A sala da má reputação


Uma das minhas mais novas maneiras de usar o tempo livre – como se ele fosse realmente livre, porque ele não é, meio estou pegando emprestado – é visitar leiloes. Eu queria muito ir num há muitos anos, um dia eu cheguei pra mim mesmo e me perguntei se eu estava esperando um convite formal…  O mais profissionalzinho que tem em Stavanger fica sediado em Sandnes. Quando resolveram formar a firma em 1974 o aluguel do espaço no meio do centro da cidade era consideravelmente mais barato que um lugar similar em Stavanger.10603982_859180470771758_1724266591794383770_o-003

Na edição da primavera eu encontrei essa obra, não tirei foto, o que foi um erro.   Pesquei essa imagem com bem poucos pixels do site da firma de leilão. A obra remete qualquer olhar a ideia de prostíbulo, de inferninho do século XIX, mesmo que as protagonistas não se mostrassem apenas com suas roupas íntimas. Isso não é uma pintura impressionista francesa. Isso é uma outra coisa, um estudo contemporâneo da sociedade. Tal como o Debret fez do Rio de Janeira por volta de 1810/20. Na Noruega havia na sua maioria dinamarqueses que pintavam essas cenas desconhecidas das classes abastadas, fazendo um papel de fotógrafo jornalístico.

Mas diferente da foto que classicamente congela um momento gravando num papel, uma pintura quando apresenta tantas observações ela é um conjunto de esboços. Pra alguém se dedicar1-1-10603982_859180470771758_1724266591794383770_o a esse trabalho é porquê a cena se repete com muita facilidade ou porque ocorreu algo exatamente descrito pela imagem. Relatos podem ter sido caçados através de fofocas pelas ruas. “Senti” que o episódio tema central da obra pode ter sido aquela gota d’água que sobrava para neguinho se coçar, ou seja, deve ter influenciado rever algumas leis. Se isso realmente ocorreu como descrevo, deve ter material impresso. E também como: a pintura deve
ter sido encomendado para alguma publicação.

A pintura em si é muito pequena, limitada em sua superfície, mas não se inibe em mostrar tantos personagens em uma única cena.Para começar, uma adolescente carrega uma criança de três anos no colo. Uma criança impaciente que quer dançar ou brincar. Não dorme infelizmente por causa da agitação reinante do local.

10603982_859180470771758_1724266591794383770_o-001Logo nossos olhares voltam para o  centro da imagem aonde 2 oficiais se exibem. Pelas suas posturas podemos supor a idade entre 30/40 anos. Há marcas no chão das voltas constantes das danças que se empenharam momentos anteriores.

As moças de pé são adolescentes entre 13 e 19 anos de idade. As mulheres sentadas seriam entre 20 até 30 anos de idade e a senhora na porta, beira os 60 anos. É como se todos estivessem em parceria e eles representam as suas idades e as idades são uma representação importante nesta sociedade.

Os olhares – todos em cena estão mirando algo – moldam melhor a personagem. A mulher de preto contempla o oficial mais charmoso, este olha sem medo para o futuro, sem vacilar em sua dança (não sabemos se, eventualmente, ele calha de tropeçar nele ou na menina ou morre numa guerra pouco depois desta noitada). A menina que dança com ele observa à si mesma, sabendo que lá na dança talvez fosse o seu momento mais feliz, se concentrando apenas nessa ação. O outro casal em pé espia a porta que se abre e o músico vê o casal de um maneira assustada.10603982_859180470771758_1724266591794383770_o

Este quarto tem as mesmas proporções da minha sala de estar. Acho que a minha casa é muito convencional. Esta foi concebida quase com os mesmos padrões destas casas nas baixas¹. Contudo essas construções do século XIX eram mais fechadas evitando correntes de vento. Esta sala, por exemplo, tem uma janela e uma porta confinando os usuários. Também se pensava que a estrutura da casa era assegurada pelas paredes, não há necessidades delas para se manter uma casa, os pilares tomam conta do recado. A velha senhora abre a porta saindo do lado obscuro, o oficial mantém tanto a mena31b1d0135b8372e8747941386de9f10ina e o casaco, suas posses, em completo equilíbrio. A menina com as mãos livres, movimenta uma como receosa do próximo passo que iria dar e com o outro envia um sinal de espera para o músico.

