava lá com meus 11 pra 12 anos. Imaginava pelas minhas contas, de dados que me foram passados por familiares que era mais ou menos um lugar tipo esse aqui. Ali em Klepp seria a tal da Praça Seca. Para época que eu me levei na regressão, pelo-caminho-a-fora, o zunzum dos tratores deveria ser igual aos de hoje aqui em Laland. Sendo que, na zona Oeste esse monstro à Diesel era muito possivelmente responsável por uma área enorme e aqui sofro com dezenas ou até centenas fazendo o trabalho de uma área pouca. Cavalos, grama, gado tem seus cheiros que estou desqualificada a etiquetar proveniências, valores; todavia o poder do sol faz toda a diferença, daí sim, nesse bairro pouquíssimo frequentado por min no Rio deveria ter acentuadíssimos odores ruins graduados por esse corpo celeste.


Texto 2 (Diário da Residencia – deitando na reticência)

Voltei para dentro da arquitetura.  Programo-me para discernir sobre o começo, como e quando explodiu o meu Big Bang da escrita. O Venceslau Ponte Preta¹ foi uma página boa na minha linda juventude². E vez em muita ele acaba por capitular a vida do carioca mais centrado em literatura, jornalismo ou da área daqueles que usam miçangas³. O que veio quebrar comigo foi certo comentário de uma filha desse jornalista: “ihhh, cansamos de levar máquina de escrever pra praia…”, aonde ele quase com certeza escrevia sua coluna “As 10 mais bem despidas do Lalau”. Quer dizer, eu não preciso sentar num canto de estudo e escrever quando me mandam… Eu tenho muito suco filosófico desses meusOK-Eloina-760x1024 pensamentos que rumino nos meus quatro cérebros para ficar só presa a mesa. – as quatro “áreas cerebrais” que referia são copas, paus, espadas & ouros. Será que eu preciso explicar o que significa os símbolos do baralho? Ou como nosso cérebro prioriza nossas soluções, nossas escolhas? Que pra sempre fique claro: Copas (no amor), Paus (na natureza), Espadas (na guerra), Ouros (com dinheiro envolvido).

Mas tem outro negócio sim, mais importante e muito comum, a escrita absorve a fala. Falar cansa, escrita esvazia; a fala não é monitorizada, a escrita está cheia de setas de retorno, porque a via que a gente toma ainda não está pavimentada.

E por falar em pavimento, nos últimos 5 metros da calçada do eixo urbano de Klepp, um camundongo norvergicus longo pequeno carnudo, com cara de morto (eles adoram fingir, pra que não o toquem, para também provocar essa aversão) se esticava bloqueando o meu caminho, mudei de lado, o lado certo, o lado que já me direcionava pra tomar. Ele nada iria mudar se eu não o considerasse uma afronta, mas ele mudou. Redirecionou a rota dos meus pensamentos positivos para me afundar em pura paranoia, preferia ter a culpa de matar um ser vivo que viver a sombra do medo por um ser insignificante.

Não matarás.

Ao pegar a chave, ao abrir das portas do aposentos, ou as gavetas senti respectivamente a presença de um grande urso marrom descansando no porão, um esquilo ruivo percorrendo a mobília, uma doninha entre os livros & almofadas a fugir. Era só paranoia. Estou numa casa que muito inteligentemente foi reestruturada pra ser parcialmente usada por visitantes e a outra parcela dá visibilidade aqueles que por lá passam, como era um sítio outrora em Jæren¹◊.


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1) Venceslau Ponte Preta era o pseudônimo do Sergio Porto.

2) “Nossa linda juventude, página de um livro bom, claro como sol raiou…” letra de Flavio Venturini

3) Estudantes da área de humanas, um estereótipo brasileiro em que se cogita que estudantes homens da área lógica e bio-cientifica não usam enfeites, bijuterias e símbolos acoplados ao vestuário.

¹◊) Jæren é uma região de Rogaland. A Noruega como o Brasil são dividas em 5 regiões. A divisão atual é mais que clara e observa os aspectos sociais, históricos, migrações populacionais, além da vegetação. Tudo que eu aprendi sobre geografia do meu país pude associar livremente no que se diz da estruturação norueguesa. A única coisa que muda nessa estória é o termo “estado”. Na Noruega a divisão apropriada é chamada de província. A dimensão dos estados brasileiros podem se confundir com o tamanho dos países europeus.

Na província de Rogaland existe divisões de regiões assim como vemos no estado do Rio de Janeiro, a região Metropolitana, região dos Lagos, etc… Laland se localiza em Jæren, essa região provinciana é um polo pecuarista. A criação intensiva do gado é tradicional.  Jæren tem 3 grandes cidades, Sandnes com mais de 70 mil habitantes, Bryne com uns 35 mil habitantes e Klepp com 20 mil habitantes. Laland se tornou um subúrbio de Klepp.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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