Terrorismo na porta de casa


O radicalismo está infiltrado na sociedade e vai crescendo igual erva daninha. Um cancer que tenta corroer a democracia. A maioria dos afiliados ao radicalismo não entendem isso. Semana passada li um twitter de um sociólogo famoso paulista que dizia que um radical é uma forma ambulante de falta de senso de humor com uma séries de questões sem serem perguntadas. A única coisa que me veio a cabeça depois de ler isso é que precisava muito tirar um onda com essa frase de efeito em algum evento.

Kanel-Boller
“Kannelboller” ou “kanelsnurr” esse pão doce na Escandinávia é tao popular que tem o dia nacional desse pão na Suécia e eu quero muito ir lá um dia.

Chegou a oportunidade. No sábado participei de um seminário a convite da minha vizinha, ela está de licença maternidade e eu estou devendo a ela 100 pratas por ela ter pago a minha entrada. O seminário ofertava um lanche entre as palestras que vinha com 2 rolinhos primavera com molho acre-doce, mais um bolo de canela & uma garrafinha de H2o pra hidratar.

Bem-vindo ao seminário aberto com vários oradores interessantes. Visualização do documentário Jihad: “Uma História dos Outros”. O seminário é em Inglês e norueguês.

Programa:
11h às 12h, O filme: “Jihad”
Das 12h às 13h, Entrevistas com a diretora e ativista dos direitos humanos Deeyah
13 às 13.30hs, pausa com lanche
13.30h às 14.30h, Tom Olsen: “Um processo de saída.”
14.30h às 1530h,  Jan Opsal: “Pode se detectar uma radicalização?”

Deeyah.1A primeira palestrante iniciou com o seu documentário, bastante perspicaz, bastante emocional, com excelente qualidade de produção, posso dizer. Essa obra lhe rendeu um prêmio Emmy. Deeyah Khan nasceu na Noruega, seus pais são Paquistaneses e sua formação acadêmica é britânica. Essa junção de fatores a deixam um pouquinho acima da media dos homens comuns, ela terá percepções e entendimentos avançados além do domínio de comunicação nessas diferentes línguas.

Explicou o conteúdo intrigante do seu documentário aonde mostrava homens que passaram 20 anos numa guerra, que compraram a idéia de radicalização. Mulcumanos que mataram outros mulcumanos. Muito parecido com o ódio de brasileiros contra brasileiros, na linha “culpa do pt”. A grande mídia tem uma boa parcela de culpa quando se trata do terror, esta dissemina uma única idéia forte.

Não é que os canais midiáticos não saibam, estes simplesmente simplificam ao gosto deles e o operador midiático que se não deixar levar por esse esquema já pronto vai ter um caralhao de trabalho para explicar ao seu público quais são os outros fatores. Justamente o trabalho da nossa amiga Deeyah.

oscar_wilde_dorian_gray_by_angel_foodEssa mulher brilhou em cena, sua luz alumiou (pra ficar poético e swingado) muita gente no local. Os outros 2 conferencistas não deixaram a peteca cair. No caso ocorreu uma nítida revisão, inversão da celebre frase do Oscar Wilde:

“I like men who have a future and women who have a past.” 

O Tom Olsen, o novo nome do neo-nazista, tem um passado cheio de aventuras dignas de um filme do Tarantino. Ele costumava ser chamado por seu sobrenome Eiternes. Eiternes na infância tinha um amigo. (Risos tristes) O amigo era marginalizado, proveniente de uma família desestruturada, todos os adultos dessa familia norueguesa tinham passagens pela prisão e problemas com alcoolismo, o que significa que: imperava o desemprego e uma péssima economia.

Eiternes admite que sua família era bastante comum e simples,tom16-9 mas ajustada. O que fazia ele se unir a esse coitado? Ele mesmo lembra que ele próprio era bastante zoado em Haugesund. Eiternees queria achar uma solução para o seu problema de falta de popularidade e rebaixar os caipiras que vinham das ilhas com esse outro menino, esse plano foi posto em prática. Os caipiras não eram zoados por meninas. As brigas se tornaram rotineiras nas matinês.

