Mulher é sinônimo de vida


E gays de alegria. Houve uma época que ser negro era ser escravo. Em alguns lugares melhor que outros, isso deixou de existir com mais facilidade. Então negros se tornaram alvos do ódio. Construíram esse sentimento em cima do vexame, da perda. Eles são um alvo ótimo porque pouco puderam revidar ou à alguém recorrer para se defender. Dramas iguais acontecem com as mulheres e os gays.


Felizmente, logo que eu sentei no avião, um cara abriu o compartimento de bagagem (…seria tão melhor ser o compartimento de bobagem, quando irão inventar um transporte com tal facilidade?) acima da cadeira na minha frente. Estes compartimentos são muito altos para mim. Este carinha gentil pôs a minha bolsa lá em cima.

Assim que pousamos em Amsterdam, alguém puxou sua mochila, com esta ação, a minha bolsa deixou a alça caída, me forcando levantar para pegá-la.

Num embaralhado movimento de olhos, notei um cara grandão, seu rosto era pálido, ele tinha uma pele brilhante que eu suspeitava que com a longa viagem que qualquer vestígio de odor de flores já houvesse se evaporado, ofegava com olhar raivoso para alguém a sua frente, ele se localizava na fileira logo atrás a minha, no corredor direito do avião. Será que alguém o prejudicou? Será que pisaram na mala dele? Pra quem ou o quê esse moco respira assim tao ofegante? Os meus olhos seguiram aquilo com (como num filme de Brian de Palma que na tensão a mocinha tem toda nitidez do drama, explicado com o uso da câmara lenta) ao qual o moco tao firmemewoman-reading-flight-plane-2-480x319nte absorto do resto da aeronave se fixava. Era uma moca, deveria ter entre 18 e 22 anos. Distraída dele, estava lendo um livro, calmamente esperava pela sua vez de retirar seus pertences.

Eu parei e os observei. Estudei um a um todos os vizinhos dessas figuras centrais. Uma mãe bem ao lado desse sujeito muito preocupada com suas coisas não se incomodava com um cara de camisa preta, suado e de respiração barulhenta. Esguerei-me em direção à moca que estava apenas a 2 acentos distante de mim. Troquei de lugar com o Alex e o Sverre passou a tomar conta da situação familiar. Não tirei mais os olhos do macho. Eventualmente o sujeito percebeu que há alguém o notando da mesmíssima forma que ele fitava um outro alguém. Susto!, dele. Ri por dentro em satisfação plena, como poucas ocorrem comigo, foi uma sensação muito IGUAL quando na idade de 7 anos dei um susto num bate-bola com o dobro da minha idade na praça do IAPI da Penha, meu pai sempre se recorda. Talvez uma lembrança estocada na esperança de ser renovada.

Toquei na moca, ela de uma simpatia contagiante me atendeu cordialmente. O cara de tez alva, corpo maromba, cabelo á maquina zero, saco-mochila surrado, tentava se adiantar na fila que não andava, e mesmo assim forcava a barra com seus trejeitos, se impunha corpulento sobre outros passageiros e dessa vez não mais olhava a moca, deu rabo de olho pra mim (! – que lisonja…), pois ainda não tirava os olhos dele. Não hesitei em perguntar:

-Voce conhece aquele cara ali?

-Nao – ela respondeu curiosa & confusa.

– Posso comfirmar?, aquele homem ali de mochila, meio careca, de camisa preta. – sem exaltação ou sem sussurros tão pouco, papeávamos. Ele ainda a revirar-se rápido e cauteloso.

– Não… – na esperança de explicativa conclusão. Esbocei meu primeiros reflexos sobre a atitude do cara que não era normal, nem convidada ou amistosa.

– Preste bastante atenção quando sair e evite o máximo se aproximar desse sujeito. – ela me agradeceu, olhou para o cara que conseguia sair grosseiramente furando a frente de outros passageiros.


Falar mal de más condutas foi um doce, um desabafo, vou amargar falando mal da minha, stuff-no-one-told-me-snotm-alex-noriega-52-5742ecd0af267__605que como todo ser-humano peca, vacila. Difícil e, pra muita gente, inapropriado. Há gol sim, me lembrarei o que eu fiz um dia, o que eu fui ou me tornei, o que eu pensei pois é passível de acontecer com outras centenas de brasileiros que vivem pela Europa & America do Norte.

