As mortes


Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

“O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna.

Sempre me causou arrepios pela beleza, por tudo que encontro nessas linhas.


A vida é curta demais pra não ler livros, não se apaixonar, não cair de tbum no mar e não pular de cabeça numa coisa que voce realmente goste de fazer.

Por 2 vezes na minha vida eu vi claramente o cara segurando uma foice com aquele hábito preto desgastado. Nessa época eu já amava os Beatles de paixão e sabia que qualquer música que eu fosse ouvir na vida seria algo do tipo que foi influenciada por essa banda ou foi influencia pra eles, mas nessa mesma determinada data eu ainda não havia descoberto o Ronca Ronca por exemplo, e ainda, me sentia dotada de uma enorme facilidade de trocar ideias com meninos e evitava formar amizades estreitas com meninas; parecia um caos insolúvel lidar com pessoas programadas pra não levar seus sentimentos com clareza. Eu era cegamente atraída por qualquer coisa que se assimilasse a norma de beleza masculina vigente do final dos anos 70 e ínicio dos 80, qualquer coisa que fosse tipo um Nelson Piquet ou um Jonny Ramone, isso era o meu ideal masculino para toda a eternidade, que também apareciam numa série de cartoons japoneses e americanos transmitidos justamente por volta de 1980 na tv.

Mas falar sobre a minha sexualidade vai ficar para um outro post. Pois a morte esteve mais presente no meu dia a dia do que qualquer outro tema. Isso te assusta?

Vá pra o funda da piscina e voltará sem medo algum. O Ceifador, você já deve ter visto a figura e talvez nao ligue o nome a pessoa, conhecido internacionalmente como “The Grim Reaper” personifica a Morte, entidade. É também bem reconhecido tal como os fantasmas, bruxas, santos & anjos; e o mais engraçado é que ela seria o intercâmbio dessas 4 mais populares citadas. O Grim Reaper é um despachante cujo o trabalho é conduzir as almas dos mortos. Ele é frequentemente retratado como uma figura esquelética & alta, envolta numa capa preta com capuz empunhando uma foice que ele usa para colher almas.  Ele aparentemente desliza ao invés de caminhar, fica calado mas sempre vigilante.

Quando ele recebe a alma de alguém na ocasião de uma morte ele deixa de recibo uma pedra. O que me faz lembrar uma tradição judia ao visitar enterros e cemitérios os judeus deixam pedras ao lado dos epitáfios ao invés de flores.

Muitas pessoas tem como lógica nessa mitologia ocidental que o Ceifador é visto antes da pessoa morrer, lembrado por Dave, the punky one em 25 agosto de 2006. Justamente nesse conceito é que vitaliza a crença da coisa toda. Se ele só fosse visto depois de alguém morrer não haveria ninguém pra contar da existência do Ceifador, pois ninguém volta depois de morto. Esse pequeníssimo intervalo entre a vida e a morte que chega o Ceifador alguém teve a brilhantíssima idéia de descrever a presença de sublime entidade no recinto quando estava prestes a morrer… Não, essa criatura é sem dúvida uma criação típica da literatura do Romântico e do Eclético que são por sua vez baseadas em estórias antigas e góticas.

O Ceifador foi um monge que eu gostaria muito de saber que estória teve. Depois de enterrado com o seu uniforme eclesiástico que de velho ficou negro vem dar uma de guia até essa outra dimensão que ninguém sabe realmente como é que é.


Eu tinha 8 anos e estava brincando na piscina, eu amava piscinas. Eu brincava com um menino que eu conhecia bem. Sem lado de parentesco e com os anos ele desapareceu da minha vida mas poderia ter sido meu assassino! Nesse mesmo tempo que ele sumia da minha convivência, sumiria também a lembrança que um dia ele matou sua própria amiga de infância e nada mudaria na sua vida, inclusive ser um advogado um dia.

