Laranja é a cor do cabelo dela, do sol do lado de fora e do meu livro


Encontrei um livro de comidas ibéricas numa loja de usados em Hillevåg. A cozinha espanhola é completamente desconhecida pra mim, parecem pratos mais complexos… Com certeza irei me aventurar nesse livro em tempos futuros.

Nesse concorrente do Fretex não há vínculos filantrópicos ou religiosos, “emprega” apenas pensionistas mulheres. É oferecido um café brabo, geléia e waffles.12424432_1058107904254474_315773100_n Não é um emprego, nem cultura, nem dinheiro e nem mesmo o sol que o norueguês clama, esse povo quer sociabilização. Para que vire uma realidade, vem se usando a clássica bedehuset kaffi¹ em praticamente qualquer lugar, um modelo da igreja protestante… Toda essa sociabilização fica tão artificial & fria tanto quanto os próprios quitutes servidos.

Observei minuciosamente todos os artefatos e finalmente sentei nos sofás reservados pra um lounge. Uma senhora daqui do meu bairro também foi de bicicleta. Ela pedalava junto aos veículos motorizados enquanto eu ficava na minha, na ciclovia. Como ela, me sentei adornada com um livro grande com grandes imagens. Ela desfrutava do chá e waffles que ganhavam uma carga boa de geleia e rømme (creme azedo) antes de serem ingeridos. Chegaram 3 pessoas assim que eu comecei a bebericar meu cafezinho, nós 4 recebemos a informação desnecessária do mesmíssimo modo, precisamente enquanto enchíamos nosso copo de papel:

-Nao bebo café. – disse a mulher com seu rosto rosado, seu casaco laranja e seu cabelo oleoso.

Daí você observa o tom grosseiro, o olhar a tristeza, o odor da solidão. Estava escrito na fachada da mulher. O que não podemos achar se abríssimos uma porta de comunicação, de atenção. Portanto continuei sentada pelos mesmos motivos que o africano refugiado optou não ficar. Ele foi sentar noutro lugar para estudar norueguês em paz.

(…) Continue sendo uma pessoa que consegue emocionar outra pessoa com um simples ato de bondade, sem qualquer outro pretexto a não ser sua vontade de ser solidária. Você deve ter notado que o pessoal anda muito mal-humorado (…) brigam porque um não toleram a opinião dos’outros. (…) o Brasil está metido é uma crise de civilidade. (…) O seu simples ato de bondade animou meu coração mais do que um marca-passo.

Trecho da Carta resposta de Luiz Fernando Veríssimo para uma estudante primária de escola pública situado na Tijuca – O escritor postou no seu blog  a fim de fazer-se enviar o conteúdo à sua destinatária, a menina não escreveu  o seu endereco próprio.

Puxei papo, alguma coisa ela dividiria:

– Vocês vieram procurar algo especial aqui? – lembrando que só responderia se requisitada.

Mais que imediatamente o cara e a outra mulher ao meu lado esquerdo responderam quase identicamente ao mesmo tempo. Com afoito e sem pensar a sujeita de casaco laranja contou que treinou quando garota no Frisinn²  nos anos 70. Ela queria comentar pelas fotos do livro, o que não deu muito certo. Eu conheço o livro, suas fotos variam de 1860 à 1940.

Interpelou à dama ao meu lado esquerdo como esperando uma parceria patrícia. Essa moca era de Rosendal e disse não se interessar por coisas de Stavanger antiga. Pulei da cadeira divertida, fui dizendo que tenho uma amiga de lá também, do qual a moca era bastante amiga. A sujeita de casaco laranja ficou de boca aberta e acabou por ser grosseira com essa senhora de Rosendal, logo a rosendaliana se retirou e não consegui mais esticar uma prosa com ela.

Iria me levantar e me enturmar com a rosendaliana. Ponderei, posso acabar por conhecê-la numa outra ocasião. Então me dirige a mulher de laranja do seguinte modo:

-Voce faz algumas coisas certas como beber chá e andar de bicicleta. – como quem diz: “Faca observações positivas que elas voltam pra vc.” Era o caso claríssimo que essa pessoa passou a vida sendo criticada e infelizmente qualquer atentado de melhorar tem efeito praticamente nulo, mesmo assim deixei o meu melhor.

Foi a vez do cara falar comigo e tivemos um papo agradabilíssimo que envolvia o Rio. Por diversas vezes fomos interrompidos. Fez questão de repetir que a única vez que saíra do país foi pra a Holanda e que tinha problemas com o sol. Ela tinha diversos problemas mal cuidados por profissionais ruins. Ela abusava do termo “Syden³”, cuidadosamente a aconselhei se atualizar. Peguei minha agenda e comecei a desenhar. Ela querendo entornar o caldo logo de uma vez me requisitou:

– Vc sabe o que é uma vev (máquina de tecer)?vevstoler_norjaana

– É claro! – respondi – na universidade haviam muitas antigas pra mostrar técnicas passadas.

