Quando a minha avó visitou a última casa da rua que morava


Eu já passei por Haia. Lá visitei o Palácio de Maurício de Nassau, o aristocrata holandês que era muito preocupado com a riqueza de tudo o que está ausente das planícies dos trabalhadores holandeses. A riqueza das frutas & narcóticos que encontramos no mundo tropical, muito úmido e muito quente.

Tento articular reflexões diante desta fantástica paisagem da maior cidade de casas de madeira¹ da Europa do alto da minha torre de concreto. Lá no Rio, minha avó contava histórias de lugares que nunca pus os meus pés.

– Foi um pouco antes do Carnaval quando sapatos de 2 cores era o maior adereço da moda masculina. – Dona Alzira dizia…

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Visao do Caju pra a Av. Brasil e a UFE (União Fabril Exportadora), ao fundo o Sumaré & o alto da Tijuca

No verão de 1942, um grupo carioca típico com seus ternos de linho, sua tez cenoura-bronze passou pela rua que minha avó morava, rua da Alegria em Sao Cristóvão. Hoje essa rua está completamente desfigurada e mudou até de nome, pro nome d’alguém que confunde os taxistas e visitantes pois é mais um nome brasileiro, adido da profissão de Prefeito. Igual ao nome de tantas outras ruas; tiraram a alegria do bairro pra mais uma vez autenticar, através de coisas que vemos todos os dias, como a placa indicativa na parede, um pais oligárquico. Um homem está ali  numa placa azul pra mostrar à você que sendo negro ou mulher suas chances são menores de posarem num logradouro da cidade maravilhosa.

A minha avó tinha quase 18 anos e um vizinho dela da mesma idade morreu na hora do rush numa sexta-feira de fevereiro. Ele estava “surfando” no bonde para não pagar o bilhete de viagem. Uma prática muito comum em toda história da linha de transportes elétricos no Rio por gente que está dura².  Talvez o dinheiro que usariam na passagem seja recambiado no consumo de álcool naquele mesmo final de semana.

tumblr_inline_o4uyhicTFq1qfcrj4_500A noite velaram o garoto na mesa de jantar dessa família. Imagino que ele deve ter passado na rua do Lavradio na hora do almoço, daquele dia e recebido num restaurante ali dos trabalhadores igual a ele, um panfleto informativo de um baile dançante de pré-carnaval com os dizeres: “Venha ao Inferno e queime a noite inteira, Clube dos Democráticos, Lima: banda & percussão”. Guardou no bolso, olhou sorridente e esperançoso pela noite, na correria de pegar na 7 de Setembro a sua condução de volta ao Benfica quase pisou em cima de uma velha de cabelos fartos e pele enrugada do sol. Difícil caracterizá-la num tipo étnico, podia ser de tudo e tudo misturado, podia mesmo ser só uma ex-branca européia que com a fuligem das ruas do centro e o sol local transformaram-na para sempre numa cigana da cor. Rindo por não ter se machucado afinal, a velha roga desgraca ao moco como se visse algo de muito engraçado:

-Te vejo no inferno, menino abestalhado!

-Com certeza! – e pega do bolso o prospecto e mostra de longe à velha.

O grupo boêmio que repassei a fachada parágrafos acima apenas passaram pela rua deles, por acaso viram um aglomerado de pessoas em frente à casa onde o finado menino morava e decidiram ver o que rolava.13130922_10153433797190740_9142657276243055724_o

A minha avó velava o garoto conhecido dela num canto escuro da sala, sentada bonitinha numa cadeira com olhos cerrados e murmurando rezas pra que a alma do falecido seja recebida com gosto pelos céus.  Dele nada ela tinha dividido a não ser aquele instante pós morte, nunca houve tempo para uma sociabilização, nada relatou pra mim sobre a escola que frequentaram ou se cursaram a mesma. Pena nem tristeza ela sentia, apenas estava na incumbência de acompanhar a sua avó na reunião que a vizinha promovia pela perda do filho.  Dona Maria Pinto consolava a mãe do rapaz no quarto dela.