Eu vi uma moca no último sábado andando aqui pelas redondezas, não era uma mulata, não era uma africana com turbante e tecidos de estampas berrantes, era simplente uma mulher negra (provavelmente norueguesa), vestida de jeans. Era também magra e pelas costas aparentava menos de 33 anos (fiquemos com a idade de Cristo). Até aí o meu cérebro nada conjecturou, se é que esse pensa bem me informava naquele momento que eu tinha de me desviar da moca que andava com o carrinho de bebê, eu estava de bike, velocidades distintas. Passei pelo bebê, ele era o filho da moca!! Assustei, me aliviei, fiquei feliz pelo sistema nórdico e depois minha nossa que monstro que eu sou, ah mais que bobagem, esperava eu o que mais depois de tantos anos de doutrinação, você se emancipa a cada dia, pena daqueles que estagnaram.

Presuma acertadamente que o bebê era negro, daí a conclusão que o bebê num carrinho de bebe seja dela. De maior importância nessa imagem foi a participação especial do próprio carrinho de bebê que legitima uma posição social igualada à maioria ao redor, aquela mãe e seu filho pertencem a classe média. Aonde TODAS as mães tem essa incrível ferramenta que aumenta a LIBERDADE de ir e vir, com sua maior responsabilidade: seu filho. Pelo local poderia apostar que ela se dirigia ao supermercado da nossa vizinhança, sem pra menos, o carrinho de bebê ainda tem um área guarnecida para que as mães tragam compras e artefatos que ajudam na manutenção do filho, da casa e de si próprias. Não me lembro de nunca ter visto uma negra na cidade de Sao Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade Maravilhosa, empurrando um carrinho de bebe com o seu próprio filho nele. Eu vi muitas mulheres negras grávidas em pé trabalhando em bicos¹. Seria impensado vê-las com um carrinho de bebê pelo menos até os anos de 2002 quando ainda morava no Brasil.workers

E daí, eu entendo que eu fui um tanto quanto “racista” (um termo que eu odeio) pois havia uma realidade outrora, mas não uma norma. Pensara o sujeitinho da estória no avião que ele é misógino ou que ele tem algum problema com a presença de fêmeas no recinto? Não, ele tem pura consciência e gosto, tanto que fugiu. O que fazia ele transpirar, o decote da indumentária própria para verão? O estilo hippie-chic que se coroava com um livro a tira-colo? A certeza que a garota viajava SOZINHA.


Meu pai me confidenciou várias vezes como é matar alguém de faca, esse tipo de coisa só vem de 2 maneiras pela experiência, que é o que ele não tem nessa área ou LITERATURA635893965040976710-1249967933_Girl in Book, isso sim, ele já leu páginas a fio que se torcer o papel sai sangue… Comentário-mor dele sobre isso: “você sente todo o calor do sangue que ao escorrer vai descendo rapidamente a temperatura, o peso, a respiração, os sons que outra pessoa também pode fazer quando esfaqueada. Uma arma de fogo é usada com distanciamento, chega a passar de 1km as vezes, não há necessidade do uso do olhar, é um trabalho limpo”. Já o Matheus R. compartilhou nos dias dos namorados de 2016 o seguinte:

O irmão do Zé Celso era gay. Ele foi assassinado em 1987 com 107 facadas. Quando se fala sobre o assunto, sempre emocionado, Zé Celso costuma dizer: “para se matar uma pessoa, uma ou até dez facadas são mais que suficientes. Com cento e sete facadas o que se quer matar não é a pessoa, mas algo muito mais profundo, algo que não morre.” É nisso que penso sempre que leio noticias sobre atentados de LGBTs.(…)

O que o Jack the Ripper queria encontrar nas entranhas de Mary Kelly²? O poder da vida?


¹: trabalho temporário mal remunerado e sujeito infrações contra a política de proteção do trabalhador.

²: foi a quinta canônica vítima do assassino de White Chapel em 1889, ela foi estripada no seu próprio apartamento, seus seios, rosto e vísceras foram cortados, partes cozinhadas no seu único artefato de cozinha. Mary era profissional do sexo, foi casada durante a adolescência e viuvado, trabalhou como servente em Londres e antes  aonde morava com o marido que não deixou pensão nenhuma. Ela tinha apenas 24 anos.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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