Dizendo não a sociabilização do centro da cidade


Na quinta fugi de casa e fui tentar pegar sol no centro. Tava uma luz ok – sim, mas as lojas eram mais convidativas. Numa das esquinas senti as paredes enviarem bilhetinhos transportados em foguetinhos pra dentro do meu ouvido, ao qual com uma certa engenhoca colavam cartazes que eram sugados pela mucosa da parede dessa cavidade, entravam na corrente sangüínea e se dirigiam para o cérebro, lá se codificaria as mensagens. No leitor aparecia: “entre sem arguições, sem ressentimentos, sem voltas-atrás nas lojas”, “esqueça do sol, pois vai durar” (a grande verdade é que ele não dura muito por aqui), “tente achar coisas em liquidação, enquanto está com saco para comprar sem a companhia dos filhos”.images

Ainda por alguns momentos saía do transe e voltava à rua. O uso do imperativo não cola muito comigo… Na quarta idéia de verbo nesse modo conjugal, o meu cérebro já soltou a sirene de anti-sabotagens.

Não havia bancos ou cantos passíveis nas ruelas do centro de Stavanger. A mobília da cidade não parecia esperançosa pela minha companhia estava entregue a uns sujeitos, que pelo amor de Satã, escondiam sua bebida em sacos dos supermercados mais próximos. Essa gente provou pra mim uma grande quantidade de educação ao malocar aquilo que seria o pivô da sua condição estética e por conseguinte da sua limitada interatividade com o resto dos que ali perambulavam no mesma hora. A lei norueguesa proíbe beber fora de um estabelecimento direcionado a vender álcool, que seriam apenas bares e restaurantes. Esses estabelecimentos pagam muito ao governo pra proteger seu cliente e o consumo de álcool, fazendo com que exista essa educação numa pessoa que não precisa mostrar nada a ninguém.

O cenário dessa ação eram as desgraçadas arquiteturas que ratificam uma cidade provincial. Igual a nichos de cidades que nunca mais voltei como: Nova Friburgo, Curitiba, Cabo Frio, Santos. Nunca que iria achar que estava no velho continente se me jogassem do céu, salva a visão que Domkirke, a catedral de Stavanger, faz.

Logo que eu entrei nesse edifício, uma velhinha ficou chocada com a minha presença, fez um pequeno alarde positivo. Ela veio me dar aquele evangelho vermelho pra acompanhar o salmo. Expliquei o motivo da minha presença e sorri, apontei à tapeçaria e sentei observante diante das obras de arte. Venho tendo dificuldades de capturar imagens dessa igreja e acabar por perturbar os usuários.

Passado a minha primeira reflexão, um homem sai da portinhola (sem sacanagem, a porta tem 1,50m cravados) que conduziria ao vitral de rosácea¹ e ao relógio. O mesmo cara deixa essa mencionada porta bater violentamente, dá paços largos até a nave e continua assim até o altar. Carregava uns cadernos e pastas. Usava uma roupa típica dos caras comuns em filmes norte-americanos, bege e marrom, tecidos que pela distancia, aparentavam ser naturais. Através de romances que confundem tanto nossas cabeças e nossa habilidade de tomar decisões, esses malucos super normais dada sua fachada são nofundo-nofundo pessoas pra lá de incomuns, celebrizados nos livros de King. Aí, eu só sabia de uma coisa, eu precisava deixar as minhas viagens fluírem, confundir a realidade momentânea dali, daquele lugar antigo, dramático & histórico com o que esse cidadão do Maine² tem escrito.

A velhinha tentou um segundo chega-mais comigo fazendo uma reverencia que parece que a pessoa puxa a cabeca igual as nenens brincam com suas bonecas e a boneca responde como se fosse amaldiçoada, ainda que anciã fizesse isso meia encabulada. Esquivei-me sendo direta, “Não sou cristã, estou aqui pela arquitetura.”. Também estava para criar caso, quero dizer, meditar meus pensamentos antes de ruminá-los aqui no WordPress, peco mil perdoes aos leitores. Ela deu uma de Leão da Montanha saindo pela esquerda, lembrou de boas que eu poderia assim mesmo acompanhar o programa pelo livro e exato aí nesse instante, me arrependi de ter sido tao fluente em norueguês.

imageSem meias voltas e pelo terceiro consecutivo ataque de sociabilidade, ela comentou que uma rapeize saiu vandalizando os vitrais do altar e estudantes da escola que fica ao lado, fizeram um vitral quebra-galho até o original voltar de Trondheim reformado por especialistas (Vi no Feice que vão levar de 2 à 3 anos nessa brincadeira). Sentamos quase juntas nas primeiras fileiras. O maluquinho apressado era o maestro, ele tocou o órgão localizado no altar (tem um outro órgão maior que fica no mezanino de costas pra rosácea). O organista tocou maravilhosamente fazendo aquelas piruetas com mão de vez quando.

Wpm128_PalaceO vitral é até bonitinho, só que não cai bem naquela igreja. Essa obra ficaria muito deliciosa de ser vista se produzida em larga escala para um palácio das Barbies que voce mesmo monta as pecas e consegue guardar até  12 bonecas lá dentro, inventando festas e acontecimentos inerentes ao estilo de vida que a Barbie passa aos seus consumidores. Tirei foto de tudo menos do vitral.