– Pois é, foi inventado na Noruega.

– OhGod, muitos povos antes da Noruega já tinham máquina de tecer, aqui não é o único país no mundo. – Ela repetiu maquinalmente sua afirmação. – Ok, se vc quer assim, fique assim, mas não é a verdade.

– Você está desenhando? – ela desconversou.

– …e escrevendo. – parcialmente a ignorando. Ela foi embora.


Obs1: Eu acho que já ouvi algo tosco do gênero, muito provavelmente dos meus sogros, meio nebulosamente arquivado na minha memória. Dei uma checada em diversas fontes enciclopédicas em casa pra rever o que eu acredito, nunca se sabe podemos nos enganar o tempo todo. Não achei nada que indique uma patente norueguesa no desenvolvimento de técnicas da máquinas de tecer, sempre os mesmos suspeitos: Alemanha, Franca, Holanda e a Inglaterra, nesses últimos 5 séculos, fora outras técnicas aliens a européia que foram adidas com as grandes navegações. Seria um contra senso desenvolver a industria fora do parque industrial. A tecelagem andou junto com a humanidade, iniciou lá no Egito. Aonde havia mais gente e mais dinheiro, mais as técnicas de tecelagem se desenvolviam. O mais interessante ainda é que a patente foi criada justamente na época do mercantilismo, havia necessidade de avanços na engenharia. Contudo Felipe II da Espanha, apesar de ser o mais rico monarca na época, não via nenhuma vantagem em qualquer investimento, muito pelo contrário via nisso um desrespeito a igreja, ao reino e a família. Com a patente documentando as INVENCOES, acabou-se por mapear os primeiro focos da industrialização.

Debat-Ponsan-matin-Louvre
“Uma manhã fora da porta do Louvre” de 1880. Edouard Debat-Ponsan descreve nessa obra a Rainha da França, Catherine de Médicis. Ela examina calmamente as vítimas da
Massacre do dia do St. Bartholomeu. Isto não é a história francesa glorificada por um patriota, mas a história posta nua, espelhando desumanidade do homem para o homem. Debat-Ponsan pode ter caçado uma referência histórica fazendo então sutileza à um mais recente acontecimento, o banho de sangue da Comuna de Paris de 1871. A pintura histórica retrata melhor quando trata, mesmo obliquamente, de acontecimentos recentes.

 

Obs 2: O criador da patente, dessa DUCUMENTACAO, foi o Henrique II da Franca. Ele por acaso era marido da Catarina de Medici que odiava o Felipe. Essa foi uma idéia sensacional que eu mesma não acredito que o rei francês tivesse bolado, mas oficialmente a patenteou. A religião inibia avanços focados nas leis naturais da física e da química, incompatíveis com leis criadas por religiosos. Esse casal real francês estava geograficamente e historicamente no meio de muitas contendas no mundo que dividem a sociedade até hoje. Na marra tiveram que entender e aprender o significado da tolerância, antes nunca tão discutida como no dia de Sao Bartolomeu. Catarina já madura e viúva havia cedido aos interesses dos intolerantes católicos, eles queriam banir os Huguenotes ou sacrificá-los, como aconteceu de montão, entravam nas casas e fizeram miséria com essa galera, classe media e trabalhadora. Os huguenotes foram responsáveis por um super avanço na tecelagem pré-primeira revolução industrial. Na Inglaterra não pararam mais, inclusive conseguiram apadrinhamento do governo, o que impulsionou mais ainda os avanços tecnológicos na industria têxtil. Em 2 séculos a Franca se encontrava super endividada pelas importações e nunca mais iria sobrepor a potência britânica.thumb_om_aasen_vev_398_266

 

obs3: As escolas publicas chamados folkeskole que davam o ensino básico do básico até os anos 60 não funcionavam em período integral, eram 3 vezes na semana. Não tinha inglês, nem geografia, história e a matemática era apenas as 4 operações. Contudo 2 cadeiras eram obrigatórias: casa (lavar roupa & louca, fazer comida, marcenaria) e tecelagem. Todos os adolescentes noruegueses de 1880 até 1950 que frequentaram a escola fizeram pelo menos uma peca feita num tear. Seus instrutores deviam de encher a bola da coisa e se o cara fosse um nacionalista instigaria que “A Noruega inventou o tear”.


¹) Bedehuset são capelas protestantes, salas para leituras de salmos, ou mesmo missas guiadas muitas das vezes por um padre leigo. Elas não existem mais. Antigamente elas eram espalhadas por toda Escandinávia aos montes porque as igrejas não davam conta do contigente populacional.

²) Frisinn é a clube desportivo mais antigo de Stavanger criado pelos trabalhadores a quase 100 anos atrás.

³) Syden é um termo que boa parte do noruegueses se referem ao mundo, já que tudo ao sul do país se torna syden. É tão errado quanto dividir o Brasil apenas em sul e norte.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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