Migrantes


 

Na Noruega está fazendo muito sucesso um programa chamado Petter Utligger (Pedro dorme na rua).

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já a vários dias no trampo

O programa mostra os dias & noites de inverno de um jornalista que deixa a sua família no subúrbio da capital norueguesa e vai pra o centro da cidade se mesclar com os tipos que passam os dias e as noites sentados nas ruas mais movimentados de Oslo. A idéia veio quando ele se deparou com os moradores de rua de Las Vegas uns anos anteriores numa reportagem que não envolvia isso diretamente. Era primordial ele fazer esse tipo de residência jornalística na sua própria cidade e ver no que dá.

Esse programa dele nao é original e único, já havia visto antes coisas do género. petter-uteliggerEssas edições pra cada realidade de cada país acaba desvendando mais sobre os jornalistas e seu séquito como também nós, os seus telespectadores. O Programa norueguês está sendo embalado para ter continuação no inverno desse ano, enquanto projetos similares britânicos e norte-americanos não chegaram nunca a se sustentar.


Em 1990 numa segunda feira normal como qualquer outra, à caminho da escola eu e  minha camarada de prédio nos deparamos com uma família no meio do caminho. Tinha uma família suja e maltrapilha no meio do caminho, no exato local que anos mais tarde eu e uma outra amiga achamos dinheiro.

A imagem dessa família que me faz entender, em parte por não ser religiosa, que há extrema necessidade de agradecer aos nossos responsáveis pelo conforto que nos proporcionaram. Ali havia um homem com típicas feições nordestinas, aonde 3 etnias se embaralham por gerações a fio, ao lado dele, uma mulher mulata também nordestina, magérrima e eu suspeitava que deveria ser bem mais nova que ele, ela abraçava seus 3 pimpolhos de idades variadas. O mais novo era um bebe de colo e as outras crianças pequenas arrisco dizer que eram de 3 & 6 anos de idade, ao qual a minha mente insiste em arquivar pela gosto à teimosia.

A segunda coisa que chamava a atenção na fisionomia dessa família eram as vestimentas. O homem usava um chapéu que havia caído em desuso a pelo menos 30 anos antes dessa ocasião que descrevo, e um paletó. Ela com a mais simples das saias e uma camiseta. Essa indumentária é um forte indicativo de que eles eram provenientes do lugares longínquos da região nordestina aonde até aquela data por exemplo um trabalhador não tinha nem o capital, nem acesso pra comprar roupas manufaturadas. A população mais carente nos próprios centros urbanos brasileiros ainda viviam essa incrível realidade, pecas de roupas apenas adquiridas se dadas, e rolos de tecidos também eram presenteados por instituições, como políticos, igreja e uma multinacional pra que essa mesma população confeccionem sua própria vestimenta, numa moda parada no tempo e e de fácil construção.

Por muito tempo esse migrante continuou na sarjeta da General Rocca com a rua Guapiara, meses, até se mudar dali pra outras partes do bairro. Durante uns anos o observei até ser a vez dele de sumir do fundo do cenário tijucano, aliviando o panorama urbano para um visual mais simpático ao “mercado¹”.

No quadro geral, a minha camarada comentava com igual obsessão, a situação dessa família era pior que o fundo do poço por conta da condição do sujeito em (des)catexia. Seus olhos se fixavam em algo desconecto do mundo que o circulava. Nem a rua, nem os passantes, nem a fama Rio, nem o barulho dos eletrônicos ou veículos, nem uma maior facilidade de obtenção de comida, roupas e trabalho, nem sobretudo o amor de seus filhos e a parceria dessa mulher tiravam ele dessa total apatia. Até esses mesmos fatores tirarem ela e os filhos dali. Lembro de me sentir aliviada no dia que não mais a vi por lá ao lado do cara, “ela se foi” comentei. Aliás, digamos que na segunda ela estava lá sentada com ele, na terça em pé com as crianças brincando/trabalhando por um pão, na quarta só as bolsas marcavam a presença de uma família de 5 integrantes, e na quinta nem as bolsas estavam mais lá. Pensei 2 coisas: 1) uma senhora moradora de um edifício chamou ela pra trabalhar de empregada pagando nada prometendo apenas comida de casa e um espaço de leito, ou 2) um maluco conhecido do pessoal do Salgueiro chamou ela pra uns ganhos no centro da cidade, coisa rápida, só com adultos.


PS: Esse programa que o jornalista vive na pele de arranjar lugar pra se viver, pra mim é o melhor programa já veiculado pelas emissoras norueguesas de televisão. Toda hora tem alguém novo também morador de rua. Ele lida com esses moradores de rua no mais educado modo, mostra o que as drogas podem fazer nas pessoas, as mesmas pessoas que são quase o tempo todo mega dóceis. O mais interessante ainda fica por cargo da economia, o gol de todos aqueles dependentes é conseguir 2000nok (910 reais cotação do inverno 2015/16) por dia! Completa escravidão patrocinada pelas drogas.

¹) Esse ano o PMDB, partido que não elege presidente contudo soma mais anos na presidência brasileira que qualquer outro partido, quase que automáticamente se torna o mais tradicional e poderoso do país, criou uma espécie de propaganda/manifesto chamado “Ponte para o Futuro”. Nesse ele, od5u5LQ3 PMDB, correlaciona idéias aonde a palavra “mercado” aparece umas 30 vezes enquanto que a palavra “mulheres” é apenas referida uma única vez, no caso apontando a perda do exercício de direitos ganhos através de conquistas que duraram décadas. Mercado apesar de ser mencionado dezenas de vezes continua sendo um termo vago, ficando por conta do receptor da informação entende-lo da melhor e mais provável maneira. Sendo que, a pior e mais detestável maneira seria a mais próxima da realidade. Pelas palavras de Adam Smith economista pré-capitalista britânico do século XVIII no seu antológico “The Wealth of Nations” escreveu algo do tipo:

“Os donos da humanidade visão apenas lucros pra si só e qualquer outra fração indiferente do tamanho inócuo que seja do seu capital a ser usado para os outros não é interessante.”

Resumindo Donos da Humanidade mais capital é o que o PMDB chamou de Mercado.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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