Ele me empurrou para o fundo da piscina e com facilidade dificultava eu respirar. Em questão de segundos o desespero tomou conta da situação, eu gritava “pai”, emiti essa palavra apenas 3 vezes. Na última, eu acho que fui embora do meu corpo e tive uma das mais importantes experiências da minha existência, vi em 1 segundo toda a minha vida passar e acordei no jardim nos bracos do meu pai que havia mergulhado e me salvado. Ele estava do outro lado da casa, no churrasco que acontecia no quintal, a piscina se localizava na entrada. Não havia maneira dele ter me ouvido a não ser que a Pri, tivesse alertado-o da errata do dia.

Antes de eu ter sido tragada pelo fundo da piscina eu já havia posto ao garoto para não ser um inconveniente, mas não adiantou. Num acontecimento anterior ele havia feito a mesmíssima brincadeira com a Pri, sua irma menor e da mesma forma que eu fui salva pelo meu pai, meu pai salvou a garotinha do afogamento. Nunca se sabe como se dá normas e conceitos na casa de estranhos e mesmo conhecidos, ele era um garoto gordinho e o pai dele esperava ter um machinho-fortinho como filho que saísse como esperto em qualquer situação…

Essa experiência de ter contato com o Ceifador é realmente incrível e nao daria pra dizer pra alguém ao seu lado no local de quase uma fatalidade o que aconteceu. Sao lembranças muito, muito fortes, das piores e melhores do seu arquivo cerebral. Uma vez um anuncio brasileiro de um produto para o mercado masculino ousou veicular um filminho aonde um cara choque-bacana tinha sua vida passada em 1 segundo. Achei que tipo uns 90% da população brasileira nunca iriam entender. Na memória da personagem o cara se vestia de mulher no carnaval mais outras coisas maneiras que não me lembro mais. 

Pois é, no meu outro rendezvous com o Ceifador eu vi o meu afogamento.  O edifício que eu morava tinha apenas 4 anos e resolveram fazer uns acabamentos no playground no meio das férias de inverno. Ficamos com metade da garagem 2 como área de lazer. Logo depois do pequeno almoço fiquei a esperar meus vizinhos descerem, levei um livro e fiquei lendo no para-peito da garagem. As vezes me distraia da leitura com a brisa e a  árvore de flores cor de rosa que crescia na vila ao lado. Do nada, da escura nave da garagem sem som, sem sentido, sem vibração chega uma menina de patins e por questão de frações de segundos a minha mao se posiciona no parapeito evitando eu cair 2 andares de altura. Ao retomar o fôlego novamente ou estabilizar a engrenagem do meu corpo, notei que já havia um mucado de gente naquele nicho que eu havia escolhido pra usarmos. Aprontado-me para sair dali uma menina me interpela da seguinte maneira:

 – Flavia, voce viu um fantasma? Voce está branca.

– Sim, eu vi. – Ver sua vida passar em 1 segundo soa como se fosse uma pergunta assim: “voce quer mesmo acabar com isso agora?”.

Desafio qualquer um a concorrer com o seu próprio cérebro ao invés de 1 segundo, 10 dias para formularem em pequenas frases ou em fotos qual foram seus reais e mais extraordinárias memórias que marcaram suas vidas.


Tentando me concentrar talvez no meu texto mais chegando-a-maturidade, li perdido um texto coracao-aberto e creio melhor fechar essa crônica com o órgão de terceiros numa obra a 4 maos.

por Rodrigo Ciríaco

DO LUTO À LUTA

(…) Meu irmão Willian se matou. Aconteceu na manhã do sábado do dia 05 de dezembro de 2015. Eram cinco da manhã. Meu irmão se levantou, arrumou sua cama, guardou seu cobertor, limpou o cinzeiro. Organizou o quarto, abriu a janela e pulou do nono andar, (…). Deixou três filhos, parentes e amigos.

Quero confessar que eu também sofro depressão. (…) Foram tempos de muitas crises dolorosas e profundas que fizeram me colocar diante de situações extremas como atentar contra a minha própria vida. (…) Assim percebo esse problema que quem sofre não quer morrer, quer  é  acabar com o sofrimento.

