Elefante branco


A Letícia foi uma camarada minha do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Santa Úrsula. Nós não nos conhecíamos antes de nos juntarmos as segas pra fazer a pesquisa sobre o Mosteiro dos Jerónimos na nossa eletiva¹. Acabamos por nos tornamos grandes amigas e na primeira visita ao seu apê, como de praxe no Rio, independente do tamanho das acomodações, nós fazemos um guide tour pelas dependências e os anfritioes hão de comentar aquilo que mais estão satisfeitos ou insatisfeitos em suas casas, geralmente se aponta a vista estupenda de algum acidente geográfico carioca ou a tristeza do paredão das arquiteturas egoístas. A Letícia tinha uma excelente vista da sua sacada para o Cristo pegando toda Lagoa Rodrigo de Freitas do qual ela não gastou o seu latim em me informar, fitou com grandes olhos lacrimejados de ódio em direção a maior e mais bonita caixa de som que eu vi na minha vida.

Eram 3 moçoilas que estudavam na USU, 2 cursavam arquitetura, todas do Espírito Santo. Suas famílias tiveram a brilhante idéia de dividirem as despesas da residência em um dos mais privilegiados espaços da cidade para que o nível social delas não decaíssem nessa aventura no Rio. Além do que a moral e bons costumes estariam preservados com a assistência d’uma com a outra. O que eu até abordaria pra ver em que pé andava o lado libertário e emancipado da minha camarada. Acho que ela me mostrou outra coisa que me contentou naquele momento. Seus pais mais os pais da moca que cursava economia praticamente gastaram meio a meio com o enxoval do apartamento, compraram nas melhoras casas copos e pratos, tv, computador, e o pequeno mobiliário. A família da terceira moca nada acrescentou à residência até mandarem um alô pra se cocar e então essa familia enviou um presente de grego.

A caixa de som era 1,40m por 1,40m, toda de uma madeira loira-dourada super bem acabada, com toda a certeza era dos anos 40. Aquelas meninas nunca valorizariam aquele artefato. Fora seu histórico de trajeto, aquela caixa de som deve ter vindo de muito longe, comercializada num grande centro brasileiro e finalmente remanejada para o Espirito Santo com seu preço já bastante salgado. Décadas mais tarde acabou servindo como apoio pra tv. Um objeto que meu pai caracterizaria como “2 felicidades” (feliz quando compra e feliz quando se livra).

Como sempre fui amante da música e das festas conseguia enxergar mais utilidades do que somente um aparador para tv. Meu potencial me dava uma visão que se enquadrava mais com a década seguinte. Aquela peca feita de um material nobre poderia ser instalada num salão ao qual pudesse ser apreciada como objeto decorativo por sua RARIDADE, retirado seu antigo maquinário pesado residente e substituíssem pelos atuais amplificadores de som muito mais potentes, mais leves refazendo uma incrível e inigualável peca exclusiva de som.


02-2314A 2 dias atrás parece que eu entrei dentro de uma caixa de som dessas, um elefante branco chamado Gimle Gård. Em norueguês antigo significa “Sítio de Deus”, está situado num canto pitoresco da cidade de Kristiansand, sua última moradora faleceu em 1982 com 86 anos. Este casarão neoclássico seria pra cidade de Kristiansand o que o Breidablikk é para Stavanger, só que não. Apesar das críticas que fiz sobre o mansão eclética aristocrata siddiana² suas condições são incomparavelmente bem mais aperfeiçoáveis do que a lastimável exibição que presenciei na cidade sulista norueguesa.

05-2511A área externa do sítio é administrada por outra fundição, o jardim botânico de Kristiansand, aliás um jardim botânico micro. Sendo que isso foi a maior positiva surpresa nessa minha visita a esse sítio urbano. O jardim botânico como os outros jardins botânicos na Noruega, Brasil e outros países é uma extensão da universidade do governo. Há uma estufa moderna (datada dos anos 90) com um cactário, um jardim dos monges aonde se encontrava ervas e flores medicinais, também igualmente bem cuidadas como as roseiras. Por acaso não vi hortaliças. Agder do oeste é a província mais florida da Noruega aonde casas de gente normal esbanjam flores de cores mil, o jardim botânico da província não passa de um lugar mal assombrado em comparação as casas vizinhas.