Nesse meio tempo uma casa foi invadida por uns criminais se tornando uma espécie de grêmio recreativo para consumidores de anfetaminas. O irmão mais velho do camaradinha do Eiternes era carta certa todo final de semana. O camarada de Eiternes passou a seguir o irmão e logo se tornou um trampo de gente, consumido pela droga que usava. Depois de um tempo pessoas são presas, outras adoecem ou tentam se livrar desse ambiente e a casa muda de dono, para neo nazistas. Não havia mais anfetamina e o melhor: a bebida era de graça.

Um dos primeiros entretenimentos ofertados nesse novo grêmio recreativo, coisa leve, sem maldade, foi ver um filme mudo PB¹. Durante a palestra Eiternes explica como são esses filmes do início do século, ignorando qual seria o nível cultural do espectador. Teria isso cabimento? Até me pareceu bastante educado, pois realmente não sabemos qual é o nível do nosso semelhante e explicar mais é melhor para evitar furos de compreensão, penso eu.

Danish-poster
cartaz do filme em norueguês!

O filme que ele não se prestou a cagüetar o título se chama “The Birth of a Nation” de 1915, conduzido por  D. W. Griffith. Originalmente chamado The Clansman, o roteiro adapta a realidade de famílias na Guerra Civil Americana. O filme foi um sucesso comercial embora seja altamente controverso devido à sua representação de homens negros (interpretado por atores brancos com MAQUIAGEM). Os negros são tidos como menos dotados de raciocínio e sexualmente agressivos para com as mulheres brancas. Houve protestos afro-americanos generalizados contra a obra. Também se credita ao filme como uma inspiração a segunda geração Ku Klux Klan.

Essa propaganda causou um impacto tao ruim no Eiternes como a afetamina causara no seu antigo camarada de infância. Ele enviou um “oi” ao KKK e a irmandade sulista norte americana enviou todo material promocional que podia enviar de graça a um menor no estrangeiro. O que se nota também que todas essas instituições que promovem o ódio é que elas costumam andar na lei, ali no que rege o limite. Mas promovem entre o seus seguidores transgredir a lei em prol da organização deles. Se eles cometeram atos fora da lei, eles arcam com as consequências porém essas instituições dizem oferecer suporte, no qual eles acreditam piamente.

Um perfeito exemplo é o Bolsonaro. Simplesmente desrespeita as leis brasileiras de modo obsceno e incentiva aos seu séquito desacatar as mesmas que fogem ao seu estilo de vida. jair_bolsonaro1Xingar colegas de trabalho, caçar em reserva florestal, imagina o que não deve ele fazer com a empregada dele que provavelmente é mulher e negra?

Na palestra o Eiternes passa a recitar os anos confusos entre os 16 e 19 anos de idade que constantemente ía preso. Na prisão seu único material de leitura era material didático supremascista ariano do qual lia por horas sem sessar. Sem poder real pra criticar ou questionar essas informações de efeito lobotomico.

Nascido em 1975, fez parte dos Skinheads, depois os Birkebeiener², Cavaleiros Templários e a Ku Klux Klan. Aos 21 anos de idade o concederam como Grand Dragon do Reino da Noruega, de acordo com sua biografia renunciara ao título por ter recebido um apoio financeiro substancial pra se armar a fim de realizar um golpe na Noruega. Não irei entrar no mérito que ideologias as vezes são apenas fachada para alistar bobos e defender o grupo.MPW-46054

Até ele sair desses aprisionamentos, ele notou que não tinha dinheiro, estava maduro demais pra morar com os pais, não tinha estudo nem emprego. Apelou um dia para uns familiares que moravam em Pretoria. Rolou uma oportunidade de se unir aos Supremacistas brancos da Africa do Sul e também trabalhar com eles! Queriam depor o Mandela, um lance de golpe também pelas bandas de lá. Ele como um verdadeiro White knight não iria perder essa chance de mostrar todo o seu potencial.

Na verdade nunca rolou como ele romantizava na cabeça dele. Ele nunca foi visto como igual pois não dominava o africânder³. Contudo tentou ganhar popularidade com a galera, trabalhou nas fazendas e no final de semana bebia nos pubs só de brancos. Um dia teve a belíssima ideia de fazer umas músicas e conquistar de vez o público do pub e essa primeira tentativa de hit deu muito certo, a letra tinha o intuito de denegrir a imagem do líder Mandela. Nossa, chamaram ele pra beber junto, foi um super positivo auê.