O músico está muito moreno e acredito que ele é o mais velho entre o homens desse recinto, pra mais de 40 anos de idade. Ele não é um oficial ou um soldado. Ele está prestes a parar de tocar o acordeom. Ele esta malocado no fundo da sala onde casacos e espadas dos oficiais presentes aguardam um novo destino. Um menino perdido em boas roupas satisfaz a sua curiosidade infantil com o material militar. Esse músico é um enjeitado cigano ou um judeu ou um mix dos 2, que nem o próprio artista dessa obra fez questão de  saber qual era o verdadeiro perfil do sujeito.


O vestido negro da moca que acompanha o casal na mesa está dentro da moda vigente do final da década de 1870.
Todas os outras mulheres estão com vestimentas pra se proteger do frio e encapar seu sexo, é a indumentária das camponesas, muitas vinham tentar a sorte nos centros. As prostitutas e muitas mulheres pobres que haviam perdido seus empregos em casas de famílias, geralmente usavam vestidos usados de mulheres em luto.

4ad258869b59f5d9718d8f81443a40dfEm qualquer pirâmide social no mundo, as mulheres irão viver mais que os homens. De vez em quando havia guerra e no século XIX tinha o tempo todo.  A igreja, olha ela aqui de novo, achou de criar que o luto da viúva deveria ser de 7 anos pra evitar talvez assassinatos e logo confabularem novos casamentos o que dava trabalho dobrado para os padres. Passou-se a desrespeitar facilmente essa onda de manter o luto com as grandes guerras mundiais caindo de vez 1968 esse negócio de usar a vestimenta negra pra se esconder da vida. Quando voce tem que mostrar o luto durante 7 anos se acaba optando por ter vários vestidos negros. Sem sexo naturalmente seu apetite vai aumentar por doces, perdendo mais facilmente os vestidos razoavelmente novos. Essas vestimentas bem confeccionadas não eram usadas com o mesmo propósito pela classe mais carente, eram vestidos quando as mulheres necessitavam de se apresentar da melhor maneira possível dentro das suas dinâmicas.

Uma delas foi a Dark Annie, a segunda vítima do Jack, o estripador. Essa senhora de quase 50 anos, vivia na falência, doente, deprimida e sem ofício, foi sempre vista usando um vestido negro e acabou sendo apelidada “Annie Negra”. Todavia suas meias eram coloridas e confeccionadas por ela própria. Não apenas ela mas outras prostituídas de 1888 em Londres foram estudadas em decorrência do mito do Jack e apresentam as mesmas características de usar um vestidos de luto dado ou roubado de antigos patrões.


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“Albertine em custódia” de Christian Krogh, 1888. Essa pintura está pra cidade de Oslo assim como hino do Flamengo está pra o Rio de Janeiro.
Fechando essa crônica baseada nessa pintura de 1876 adiciono um resumo do texto de “A história de 2 Conhecidas Mocas da noite”. Sobre Prostituição em Christiania (Oslo) na década de 1790 de Johanne Bergkvist, Mestrado em História e consultora do arquivo Municipal, 2012 UIO (Universidade de Oslo)

 Uma mudança legal

A prostituição no século XVIII era um delito grave perante a Lei norueguesa de 1687, foi substituída em 1842. Ambos homens e mulheres encontrados em bordéis eram punidos. Os homens eram enviados à prisão e as mulheres acoitadas ou confinadas nas spinnhus (casa de rocas). A cafetinagem era punida com acoite, banimento ou confinamento. (…)

christiania sett fra ekebergA Polícia de Christiania em 1745(…) apresentava relatórios dos mandatos para investigação nas Infamous Huus (bordéis), cafetões, rufiões e Infamous Qvindfolk (mulherio de má fama). (…) As prostitutas eram geralmente acusadas e condenados por vadiagem e alegações de promiscuidade (…). Nos anos de 1790 a 1802, 163 mulheres foram acusadas e interrogados pela polícia Christiania, o que constituía 74% de todo o material do arquivo nesse do período. Apesar que as condenações diminuíram drasticamente nessa época. O cárcere era com trabalhos forcados.