O fio que me sustentava e não permitia que eu fizesse o que íntima e profundamente queria, foi o amor pela minha mãe. Não desejo que ela sofra também. Não desejo inverter a suposta “ordem natural” das coisas, os filhos enterram os pais. Meus pais sempre nos deram atenção, carinho & amor. Este amor me possibilita estar aqui hoje.

(…) a depressão é um câncer d’alma. Silencioso. Pode te conduzir a morte sem que perceba. Só que diferente do câncer propriamente dito, é visto ainda como uma frescura por parte dos que estão fora do contato da doença e a quem sofre da mesma, como uma vergonha. A depressão roubou importante anos de minha vida, só não me levou por uma força ou uma covardia. (…).

“Depressão é doença de rico”, é mentira. Todos sofrem. Não importa idade, gênero, condição social, religião. (…) Só quem não pode pagar, não se trata. Apesar das minhas limitações financeiras, coloquei uma questão: quanto vale a minha vida? Minha vida tem valor e não preço. 11046320_10153799815864371_6453578138014026791_n

(…) Quase desisti, desencanei. Pensei que “daria conta sozinho”. Já há treze anos que sofria e estava claro que não dava conta. Tempos difíceis. Metade do meu salario como professor ia no meu tratamento.

Vou dar um tanque de roupa pra lavar que acaba com isso rapidinho.
– Seu problema é falta de sexo.
– Você precisa visitar um asilo, um hospital com crianças com câncer pra ver o que é sofrimento.

(…) Estima-se que 120 milhões de pessoas em todo o mundo estejam afetadas com a depressão atualmente. O Brasil é reconhecido com o país com a maior prevalência da doença, 10,8% da população apresentando esse distúrbio. As mulheres são as que mais sofrem com o mal, tem duas vezes mais chances de desenvolver o problema do que os homens.

Nunca compare estar deprimido com ser depressivo. A tristeza, a melancolia, a angústia fazem parte da vida. Todos temos, sentimos, sofremos. Mas nunca compare estes sentimentos com o que um depressivo sente. Pois ser triste, angustiado, ansioso, não ter ânimo, vontade para fazer as coisas, é normal. O que não é normal é sentir isso 24 horas. Por dias seguidos. Semanas, meses, anos seguidos. O que não é normal é acordar com uma bola de ferro amarrada ao seu pescoço, pendulando por dentro do seu peito como se fosse a marca de um castigo. Uma bola de ferro tão amarga, grande e pesada que te impede muitas vezes de levantar da cama. Te incapacita pois te tira do seu trabalho, te afasta do convívio social e te faz se sentir culpado, por achar que é o responsável por tê-la colocado ali.

– Poxa, já tem tanta coisa errada no mundo e você vai amarrar um peso desse no seu peito.

Essa bola de ferro é uma doença. Você já escolheu ficar doente alguma vez? Eu não. Meu nome é Rodrigo Ciríaco. Eu tenho depressão. Sou impotente perante o meu problema e faço tratamento. Perdi um irmão para este problema. A partir de hoje não vou mais fingir que ele não existe. Não terei mais vergonha, visto minha armadura, levanto minha bandeira, pego a minha espada e escudo e lanço-me a guerra contra o preconceito e a estigmatizacão. Contra a falta de apoio e de políticas públicas para pessoas que sofrem com o problema. (…)

P.S: o depoimento é público. Fiquem a vontade para compartilhar se assim quiserem.

Via Marcos Bassini


O Ceifador nao deixou nenhuma maldição, pelo contrário, uma benção. Eu compartilho desse gosto amargo que não encontro remédio para cura. Empurro com a barriga dias piores… mas ouvi falar que os dias melhores são realmente bem melhores pra nós.12249661_1005133099530490_1680212515673905185_n


PS: Nos últimos 10 anos na Noruega 40 crianças morreram por afogamento apenas nos meses de verão, 18 pessoas morrem afogadas n Brasil por dia. Veja esse site brasileiro sobre o tema.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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