SLIDER_Gimle_ballsalen_Anita-NilsenContudo nenhum fantasma do passado me assustou mais que a falta de comprometimento dos empregados na preservação dos ambientes dessa casa. Os responsáveis pintaram com tinta bem grossa o chão, paredes e acinturaram moveis que não podem ser sentados. Não parou aí, várias janelas e cômodos estavam cheios de plantas de plástico pra criar clima (?), as salas aonde não se circulava, empilhava-se revistas de fofoca & partituras de valsas. No geral era uma casa desarrumada, cafona e com cheiro de gente velha. Engraçado que essa tristeza me reportava muito à época do início dos anos 80, aonde não havia muita requisição popular de renovação com patrimônios históricos, nos anos 90 isso foi mandatário.

13403279_1030251670386528_6970674523104875500_oEu criei antipatia por tudo e por todos quando apresentaram o teatro obrigatório em forma de guiding tour para visitantes. Voce consegue imaginar a Leticia, aquela minha amiga da arquitetura, saísse sambando e cantando esganiçado uma musiquinha que eu nem gostasse na minha primeira visita a seu doce lar? Bem, foi um lance desses no Gimle. Uma mulher se esgoelava de todas as maneiras para ser engraçada, cantava umas modinhas antigas; foi uma penúria.

012s7YzvLScREnquanto essa senhora meia atriz, meia palhaca tirava a atenção das pessoas, observei dezenas de óleos italianos, impressos americanos, animais empalhados, buracos e sombras aonde anteriormente pousou uma joia, um relógio e foram abduzidos com os anos. Cheguei a tocar numa coruja, linda e macia igualmente nos dias que ela era viva, achei negros em suas atividades no engenho numa gravura protegida com vidro na biblioteca, ao centro do salão de baile uma pintura de Leonardo da Vinci (!) que o historiador presente comentou e completou “…durante o século XIX essa casa manteve a maior coleção de arte do país” e no melhor aposento do porão ainda várias garrafas de coca, vinho caseiro de ruibarbo e geleia de cassis que datam o último ano de atividades comerciais no casarão, 1969.

Dona Otília viveu da comercialização desse tipo de vinho praticamente toda sua vida. Teve que ceder todo o andar superior da casa aos nazistas, inclusive manteve um cárcere para russos durante a ocupação. Bem, más línguas sugerem que os nazista já chegavam com essa negociata, “tenho aqui uns prisioneiros inimigos nossos, vocês ganham mao de obra barata e em contrapartida, a gente faz essa sua área nobre um lugar passível para que nossos oficiais trabalharem.”

Titti lidou com isso sozinha, pois amava apenas seus cães, não tinha companhia de filhos ou marido. Manteve uma amizade com seu irmão mais velho indicado em fotos expostas pelos moveis, ele era residente em Oslo. Morreu como uma figura popular do bairro. Ela como sua mãe, sua avó e bisavó foram herdeiras do patrimônio. Achei até inteligente essa saída, ao qual que toda primogênita fique com a casa, pois era entendido que um homem buscasse seu sonho profissional desatrelado ao local, como até estudar em Copenhagen ou Berlim. As mulheres são apenas donas de casa. Na Noruega era comum apenas o primogênito herdar a casa, eram do proletariado, herdavam o quintal para plantar ou a oficina para labutar.

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A roda viva de Titti (como Dona Otilia gostava de ser chamada) me leva imediatamente a comparar o Gimle Gård com o filme “Remains of the day“(Vestígios do dia). A adaptação do romance muito me impressionou pois responde de uma maneira possível a questão: “quem é esse tipo de gente que se alia ao fascismo?” Ou é muito sem noção, tipo alienado teleguiado ou mal caráter-egoísta sórdido, tipo não dá pra ver assim de primeira depois fica pra descobrir. O protagonista que vivia numa casa realmente estupenda e terminaria seus dias em solidão e desamparo.


¹) Matérias opcionais no cursos de graduação

²) proveniente de Stavanger

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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