A obra do Jung é jugend


“Until you make the unconscious conscious, it will direct your life and you will call it fate.” Karl Jung.

“Enquanto voce fizer do inconciente o consciente,  isso vai direcionar sua vida e voce chamará isso de uma fatalidade.” É impressionante, mas é.

Meu pai tinha um disquinho azul com o singelo título: “Os maiores pensadores do século XX”. Ali o Jung dividia um espaço na arte serigráfica com o Papa Joao XXIII, Bob Kennedy & Geisel. Essa capa instigava a minha imaginação no entanto eu não tinha idéia de quem eram, apenas estava convicta de que não eram brasileiros. Para o meu espanto supremo, meu pai me parou um dia e apontou para o ex-presidente, eu tinha 6 anos de idade. Esse disco que me chamava a atenção artisticamente, era único na nossa discoteca sem o propósito da emissão de músicas!

O compacto acabou vindo com a mudança para Tijuca. Depois de alguns anos sendo ativa ouvinte do Ronca Ronca¹(o programa da gente) fui correr atrás dessa peca rara. Eu certamente nunca parei para ouví-lo, porém reli, analisei a capa de 2 cores impressa sobre o papel fino azul. Esta era de uma estética peculiar, muito triste. Infelizmente perdi o maldito e não fiz as minhas vinhetas².mauval-1

O C. G. Jung nessa capa do compacto me dava medo. Hoje eu entendo que a arte serigráfica não fez jus aos seus melhores contornos. Já o Michael Fassbender fez tudo. Este ator britânico representou o Carl Gustav Jung na medida certa.

jugend.256x344Esse psicanalista surgiu na minha vida muito antes de eu me dar conta do estilo Jugend. A príncipio uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em suma, são só sobrenomes provenientes da mesma area europeia. As idéias de Jung são do final da década 1900 e inicio de 1910. O estilo de arte surgiu na Austria uma década antes dos trabalhos consagrados desse médico suíço.

Com a cara do Jung assombrando a minha infância volta e meia quando me deparava com esta foto icônica do cara, acabava por ler e por conseguinte assimilar suas ideias, suas perspectivas. O porquê é que ele estava ali intrínseco desde muito cedo na minha vida.


Esses dias um conhecido meu da boêmia carioca apareceu depois de muito anos. O pai dele era um famoso pesquisador Argentino sediado na Cidade Maravilhosa. Agora ele se encontra em Copenhagen esticando mais dos seus estudos. Ele é como um grande achado para passar assuntos culturais em dia, entao dividi meu último acontecimento com ele:

(…) – Comentei do prédio ser um estilio tardio e ela nao entendeu. Fez questão de dizer que trabalhava ali no centro de arte.
– Foi o que ela pode dizer diante a sua observação, não?? – Esse meu camarada pediu por mais.

– Pois é, ao invés dela pedir mais informação sobre o que eu me referia, ficou pondo lenha em alguma tipo de papo estranho. Parecia que estava a beira de gritar: “vc não pode saber mais do que eu”! Eu deixei ela falando sozinha. E fui chegar na maior designer de objetos de porcelana de Stavanger e essa mulher veio atrás!
– Parada de maluco. E vc fez o quê?
– Eu fui disfarçadamente dando paços pra trás, vendo a exposição do projeto, os estudos e descolei outro vinhozinho. De repente a Turi, a designer-mito estava do meu lado novamente com uma outra amiga dela de Bergen. Aquela mulher chata estava sendo ignorada em outro canto da galeria. A Turi me apresentou a amiga e falamos sobre o livro que a diretora do centro de artes estaria escrevendo sobre ela. A descontraí sobre o caso, que aquilo era muito importante para Stavanger, que ela deveria falar das coisas que ela mais gosta, mais pertinentes na trajetória como designer. A velhinha e a amiga foram super simpáticas comigo, uma super vibe.

– Vinho, maravilha. – Encerramos o chat.

Essa coitada estoniana que trabalha como uma espécie de auxiliar no Centro de Arte Contemporânea é sem dúvida uma pessoa peculiar. O que se faz mais triste está longe de ser qualquer injúria física, pois nunca achei um empecilho alguém não carregar das melhores fachadas. Mas também ninguém se torna automaticamente sagaz e intelectualmente brilhante porque não tem um sorriso Colgate.  Que tipo de pessoa seria esta que escolhe clarear e anelar o cabelo parecendo uma ovelhinha-vovó?

Ela escolhia também promover uma discussão, provavelmente que tivesse lados fervorosos. Senti o cheiro da proposta e tirei meu time de campo. Ao soar Junged Linear um termo que estava aterrado sobre uma outra massa de informação conectada aos meus últimos anos me fez pular da cadeira. Essa era a carta do qual confirmava que todo o papo tinha o intuito de se auto promover e descaracterizar alguma coisa que eu seja ou tenha dito, por quê? Não sei solucionar esse mistério.

