A classe média da idade média


Todos os casos que exponho aqui é pra ser de igual para igual, explico: não exponho no sentido de ensinar pois não estou a nenhum nível superior aos leitores que tento atrair, muito pelo contrário, estou expondo pra clarear as minha ideias, minha descobertas e quem sabe, retribuir e trocar algo com esses. “Esses” no lugar de leitores.

Tenho reparado, mesmo no meio acadêmico em volta do globo, que uns profissionais carregam curriculum vitae iguais antigos generais levavam suas medalhas em seus pesados paletós num baile a fim de dançar com a donzela-loira vigente.


Nos últimos 15 dias tenho me comportado, principalmente na cozinha, como se comportaria o monge encarregado desse ambiente no Claustro Utstein. A confecção dos alimentos, a busca por eles, enquanto eu uso a porcelana eles usavam uma tábua de madeira, o meu mixer num claustro qualquer medieval era apenas uma cuia de pedra com um soquete também de pedra. Os restos ao invés de ir direto para o bico de um bichinho do lado de fora da morada, vão agora pra uma espécie doméstica de R2D2.

O ambiente do condomínio aonde eu vivo reflecte um pouco de simetrias com a vida dos internos do Utstein. Somos 12 familias umas de frente para outras. Alguns com manias, outros extremamente profissionais, pessoas finas. Tem também a visibilidade do mar e dos fiordes. Uma vida acorrentada a profissão e as horas delimitadas de libertação para termos atenção com as nossas crias. Tudo isso me faz viajar no que como seria o dia a dia na micro sociedade desse claustro local. Um exercício de como “calcar os sapatos”. Venho por meio desta apresentar um ponto de vista que mesmo de longe tenta enfocar a percepção dos integrantes desse lugar.

Como eu não manjo do que acontece no trabalho de cada vizinho meu, me pego observando o retrato do meu sogro que foi chefe de cozinha a sua vida inteira. Uma vez eu o perguntei como ele se tornou chefe de cozinha.

O pai do melhor amigo dele era o encarregado da distribuição de mantimentos em cantinas de repartições governamentais aqui de Stavanger. Na virada da década de 1940 para 50 esse “tio” em afinidade dele tinha um carro de fazer inveja a vizinhança deles. O meu sogro entendia que veículos auto motores eram um selo de aprovação social-economico que garante que a pessoa dona de um desses é uma pessoa assente e engrenada na vida. O que indiretamente significa para qualquer jovenzinho que o cara tem uma dona e isso é bastante pertinente. Diversas outras ocasiões da juventude do meu sogro incluem veículos automotores como um coadjuvante cáustico na passagem. O Arne se tornou cozinheiro com 18 anos e se aprofundou em cursos posteriores de administração e contabilidade como cozinheiro. Ele sempre teve carro como queria.

Um monge associado a uma abadia deveria ser algo do tipo, um cara sucedido numa linha profissional da qual aumentaria o valor social do espaço que ele pertencia. O equilíbrio entre cada função era essencial. Mas o que era pertinente naqueles dias, sem carro, nem mulé? Apenas a lisonja de num futuro o noviço vir a ser o abade superior ou o bispo no burgo mais próximo?

No caso de Stavanger, como aqui foi um bispado do ano 1200 a 1900 (a grosso modo, mas foi!), o bispo era também o governador dessa província. Infelizmente esses bispos faziam o que davam na telha deles.  Todo e qualquer poder deve ser muito bem limitado. Tao repetidamente em livros de história poe-se 1000 anos numa única conduta de impotência quanto aos preceitos dogmáticos do cristianismo. Os votos do sacerdócio eram impostos e um deles era a falta de mobilidade quando meninos e homens se filiavam a qualquer ordem. Um claustro era uma sociedade fechada que protege a si mesmo, é construída por todos juntos, diminuindo o monge como pessoa, ele não é uma questão particular, ele é um membro do grupo (mais um tijolo na parede). Sozinho aquele o homem está abaixo da linha social alcançada por esta sociedade clériga. Qualquer grupo clérigo equivale a um senhor feudal, um senhor feudal era um membro da família do rei e reis eram descendentes diretos do Senhor Jesus Cristo ou Deus, uma coisa imbecil assim.

