Carpe Diem


Novamente ele chegou com inspiração e gol, aos 32 minutos. Não consigo correr tudo isso, metade fico andando, e pensar ainda que tudo é com um devido balé acompanhado de adversários que querem conquistar atenção do público tanto quanto dominar o objeto esférico central no drama. Meu campo é essa tela do computador e as letrinhas são minha série de dribles, uma coisa espetacular quando bem usada.


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“In the Gardin” – Denis Sarzhin, 1914

Ontem mais uma vez pratiquei aquelas minhas viagens, uma outra espécie de saída do corpo, apenas mental. Pensava paralelamente as atividades que não requerem muito do meu esforço de raciocínio, como comer, beber, olhar, sentar, seguir, eu me voltava para dentro da minha cabeça, guardo lá em escala milimétrica o mundo todo, pensamentos com a qual eu não poderia dividir com as pessoas que me rodeavam naquele evento. Elas estavam presas a ações do momento, como uma conversa, uma brincadeira, uma cantoria, nessas ações eu não me incluía pois não aprecio nada que faziam, apesar que o convite estava extendido a mim. Eu me preenchia inteiramente com o que eu edificava matutando.

No bufê havia uma bandeija de ostras mas as evitei, engraçado como não veio nenhum desejo de saboreá-las. Se eu morresse envenenada com a comida da festa como uma vez aconteceu num scketch desses do Monty Python? No filme estavam todos sentados depois da janta com seus coquetéis, gente em torno dos seus 50 anos, e o anfitrião pergunta diretamente pra a Morte que acabava de chegar, “voce veio com alguém?”, “é sem dúvida seu convidado”, em direção a sua esposa. E a Morte com muita paciência, explicou que vinha pra pegar todo mundo. “Todos!” o anfitrião se espantou, e percebeu que só podia ter sido a comida que havia oferecido, a Morte aponta para as ostras em conserva com a validade vencida.

Passei a cogitar como poderia ser a segunda-feira sem a minha presença. Não sou uma professora na escola, nem um profissional da saúde, nem o presidente de um grupo. Falta traria aos meus filhos, meu pai e meu marido. Nos trampo que dou, sou substituível. Meu WordPress não receberia mais textos e ficaria pra todo o sempre ausente dos sites sociais, em pouco tempo os acessos a esses meus artigos cairiam vertiginosamente de prestígio e a ferramenta do program o anularia automaticamente das buscas conforme os números negativos.

O site de sociabilidade no decorrer da semana receberia milhões de convites pra cursos, shows, festas e programas de vendas; nada disso seria respondido quase como de costume. Algum camarada iria enviar alguma coisa pelo e-mail, alguma coisa engraçada ou uma notícia cabeluda ou uma mensagem maneira, com o silencio da resposta se esqueceriam de me “incomodar” mais uma vez. Talvez a minha cunhada espalhe a notícia em inglês para meus familiares e amigos com o qual ela tem acesso. E eles na melhor das possibilidades devem comentar apenas com uma outra pessoa fora do enclausuro da internet.

Nesse mesmo tempo meu marido iria procurar alguém que pudesse falar português pra enviar a mensagem via uma ligação telefônica ao meu pai que sua filha faleceu num acidente, numa fatalidade. Meu pai não iria entender nada, não iria acreditar e com certeza se zangaria com a pessoa que em pura solidariedade ajudaria ao Sverre se comunicar com o Brasil. Talvez a pessoa tenha um sotaque gringo ou português de Portugal ou de outra parte do Brasil, mas dificilmente seria um carioca, raríssimos conheci por aqui, e o Sverre não mostra nenhuma afinidade, principalmente, entres esses.

Já achando que os problemas maiores estavam findados, em um mês ele iria receber um e-mail da biblioteca pra devolução do livro “Empire”. O livro estaria repousado ao lado da cama como de costume. Por causa desse aviso ele se preocuparia em dar uma busca entre e-mails meus e agenda quais são outros avisos e compromissos do qual não mais poderia participar.

E toda vez que eu achava que esse tipo de viagem já estava indo longe demais, aqueles ao meu redor nesse último arranjo social se ocupavam em desenvolver uma conversa em tono do preço do sofa, com longos espaços de silencio entre novas tentativas de comentários.

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Crânio de um soldado romano morto em combate na Franca. Está exposta num museu em Buenos Aires.

Olhei para as caveirinhas da minha pulseira que depois da estrelinha é o símbolo que mais uso. Ali explicava muita coisa pra mim.  As caverinhas sempre foram o símbolo da mortalidade, avisando que nós mesmos seremos mais um osso sem vida no futuro, uma memória necessária: a de ganhar o dia, pois é imprescíndivel o Carpe Diem¹.


Obs1: As festas na Noruega não são descontraçoes, são exercícios de tradições. Nos EUA, China, Mexico, Inglaterra, Portugal e Brasil posso afirmar que festa é sinônimo de descontração, mesmo as festas tradicionais que envolvem casamento e outros ritos religiosos. Na Noruega esse conceito é recente e ainda não chegou a todos e quando se depara com um rito de passagem e religioso ao mesmo tempo tende ser um completo espelho de trabalho, de um serviço. aniversario 2000Música em praticamente qualquer evento festivo não existe, só quando são eventos dedicados a música, tipo concertos de rock ou festivais de jazz ou de música erudita. Álcool carrega ainda mais preconceito que a própria música. Festas sem álcool, sem música e com incumbência de estar elegante, bem vestido, ou melhor, ter investido uma grana numa roupa. Isso tem seu lado agregador e barateador. A bebida alcoólica é cara e não é saudável, mas a música? – è pura falta de cultura?

Obs2: Eu comecei a viajar na extinção da minha existencia, como dezenas de vezes antes, porque antes da missa de crisma do meu sobrinho norueguês, a minha cunhada fez questão de dar uma de adulto e lembrar à mim e as crianças de desligarmos nossos celulares, aí sem celular eu me desliguei. Eu e nem as crianças trazíamos aparelhados, calada ela permaneceu. Contudo durante a festa boa parte dos convidados acompanhavam o seu futebol e seus interesses em seus micro monitores do telefone. Eu repousava.


¹) “Carpe diem quam minimum credula postero” Aproveite o dia, confie o mínimo pra o dia seguinte, texto de Horácio (Poeta lírico romano 65 ac – 8bc).

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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