2cdaaab38bda0bbc5ccd559ecd40e043Nos textos de TSCHUDI MADSE, Stephan em “The Art Nouveau Style: A Comprehensive Guide with 264 Illustrations, o Jugend era uma revista alemã como muitos outros periódicos destinados a falar de arte na Belle Epoque. Os austríacos apresentaram certa obstinação em montar uma veia similar do Art Nouveau belga, Arts and Crafts britânico & a arte japonesa. Os germânicos viram que já estava mais que na hora fundir os aspectos artísticos d’Austria & Alemanha num movimento artístico único. Herman Obrist criou o Jugend-Linear, linhas derivadas de observações da natureza e a natureza era a energia condutora de todo o movimento no Japão, Franca & Reino Unido. Linear significa, sem cortes, a forma é continua.

De acordo com as tendências culturais, como língua, religião e gastronomia, a arquitetura norueguesa não ía ficar de fora das influencias germânicas. Eu já havia me referido sobre essa construção em outro texto, mas não havia focado que certa repetição, certa simetria, certa decadência/ascendência de escalas vistas nas janelas me fazem colocar o edifício fora do “Art nouveau”, no máximo o estilo tardio do Jugend abrindo total para o art decó. Pra qualquer norueguês tudo antigo é Jugend. Por que desde de muito cedo eles reconhecem o batismo de certo estilo arquitetônico como esse apenas.

O edifício em questão não foi idealizado pra a ser um objeto de uso fruto da aristocracia, ele é um produto direcionado ao proletariado. Suas linhas não vao refletir todo os aspectos elaboradíssimos do art nouveau, este estava avançado, economicamente ajustado. Ao qual renomados arquitetos e artistas criadoreKIF_0862s do novo conceito, o art decó logo se espelhariam nas tramas desses precursores marginais de estilos passés. Achando justamente a elegância no proleta . E sempre é assim nas oscilações tao marcantes de conceitos e novas edificações de movimentos de arte.


Voltando ao Jung depois de tanta da palavra. Ele via a teoria do inconsciente criada por Freud como incompleta e desnecessariamente negativa. Freud entendia o inconsciente apenas como um repositório de emoções reprimidas e desejos. Jung concordou com o modelo de Freud sobre o inconsciente, rebatizando de “Inconsciente pessoal”. Ele propôs a existência de uma segunda forma, mais profunda do inconsciente subjacente ao pessoal. Este foi nomeado como o “Inconsciente coletivo”, onde os arquétipos residiam. Freud achava que ele ia longe demais, ficando as críticas dos 2 lados elas por elas, contudo os dois se estimaram muito como amigos e colegas até maio de 1913.

Essa continuidade da obra da psicanálise pelo Jung é Jugend. É como ele chegasse a raíz dos problemas e a grande massa freudiana só chegam aos tubos. Nada mais jungend-linear que isso. Agora a colheita das raízes eu chamaria de Jung-Hardcore. Raízes são uma excelente fonte de nutrição, mas humanos que só vivem de raízes tiveram suas maos remodeladas pela constante escavacao a procura do produto.

Essas idéias realmente não nascem do nada, com a idade de doze anos, pouco antes do fim de seu primeiro ano no ginásio em Basileia, ele sofreu um acidente que eu consideraria brutal. Outros alunos no campus escolar bateram a cabeça do Carl Gustav no chão com tanta força que ele perdeu a consciência momentaneamente. Anos mais tarde o Jung atribuiu o incidente a si mesmo, era sua culpa indiretamente. Depois daquele capítulo na escola, sempre que ele tentava ir as aulas ou estudar alguma lição em casa, ele desmaiava! Chegaram a suspeitar de epilepsia. Ele acabou por se reter em casa por seis meses até um visitante camarada de seu pai levantar a questão de como ele iria sobreviver sem estudo no futuro; o próprio pai era um cara de poucos recursos. Entao ele tomou uma medida drástica (não sei se por medo, por falta de opcao ou por ódio) foi para o esquina da sala aonde se lia e estudava e se debruçou sobrem um livro de gramática latina. Desmaiou mais de três vezes, eventualmente, superou os sucumbes e não voltou a cair. Com essa série de eventos, Jung lembrava: “ali eu aprendi o que é uma neurose.”


¹) Um programa independente que era dirigido e apresentado por Maurício Valadares, dj e radialista desde dos anos 70. Mauricio recebeu os Sex Pistols no Rio de Janeiro em 1983. Ele fundia sem pudor todos os tipos de musica e marginalizava o que era o mais mainstream contemporâneo. Tocava muitas musicas brasileiras e britânicas de todas as eras e estilos. Sem dúvida seu maior legado seria uma mente aberta a novos conceitos musicais. Como ele conhecia muita gente e tinha uma enorme coleção de gravações em todas as mídias, recortava partes de musicas, como também parte de audios de entrevistas e teatros. Desses recortes rápidos ele criava as vinhetas (²).

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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