Os casos são difíceis de serem interpretados, as audições policiais eram muito mal feitas. A própria palavra prostituição não está em uso (…) A transação monetária é apresentada nos interrogatórios quando as próprias mulheres explicam como ganhavam a vida. Existindo uma certa armadilha para categorizar essas acusações como prostituição (…).

Jovem e errante

Elen Olesdotter foi acusada de vadiagem e promiscuidade pela primeira vez em 1793, quando ela e outra garota foram presas por um guarda numa sexta-feira de julho. “Elen tem 19 anos (…), admitiu ter sido presa por roubo em Bogstad (…). Alega que suas circunstâncias estão difíceis e se sente obrigada a trottoir²”.

Lamenta a detenção, (…)” A polícia deteve em cárcere ambas e posteriormente as conduziu a um serviço provido por “esposas d’alguém” para arranjar trabalho. Caso contrário, elas seriam enviadas ao tukthusstra (Penitenciária). No entanto, não demorou muito para que Elen novamente fosse interrogada na delegacia.  Elen alegou dessa vez que o serviço provido por a esposa d’alguém estava fora de cogitação para ela, já que havia sido condenada previamente. No mês seguinte Elen foi interrogada juntamente com sua irmã mais nova Anne Magrethe. Elas foram acusadas de permanecer pelas ruas até às dez horas da noite. Receberam um mandato judicial para ficar longe das ruas e procurar trabalho na cidade ou se auto confinar na spinnhus.

Elen foi presa novamente em março 1794 em conjunto com outras mocas (…) reiterou a sua explicação anterior sobre o porquê de não se empregar, (…). Na Legislação dos pobres no século das luzes, a vadiagem é definida como uma falta de serviço real e territorial. Havia poucas oportunidades de fontes de renda independentes legitimadas para jovens solteiras. Parte da sociedade era preservada a fim de se casar e mais tarde viuvar, enquanto todas as outras mulheres com idade empregáveis de 12 a 48 anos imploravam por uma oferta de trabalho, se sujeitando a escravidão ou prostituição.

Apesar das acusações de promiscuidade em interrogatórios, as leis não criticavam exatamente o coito. A detenção tinha o intuito de difamar o desempregado, reprimir o ócio. A regulamentação da prostituição estava no cerne da mudança ideológica criada com o Iluminismo.

Houve uma onda de reformas (…), antes um grande número de pessoas eram condenadas à prisão por “roubo” se safando da pena de morte.  As condenações passaram por um revisão, se entendia pela primeira vez que aquilo era fruto da falta de emprego.

As irmãs Elen e Anne Magrethe são o protótipo do desajuste social dessa época, são solteiras e empregáveis contudo achavam dificuldades em manter qualquer ofício. Participaram até de alguns, mas logo abandonados antes do contrato terminar, indicação forte que as condições que estavam submetidas eram mais injuriantes que se prostituir ao léu.

Elen foi detida novamente em novembro de 1795, trotuava longe das ruas do centro, se fixou em lugares ermos como no cemitério. Esse caso foi encaminhado diretamente o Tribunal de Christiania (Oslo). (…)


Acho impressionate ainda por em pauta esse tipo de assunto. Perde-se tempo com um regresso de mais de 200 anos. De nada tem haver com a sexualidade como a professora se referiu, é só um meio de legalizar o trabalho escravo.


Uma homenagem a Galina Sandeva, uma búlgara e profissional do sexo, assassinada brutalmente em Oslo as vésperas do Natal de 2015. Ela é a Elen na atualidade.


  1. parte de maior comercio dos bairros, centrinhos
  2. passear em frances, “rodar a bolsinha”

 

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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