Na vez seguinte atacou de anti-semitismo. Pegaram o microfone da mão dele, quebraram o instrumento musical, ele não entendeu muito até coroarem sua testa com um revolver. Poucos momentos depois levaram ele num lugar, tipo um centro de convenções e mostraram as dezenas de estrelas de Davi e outro símbolos israelitas aficcionados junto à outras medalhas e objetos cultuados pelos mesmo supremacistas brancos da Africa do Sul. Para eles, o israelitas eram o povo irmão, principalmente nas negociação de diamantes.

Na segunda-feira ele ainda continuou por ali, achando que tinha passado tudo e foi trabalhar. Pegaram o cara e levaram pro meio do mato. Ali ele viu a morte. Ele teve certeza que ele disse alguma coisa certa que fez com que os Böers abortassem a idéia de “apagá-lo”. Eiternes foi banido e decide partir para Johannesburg.

Quando chegou em Johannesburg ele não tinha mais dinheiro, ligou para os pais pra pedir ajuda e eles mandaram dinheiro que só chegaria em 10 dias. Nesse meio tempo ele iria passar fome. Uma senhora dona de uma pensão ficou com pena do cara e deixou ele morar lá até ele pagar os 10 dias quando viesse o dinheiro.

Numa noite nessa mesma pensao ele via a tv um jogo qualquer e bebia água. Um cara chegou e ofereceu um lager, 500ml de cerveja numa tulipa maiorzinha. Na palestra o ex-neonazista repetiu algumas vezes isso: “foi sorriso mais bonito que eu vi na minha vida”. Não apenas pelo cara pagar várias para ele, o cara tinha um sorriso muito cativante. Ele continua:

-Quando dinheiro chegou tentei pagar o cara de volta e ele disse que não precisava que ele havia ficado tocado com a minha roubada.

Eiternes diz ainda que ao se virar e ver o negro sorrindo pra ele com a bebida dourada brilhante na sua frente e ele vestido com uma camisa suja com uma grande suástica não sabia aonde enfiar a cara. Essa descrição desse moco negro me pareceu muito com a estória da minha tataravó. Achei que era o mesmo cara!!!! Eiternes disse que o cara era zambiano.

Ele voltou pra a Noruega, como não tinha absolutamente nenhum outro meio de convívio,  foi preso novamente. Dentro da prisão é que finalmente decidiu largar essa vida de uma vez por todas dado essa cadeia de episódios fortes. Na penitenciária entre a liderança espiritual, o seu próprio advogado de defesa, um outro cara fez moldar o Tom Olsen que estava lá na biblioteca contando causos e aventuras passadas nos anos 90, era o chefe da cozinha. O cara que conta se todas as facas estão no lugar no final do dia.

O Tom Olsen escreveu um livro em 2002, casou logo depois e se formou em serviço sociais e hoje é ativista contra a radicalização. Pelo menos um final feliz. Aí mostra que o sistema carcerário norueguês reabilita e que mesmo as pessoas nas mais barbarias esferas com o tempo podem vir a ser mais produtivos cidadãos pra o mundo. A minha impressão (se tiveram interessados) é que ele fez de tudo para impressionar e agora ele tenta impressionar a galera certa, mesmo que seja apenas ele mesmo.


¹) Preto & branco

²) Uma pintura da escola nacional ultra romântica norueguesa que é bastante popular e reconhecida aqui. Nessa obra aparece a milícia real (os Bierkebeiner) usando ski. Esse ano o óleo de fígado de bacalhau dramatizou essa pintura é um comercial realmente incrível. Essa pintura é uma apologia romântica ao modo de vida desses heróis assim como Dumas escreveu sobre os Mosqueteiros do Rei francês no século XVI. Agora vc imagina a galera que faz uma irmandade terrorista baseado nisso.

³) A língua falada em metade da Africa do Sul, derivada do Holandês.


PS: Eu já paguei a minha vizinha 🙂

Anúncios

Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias comunicacao, crime, guerra, memórias, pedagógico, sociologicoTags, , , , , , , , , , , , , , , 9 Comentários

9 comentários sobre “Terrorismo na porta de casa”

Qual seria a sua perspectiva sobre esse assunto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s