A orelhinha azul


Sinto-me aterrada de informação. Vejo que aqueles que estão a par da prática da meditação estão anos luz na minha frente.


A minha mae costumava dormir no meu colo enquanto eu via tv, o meu marido faz o mesmo. Ficava fazendo xodó na cabecinha dela e as vezes usava um artefato qualquer. Uma vez eu usava uma caneta Bic tampada e brincava com o seu cabelo liso. Ela de súbito acorda enfurecida e diz para eu nem pensar em pintar a orelha dela que no dia seguinte ela teria uma reunião importante na escola que o Gustavo havia se inscrito. Eu não estava pensando em nada… a programação não ajudava.

Ela acordou, tomou seu banho rápido e não sentou para tomar café, como de costume. Se encostou no elevador ao descer porque ainda é muito sedo, deve ter também se encostado na janela escura do metrô e no trabalho ficou presa no seu ambiente escrevendo, organizando, arquivando… Os diretores que passaram por ela, estavam apenas ao alcance de um de seus lados ou a monitoravam através do telefone. Na hora do almoço, ela se dirigiu à Botafogo de metrô e conversou por 30 minutos com a vice-reitora. Nessa reunião acertaram os ponteiros, pois o ano letivo já estava em curso a um mês e agendaram a iniciação do Gustavo as aulas já na segunda que viria. O professor de historia garantira uma boa aquisição a instituição, ele nos conhecia pois foi colega do Banerj do meu pai.

Com muita fome ela voltou a rua Senador Dantas, lá ela resumiria seu dia no restaurante mais popular entre outros funcionários do BB daquele ano de 1992. Sem muitos problemas sentou junto com uma colega que encontrou na porta do mesmo. Logo a moca perguntou depois de tê-la ouvido sem muita frescura:

– Marcília, voce esta fazendo promessa ou é algum remédio na seu furo de orelha? Porque está tao azul a sua orelhinha?

– Desgraçada dessa minha filha, vou ali no banheiro limpar…


Hoje tem lanche num atelier que acontece uma vez por mês, quero dizer o lanche não o atelier. Sao 100 pila pra comer sanduíche vegetariano com outros ligados a vida cultural e artística de Stavanger. Qualquer outra idéia sai mais salgada. Nos últimos 10 anos a minha alternativa mais popular era o supermercado que n12273677_895212357241168_82457487760741603_oão oferece lugar pra sentar. Convertia a ideia da seguinte maneira, compro uma fruta e um croissant e tomo um café depois num cafeteria agradável.

Numa dessas vezes encontrei um camarada norte americano amigo que eu conhecia. O cara é músico e engenheiro de som, algo que o valha.  Estava ele com uma menina na chocolateria. Numa mesa ao lado sentava um moco norueguês, eles todos conversavam, sentei na terceira mesa vaga sozinha e o sujeito passou a conversar comigo, já que eu conhecia o norte americano bem.

Ao descobrir que eu era brasileira, para se aproximar, ser gentil veio me dar alguns pêsames de uma tragédia ocorrida no Pará, que reportaram aqui na Noruega. A tragédia foi triste pois é uma tragédia, o prefeito pedira ajuda a união 12274482_1077793382240891_8516052518268773992_ne etc… Mas depois disso vieram tragédias esquecidas e bem piores mais próximas ao Rio e Sao Paulo, nunca expostas na mídia norueguesa, inclusive essa da lama tóxica que chega as praias do ES nesse final de semana.

Aí o cara iniciou outra pauta, lá pelas tantas decidi eu fazer as perguntas. O maluco respondia bem até ter entrado em completo branco. Novembro, ele não conseguia se lembrar o nome do mês, que é igual praticamente em várias línguas.

Eu virei os olhos para o John achando que algo estava errado com a frase no vácuo. Ele disfarçou como se fosse a coisa mais comum do mundo. Que situação e já estava longo esse meu lanche e fui embora, nunca mais vi esse sujeito.

A raiz desse problema era possivelmente a bebida que esse norueguês deve ter entornado na noite anterior, que o deixava ausente do trabalho e com um tempo para si naquela sexta-feira. O John já com as garras pra fora no intuito de galhofar e um sorriso escancarado mais atento ao nosso lado do que a moca empoleirada no seu ombro, ficou meio decepcionado ao me ver ir. Pensei que não era hora para isso, mas se fosse de noite acho que NAO perdoaria esse moco.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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