Compartimento de fobias


Um cara abriu o compartimento de bagagem assim que pousamos em Amsterdam. Seria tão melhor ser o compartimento de bobagem… O compartimento se localizava acima da cadeira na minha frente.  Alguém puxou sua mochila, com esta ação, a minha bolsa deixou a alça caída, me forcando levantar para pegá-la e evitar dela cair de maneira errada.

Num embaralhado movimento de olhos, notei um cara parrudo e alto lá no outro corredor do avião. Os aviões que transladam entre continentes tem mais ou menos o mesmo padrão, 2 ou 3 cadeiras encostadas nas janelas, 4 ou 5 cadeiras entre os corredores, totalizando 9/10 cadeiras em cada fileira. O rosto do cara era pálido, a pele era muito brilhante o que me fez suspeitar que com a longa viagem qualquer vestígio de odor de flores já houvesse se evaporado.

efab82625708b26802503fb829d5b995

Ele ofegava com olhar raivoso para alguém a sua frente, que sentava a margem do corredor direito do avião. Será que alguém o prejudicou? Será que pisaram na mala dele? Pra quem ou o quê esse moco respira assim tao ofegante e odioso? Os meus olhos seguiram bem devagar na reta que o olhar desse cara estranho se firmava como um pit bull apontando ao seu mestre que ele estava pronto para atacar a presa. A sensação era que eu era a Sue Snell, na montagem que Brian de Palma fez da “Carrie” de Stephen king. Sue, personagem interpretada por Amy Irving, percebeu uma corda que nao estava ali quando ela decorou a festa no ginásio da escola com as amigas. Curiosa, seguiu o fio e viu a Chris e o Billy Nolan segurando essa corda, que estava amarrada num balde bem em cima do palco! O simples efeito de câmara lenta reforça no espectador a confusão de sustos e emoções da personagem. Na minha aeronave, o moco estava woman-reading-flight-plane-2-480x319absorto do resto da recinto, para ele apenas existia ali o que ele fitava. Ele encarava indelicadamente uma jovem. Ela estava entre seus 18 e 22 anos. Distraída dele, lia um livro, calmamente esperava pela sua vez de retirar seus pertences.

Parei para observá-lo. Estudei um a um todos os vizinhos dessas figuras centrais. Ela sentava na mesma fileira que eu, sendo vizinha de acento da minha filha. Uma mãe bem ao lado desse sujeito muito preocupada com suas coisas não se incomodava com um cara de camisa preta, suado e de respiração barulhenta. Esguerei-me em direção à moca que estava apenas a 2 acentos distante de mim. Troquei de lugar com o Alex e o Sverre passou a tomar conta da situação familiar. Não tirei mais os olhos do macho. Eventualmente o sujeito percebeu que havia alguém o notando da mesmíssima forma que ele fitava um outro alguém. Susto! Dele. Ri, em satisfação plena, como poucas ocorrem comigo, foi uma sensação muito IGUAL quando na idade de 7 anos dei um susto num bate-bola com o dobro da minha idade na praça do IAPI da Penha, meu pai sempre se recorda. Talvez uma lembrança estocada na esperança de ser renovada.

Toquei na moca, ela de uma graciosidade contagiante me atendeu cordialmente. O cara de tez alva, corpo maromba, cabelo á maquina zero, saco-mochila surrado, tentava se adiantar na fila que não andava, e mesmo assim forcava a barra com seus trejeitos, se impunha corpulento sobre outros passageiros e dessa vez não mais olhava a moca, deu rabo de olho pra mim (que lisonja…), pois ainda não tirava os olhos dele. Não hesitei em perguntar:

-Voce conhece aquele cara ali?

-Nao – ela respondeu curiosa & confusa.

-Posso confirmar? Aquele homem ali de mochila, meio careca, de camisa preta. – sem exaltação ou sem sussurros tão pouco, papeávamos. Ele ainda a revirar-se rápido e cauteloso.

– Não – Resposta com esperança de explicativa conclusão. Esbocei meu primeiros reflexos sobre a atitude do cara que não era normal, nem convidada ou amistosa.

– Preste bastante atenção quando sair e evite o máximo se aproximar desse sujeito. – ela me agradeceu, olhou para o cara que conseguia sair grosseiramente furando a frente de outros passageiros.


Meu pai me confidenciou várias vezes como é matar alguém de faca, esse tipo de coisa só vem de 2 maneiras pela experiência, que é o que ele não tem nessa área ou LITERATURA635893965040976710-1249967933_Girl in Book, isso sim, ele já leu páginas a fio que se torcer o papel sai sangue… Comentário-mor dele sobre isso: “você sente todo o calor do sangue que ao escorrer vai descendo rapidamente a temperatura, o peso, a respiração, os sons que outra pessoa também pode fazer quando esfaqueada. Uma arma de fogo é usada com distancia, não há necessidade do uso do olhar, é um trabalho limpo“.

Já o Matheus compartilhou nos dias dos namorados de 2016, o seguinte:

“O irmão do Zé Celso era gay. Ele foi assassinado em 1987 com 107 facadas. Quando se fala sobre o assunto, sempre emocionado, Zé Celso costuma dizer: “para se matar uma pessoa, uma ou até dez facadas são mais que suficientes. Com cento e sete facadas o que se quer matar não é a pessoa, mas algo muito mais profundo, algo que não morre.” É nisso que penso sempre que leio noticias sobre atentados de LGBTs.(…)”

O que o Jack the Ripper queria encontrar nas entranhas de Mary Kelly²? O poder da vida?


²: foi a quinta canônica vítima do assassino de White Chapel em 1889, ela foi estripada no seu próprio apartamento, seus seios, rosto e vísceras foram cortados, partes cozinhadas no seu único artefato de cozinha. Mary era profissional do sexo, foi casada durante a adolescência e viuvado, trabalhou como servente em Londres e antes  aonde morava com o marido que não deixou pensão nenhuma. Ela tinha apenas 24 anos.

Anúncios

Um comentário sobre “Compartimento de fobias

Qual seria a sua perspectiva sobre esse assunto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s