Saí da igreja com a impressão de dejavú. Dei uma explorada no que eu tinha arquivado em diários, em experiências no centro de Stavanger. Precisamente no dia 6 de abril de 2015, descrevi sobre algumas pessoas e situações na biblioteca:

Nesse dia entregaria à instituição o livro da Haper Lee de volta, o aluguel do livro findava no dia seguinte.

Eu, Katarina & o Alex votamos em assembleia extraordinária se iríamos visitar o tivoli no Paradis ou ficaríamos ali no Sølvberg para vermos um filme. A cultura ganhou por unanimidade.

Resolvi tomar um café quente do Narvessen a poucos minutos do inicio da sessão. Nesse momento teria que também revisar com a Katarina o manuseio do telefone e logo eles se debandaram pra a sala de cinema. Percebi que nao havia espaço descente naquela segunda-feira para os visitantes desse cento cultural. O vão de leitura estava reduzido a 1/8 do seu tamanho normal. Tive que sentar ao lado de gente que optaria nunca conhecer.

As 5 pessoas a minha esquerda eram: uma mulher africana entre 18/25 anos, usava um lindo turbante misturado ao cabelo e tinha um rosto gracioso; um homem africano de 30 à 35 anos, porte médio, que posiciona-se lideroso em meio ao grupo; a segunda mulher era obesa, tipo indígena, estava vestida toda de preto e carregava a tira colo um headset rosa-shokking purpurinado, poderia ter entre 35 à 40 anos; o segundo homem se portava e recendia aos tipos do nordeste africano (Eritrea). Era magro, poderia ter entre 25 à 30 anos. A quinta pessoa era o bebe filho da mulher com turbante.

Não me concentrei muito no que eu lia, o papo dessa galera merecia ser gravado. A terceira pessoa é a típica mestiça das Americas, vem de um berco menos agraciado economicamente, mas não deixou de frequentar escola desde de muito cedo. Foi também constantemente alvo de campanhas publicitárias disso ou daquilo para consumo, como “beba refrigerante tal”, “coma biscoito tal”, “ouca musica do momento tal” & “vista roupas feitas na China tal” pois è examente o que ela faz. Ela se destacava do grupo como uma gota de óleo num copo de água.15966124_1762769307082452_6117094453241068705_n

E daí que na conversa era ela que tomava mais para si o uso do verbo. Acabou por opinar que via muitas animações com seus filhos, principalmente os da Disney. Era uma fa incondicional da produtora. A segunda pessoa descordou de tal atitude e expressou uma tremenda crítica. Sentenciando que desenhos eram feitos exclusivamente para crianças e indiretamente queimando geral com o filme dessa conhecida dele com os outros africanos a sua volta. (Coitada da mulher…) Esses outros 2 africanos nada expressavam, pareciam obedecer a uma hierarquia o que me deixava um pouco inquieta.

Essa mulher bem-mais-acima-do-peso-ideal falava bem inglês. Já não posso dizer o mesmo dos africanos ali presentes. Usavam o inglês como forma de comunicação porque não dominam norueguês. Daí ela pegou um livro ao seu lado e justificou a sua forma de aprendizado da língua local através dessa média. Imediatamente o mesmo sujeito voltou a criticar esse conceito, para ele o modo de linguagem ofertado num livro infantil era infantil (cá pra nós, obviamente o cara nunca teve acesso a livros.  Quem era infantil naquela mesa era ele), contudo foi apoiado pelo seus cúmplices africanos. Dessa vez fiz uma cara de reprovação as risadinhas do grupo que fora apenas notada pela mulher tipo indígena, que oficialmente já se encontrava em maus lençóis com essa galera.

Muito diplomaticamente ela mudou de assunto para o evento que ela mesma iria em breves momentos. Ali ela estava na tentativa de matar o tempo com a agradável companhia deles. Falou que sua amiga a convidara para um jantar de inauguração do novo apê ali nas imediações do centro e o prato principal era sua comida favorita: lasanha. Fora a vez da quarta pessoa emitir a opinião de volta e ele disse que odiava lasanha porque tem queijo. Os outros africanos permaneceram quietos.

Procurei outra coisa pra ler e fui ver se rolava ler num café, já estava mais que na hora de sair do cerco desses estranhos. A moca saiu em direção ao evento que ela havia mencionado e eu fui respirar um ar mais arejado do lado de fora do centro cultural, momentos mais tarde voltei ao nicho. Os africanos pediram uma pizza para a janta!

O maluco africano mais velho desse grupo está sempre na Sølvberg de bobeira, nunca lê porra nenhuma, fica lá de papo com outros tipos iguais a ele. Hoje reescrevendo essa memória fiquei com pena da velhinha, ela era uma pessoa gentil… Eu estava muito na minha e não esperava interagir com ninguém especialmente noruegueses.


CVP_A3221¹) é um elemento arquitectónico ornamental usado em catedrais durante o período gótico. Esse elemento decorativo transmite luz e cor, podemos dizer também, um contacto com a espiritualidade.

²) Stephen King

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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