O olhar do silêncio


Ano passado vi um documentário chamado “The look of Silence” aonde um oftalmologista indonésio dá uma de Louis Therroux. Me’rmao, nao é qualquer que pode chegar e conversar numa boa com um monte de gente babaca.

louis theroux
Louis Therroux

O Therroux é muito bom nisso, ele tem uma longa carreira em fazer perguntas certas que vem se aperfeiçoando, se incrementado nos últimos 20 anos. Seu pai foi um jornalista que também lançou diversos livros. Uma família que tem ancestrais protestantes, católicos e judeus, com passaportes do Canada, Reino Unido, Italia & Franca. O cara chega em qualquer meio problemático sem grandes provas de restrição. Se ele fosse mulher o programa dele não teria o mesmo crédito e ele não esconde isso.

O gente boa indonésio não vem cheio de intimidadoras cameras com o emblema da BBC e uma nota na Wikipédia sobre quem é ele. O cara vem na paz, mesmo com o coração esmagadinho. Ele consegue rever com os analfas, chefes de esquadrão da morte lá na Indonésia que eles estavam matando porque disseminaram um rumor. Uma mentira que os “comunistas” são pessoas que não frequentam a igreja (no caso, o islã). Uma estratégia partida dos EUA, clara política intervencionista, igual feito no Brasil na mesma época, nos anos de Chumbo. Como o filme, há livros norte-americanos (Thomas Elliot Skidmore esteve escrevendo) sobre a mesma política intervencionista no Brasil, rumores como desculpa para que psicopatas locais matem seus iguais pelos EUA.

O Therroux leva as teorias de gente maluca numa prosa civilizada, sendo que ele não carrega a dor que pessoas que sofrem diretamente com o festival de horror promovido por essa gente maluca. O protagonista do documentário desvenda esta dor depois que o papo se conclui. Há uma metáfora clara no filme em que a vítima propõe fazer lentes gratis em troco da entrevista e visita.


1985, eu estava na quinta série, seria o primeiro ano que teria aulas monitoradas por professores homens. Seria o primeiro ano do resto da minha vida. Foi um ano difícil. Ali aparece bem definida os grupos de agriões que se constitui basicamente por meninas de cabelos longos lisos e os meninos melhor fisicamente desenvolvidos. Tomei a decisão de cagar para gente escrota.

Numa aula, alunos revoltados com a “entidade” Brizola, com o barulho da policia e seu helicóptero sobrevoando o Morro do Borel, começaram a bradar críticas difamatórias ao governador. As crianças o chamavam de velho, alguém lembrou que esse político se vestiu de mulher para sair do país. Comentários que denotam, pra mim, um10984241_990438820995488_4805511635389369521_n enorme mergulho dentro do mau-caratismo, já que EXISTE um motivo de sair do país disfarçado e esse era fugir da morte e eventualmente tortura   ou vice e versa. Eu optava por não defender político em hipótese nenhuma e portanto achava bastante adulta essa minha resolução de manter o estilo Suécia.

Eu acho que no meio do curso, pelo inverno, pelo escuro na  imagem da minha recordação de uma aula sobre o Egito, alguma coisa me fez  comparar o Escriba com bancários, assalariados e acabei por soltar o vínculo do meu pai com o Banerj. Pra quê? Surgiu sem muito esforço um fenômeno do ódio Marista em que as escrivaninhas de ferro & aglomerados se movimentaram formando uma música histérica. Era um som interessante e artístico, tipo as distorções do Fillip Glass, todavia a finalidade cobiçava amedrontar, afogar, apagar qualquer foco da minha existência ali entre esses “alfas”. Eles que movimentaram estavam em pleno direito de se expressar como fascistas, eles eram maioria, meninos e valorizados. A ação foi dissipada pelo simples fato que não me atrevi a responder a nada, apenas olhei para o professor que evitava olhar a cena.

O Glauco estava em cena, um dos provocadores. Eu não sei como foi sua vida nesse colégio. Infelizmente ele foi da minha turma nesse ano que nos víamos mais próximos do caminho de volta ao estado civilizado.

Uma vez o encontrei com uma pessoa que seria sua versão do meu sexo, estavam fora de sala de bobeira. Nós tínhamos 10/11 anos e estar fora de sala de aula era uma conduta ilegal gravíssima nessa escola. Outra realidade era 40/45 alunos por turma e 10 turmas por série, o que fazia muita gente não participar da vida da matilha de terceiros. Era sua cabeça troncha que criava esse seu mundo, bastava vc acreditar e o Glauco acreditava piamente que ele era o dono da festa e a amiga dele também. Depois desse ano nunca mais vi esse casal, talvez esbarrasse na fila da cantina, na piscina do Tijuca Tenis Clube mas éramos desconhecidos, eu pra eles e eles pra mim, desconhecidos e nem solicitos e bastante apáticos. 7 anos depois, no meu último ano no Sao José, indo falar com uma amiga, a única negra da escola, que sentava numa base de cimento de uma árvore, vimos passar essa garota e o Glauco. Ela corria atrás dele, se alterava. O que me fez resmungar justamente quando brilhava na minha explicação da matéria com a Karina. Antes que eu terminasse aquele meu resmumgo fui cortada pelo som de percussão, meio seco, meio agudo, muito triste e solitário, algo minimal, se bem explicado à um surdo seria um desenho retangular fino, em negro, torto sobre um plano branco cheio de glance. Era o som de um tapa num rosto.

A garota saiu segurando seu rosto como alguém que sai do consultório do dentista. Passos largos que se tornaram mais corridos a cada um que se avançava. As vezes penso, que a agressão existiu pela presença minha ali com a Karina. Haveria a mesma covardia se o meu irmão estivesse sentado com outro garoto?


A presidenta, que está sofrendo um golpe no seu segundo mandato presidencial, cerca de 45 anos atrás era parte do seleto grupo de estudantes e intelectuais que foram torturados. Os relatos dos torturados, há muito tempo atrás, me fez compreender o mundo de uma certa maneira e por isso é que não consigo encontrar honestidade em alguém que ESCOLHE ser cego quanto a isso. Não gosto nem um pouco de exercícios ou manifestações “nacionalistas” seja com brasileiros, Suecos, cambojanos. Este é o primeiro grande passo da violência, ratificando a arrogância total numa pessoa.

PS1: Por que se chama grupo do agrião?  Pasque cês’t la gente intragável e fresca.

PS2: Depois que eu saí desse colégio eu nunca mais vi essa gente nem mesmo no clube, nas universidades que passei, no Rio de modo geral, teatro, shopping, ruas, parece até que esse casal nunca existiu, já a Karina eu a encontrei no shopping Tijuca em 2007. A única coisa que eu não frequentava era a praia e isso mudou em 2004. Uma coisa é certa essa gente se prende a casa e só sai de casa no seu próprio carro para entrar em outro ambiente fechado imune ao cerco de gente pobre que dominava o Brasil.

Se esse pessoal tivesse visão ao invés de acatar as ordens da escola católica privada, ao invés de aceitar o que um grupo PRIVADO que monta informação e distração, diz; o Ciep  podia ser erguido & expandido com maior facilidade. Assim de certo não estariam em guerra por causa de droga nenhuma entre as 9 & 10 horas da manha o que fez parar a aula  naquele dia em 1985.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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