O grupo entrou na casa sem cerimônia. Logo mostraram-se um tanto decepcionados com o pouco que se oferecia, até que chegaram à sala de jantar. Quando o terceiro homem viu o rosto do garoto morto, ele ficou branco e duro como uma estátua. De repente, levantou o braço esquerdo lentamente, continuando firme com o braço levantado. Depois de alguns minutos, este homem desconhecido caiu no chão e grita: “Mãe, mãe, onde está minha mãe?

A mäe do garoto afobadamente corre direto ao menino que chamava pela mãe.  Ela se comunica com o desconhecido boêmio como se encontrasse pela última vez com seu próprio filho. Na verdade não era assim difícil encontrar alguém por aquelas bandas que não estivesse coneccao com religioes mestiças ou o misticismo. Pessoalmente opino que o catolicismo parece ser apenas um vel decorativo nos suburbios cariocas.

Caído no chão, o rapaz mantinha sempre os olhos bem abertos até que viu a mãe do menino. Ela jurava aos presentes que ouvira a voz de seu próprio filho. E o maluco respondeu assim quando ela chegou: “Eu não morri, eu só machuquei meu braço.”

No clímax a minha avó se debandou para casa dela: “com licença, com licença…” Ela não acreditava, não gosta desses rituais ou dessas “encarnações”. Mas a avó dela chamou o seu filho Antonio, que é o meu bisavô e pai de dona Alzira, que não gosta dessas coisas, para “limpar” a casa. Ele era funcionário cardecista, o que é uma espécie de sacerdote dessas seitas Luso-Brasileiras. Praticava em seu tempo livre, claro, porque era uma instituição sem fins lucrativos.

Então, o que aconteceu com o garoto?

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Irmão mais velho da dona Alzira que jogava búzios e morreu de pneumonia um par de anos depois dessa foto. Boehmio de carteirinha & sem oficio normal.

Ele teve uma morte tão rápida, o outro bonde que vinha em sentido contrário enganchou seu braço e torceu o seu pescoço. Ele não acreditava que estivesse morto, nem se quer sentiu o choque. Também não chegou a vir pra casa naquela sexta. Depois de trabalhar toda a semana e certamente ter várias espectativas entre amigos e amores prometidos para o final de semana. Ele e sua mäe viviam sozinhos, sem irmãos ou irmãs, sem um pai.


De acordo com as pesquisas de José Ramos Tinhorão contidas na obra “Música popular: um tema em debate” há dezenas de marchas de carnaval dos anos 20 aos 50 com o tema da vida levada nos bondes cariocas. Por sinal era mesmo uma vida levada. Tinhorão descreve os enredos e afirma dizer que foi um tremendo sucesso o hit “Bonde da Alegria”de 1944, uma letra água com açúcar. Ele dá o número da linha fatídica, 56 que desovava geral na meio da rua da Alegria. Por acaso o meu bisavô que de tabela entra na pós-história desse rapaz era condutor de bonde, mas de outra linha.

Logo depois desse episódio, a minha avó e sua avó se mudaram para Ramos numa casa que oferecia um bom quintal pra a jardinagem com a qual a minha tataravó tanto se dedicava.

A minha avó passou a trabalhar naquele ano ali na fábrica de sabão português que avizinhava a rua Bela e a rua da Alegria, hoje margeia a Av. Brasil. Isso não mudaria o contato dela com esse cara? já que antes ela era uma adolescente que ajudava na criação das irmãs menores e apenas vivia a sombra de sua avó. O pós-guerra foi vital para que muita gente re-estruturasse conceitos em sua mentes, sem falar que alguns escritores foram mais difundidos e quebraram com uma monotonia d’outrora culminando nas revoluções sociais dos anos 60.  Será que a inexistência desse moco é a explicação da minha existência? Será que ele iria naquela mesma noite convidar a minha avó àquele baile? Ela que nunca foi à um baile de carnaval, nem numa boate. Será que é tudo imaginação? Ou um sonho bom?


PS:

¹) Eu me mudei desse endereço e minha visão agora é pro mar e a minha casa de madeira. ²) sem dinheiro.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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