Trela*


O clima está definitivamente quente no Rio. As mulheres de um modo geral passaram a falar mais sobre o aborto. Hoje com centenas de relatos acessíveis  busquei entender e passei a me importar com esse tema um pouco mais, diferente de antes quando morava no Rio aonde isso significava uma pedra no meu caminho à universidade, ao meu futuro “brilhante”, uma poluição desnecessária que ocupa espaço e retira energia dos meu focos, que deveriam ser a física, biologia, matemática e química…

Mesmo nos países escandinavos a mesma proposta de debate existe e isso se faz de máxima urgência nos países em desenvolvimento. Em desenvolvimento porque não conseguiram aliar suas economias ao um bem estar populacional. Mesmo assim, nenhum sistema no mundo é ainda favorável para quem use saia.

Eu tive problemas no Rio por andar sozinha, para ir as diversas atividades que eu fazia: curso de ingles, aulas de desenho, natação, vôlei e outras mais. Excluí ir à escola porquê usava um uniforme que identificava para muitos parte do que eu era. Servia como uma incrível armadura. Já que a classe média era provida de carros, já que a classe média tem medo de pobre, alguns deveriam não conceber em seus julgamentos que uma moca possa andar sozinha. Quem eram esses caras que falavam coisas que uma criança não pede pra ouvir? Coisas que até hoje não consigo repetir e que por muito pouco ou por sorte não me transformaram num Eiternes.

Previa o futuro brasileiro como um Paquistão, aonde as mulheres são obrigadas a se cobrir para não atrapalhar a vida dos homens. O padrão começou a mudar com os anos 90.  O que se desejava era a igualdade de género em qualquer carreira. Eu acho que sou lenta para entender, trabalho a beca par descobrir o mundo, entender o meu semelhante por isso escrevo aqui no intuito de organizar essa cadeia de arquivos.


hippies
Aparentemente esse cartaz foi produzido pelo governo do Estado agora na década 2010, dizia a fonte. Tenho minhas dúvidas…

Desenhava mulheres e os irmãos Maristas acharam que o meu tipo não observava a tendência da instituição. No verão que veio saí do quadro Marista e a minha mãe iniciou na Eventos BB. Através dela ganhei descontos nos ingressos da Eco92. Foi uma barra achar alguém pra visitar essa grande feira de exposição comigo. Uma feira que envolvia workshops & seminários também. Foi umas das coisas mais baratas e mais pertinentes que participei nesses anos. Depois, feiras como essa tomaram mais valorizadas e se tornaram mais comuns.

06-01
uma estranha apresentação na Eco 92

Fui com um camarada do curso de inglês. Dividi um chocolate estrangeiro com ele enquanto me contava agruras do serviço militar. No dia seguinte fui com a minha mãe. Num anfiteatro que montaram, vimos danças tradicionais de grupos indígenas da Amazonia feitos por um grupo de Manaus. Achei inesquecível e Rothko iria achar também pela cadencia estrutural construtivista-abstrata. Numa pausa entre apresentações, um cara de uns 40 e muitos sentou do meu lado. A minha mãe sentava do outro lado, mas como encontrava com um monte de gente por lá, acabava por bater papo com esses conhecidos e esse maluco puxou conversa comigo, devia achar que sentia ali no anfiteatro DESACOMPANHADA.

Não me lembro mais quais foram sua exatas palavras mas congelei sua intenção como um arquivo a se tomar por base. Ele se portava como estivesse falando algo civilizado – não era. Ao findar o papo dele, lembrei que eu era menor e não me interessava. Jamais aprovei relacionamentos de homens mais velhos com mulheres mais jovens. Ele se defendeu com um “é muito comum”, dei uma respirada e muita seca respondi:

-Nao, nao é. – ele se afastou, incrédulo, embaraçado, enfraquecido, enfurecido.

Continuei olhando para ele. Um olhar aprendido nas aulas de catequismo com uma instrutora muito boa que eu tive na Santo Afonso. Ela pregava que Jesus usava do olhar pra reafirmar suas ideias. O meu, contudo naquele momento, podia ser traduzido da seguinte maneira: “como que ousas se dirigir à mim, degenerada criatura” ou “vc está velho, mas não está malandro” e imediatamente contei tudo a minha mãe e as amigas, logo ficamos todas olhando para ele até alguém se levantar e o cara fugir do anfiteatro.

aterro-do-flamengoPor anos lembrei dessa passagem como alguma coisa que começa amarga mais logo se dissolve. Depois fui juntando pedacinhos e vendo que o perigo era muito mais eminente do que a minha cabeça poderia calcular naquela noite entre apresentações folclóricas. A Eco 92 se passou no Aterro do Flamengo e por mais que o lugar estivesse apinhado de gente, reorganizado com uma certa infraestrutura (banheiros e iluminação), o parque é bastante grande e cheio de vegetação com uma arquitetura que encobre sons e luminosidades. Era um lugar perigoso. Imagine se acatasse um convite de um estranho?


PS: Em 2011 viajei com o meu pai para a Argentina num cruzeiro. Ficava na piscina o dia inteiro lendo Jane Eire e a noite lia na tabacaria. A maioria dos presentes no navio, pasmem, eram casais de 30 anos de idade sem filhos. Um cara igual ao maluco da Eco chegou em mim (porra, novamente) e fez o mesmo tipo de proposta, com ou sem mulher dele presente.

– Me’rmão, vai tomar no cú. Vc me tirou da minha leitura pra isso? PQP!- Se fosse teatro iria ser mais legal, a luminosidade total da luz de verão sobre a piscina cairia rapidamente focando exclusivamente na cara do cara.


*) Atenção à alguém. Comumente usado em flertes.

 

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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