Com um bom número de hectares o claustro Utstein se manteve muito bem durante esse regime, mas foi algumas vezes interditado por ser alvo de pilhagem & depredação. Uma delas a mando do bispo de Stavanger, um cara muito mau. Esse maluco chamado Eirik fora, como muito abades por séculos a fio no claustro, aluno da Abadia de São Victor em Paris, um lugar bastante renomado.

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“ro deg ned” siginifica “reme-se fundo” e por acaso também significa acalma-se.

Muita coisa era confiscada em Stavanger ou em Bergen antes de chegar ao Utstein. Se perdia muito fácil na Idade média. Achar um lugar desses realmente só com reza forte, sair da Noruega era uma obra que beirava a impossibilidade. O vento frio, as longas noites muito escuras, não dá pra te dizer meu amigo tupi-tropical, se são fenômenos naturais ou catástrofes regidas por um Deus sádico.

Mesmo num claustro os frades tinham que se manter com algum ganha-pão. Podia ser a produção de ervas. Porém ficar a depender do sol não ía rolar muito bem em terras nórdicas; com os carneirinhos rola até hoje bem,-obrigada.

monksmushroosChegando agora o outono, que esse ano tão maravilhosamente o sol brilha radiante no céu, as minhas rosas pipocam no canteiro delas. Não muito longe da data de hoje posso imaginar que em outros canteiros pelo bairro a fora irão pipocar os cogumelos. O que fazer com eles? Imagino que mistérios como esses deviam tirar o sono e bastante dinheiro dessas pequenas organizações medievais. Quanto maior, mais populosa e antiga, provavelmente mais detentora de sigilosas respostas a conflitos comuns do homem. Da receita de fazer nanquim ou curtir o couro à cura por algum tipo de mazela, etc… Na corrida para se passar essas informações pra dentro da irmandade, como os irmãos faziam? Eles vendiam o corpo deles? No caso do Utstein eles vendiam seus carneirinhos suculentos.S Benedetto Monaci a tavola

Se vocês perceberam bem nas últimas linhas do meu texto anterior, eu não menciono medicina, apenas de uma forma indireta, a nutrição. Nos claustros, mosteiros & abadias por toda a Europa a medicina e química eram encaradas de formas diferentes. Na grande maioria, eu acredito (não procuro afirmar nada porque acho presunçoso de montão), era terminantemente proibido exercer ou estudar ciência, fisiologia era sinônimo de encrenca. Abriam a porteira para a botânica florear; ela seria usada como uma medicina paliativa e na melhor das possibilidades: preventiva.


A fachada do Claustro que dá para o pier do edifício conserva muito mal 4 grandes canteiros de ervas.
Em várias pinturas toscas feitas pelos residentes e amigos dos fidalgos nos séculos que a família Garmann morou no local mostra os canteiros apinhados de folhas mil: couve, alecrim, hortelã, morango & groselha. Na época dos monges não havia morango nem batata por aqui. Em tempo da confecção dessas pinturas amadoras, um renomado arquiteto de Stavanger foi contratado para limpar o edifício da infestação de ratos. A parede que divide a nave da igreja com o átrio do edifício foi em parte reerguida e toda a estrutura de madeira do átrio e circunvizinha a nave foi destruída.

Tudo bem que os ratos vinham acompanhados nas embarcações, nas caixas de encomendas e que o local ficou um tempo desabitado ou favelizado. Não deixemos de ignorar que era comum nos 4 cantos do planeta comer ratos e se bobear o claustro também fornecia os rattus norvegicus como iguaria 😛Trane-Ukloster

Naquela época não era fácil essa contenção de sabedoria, era uma guerra, muita gente morria dentro dos claustros. Um lugar que prima pelo silencio, partindo de princípios como: que aprisionando o homem faz dele um trabalhador burocrático de atividades burocráticas como ler, escrever, arquivar, estudar; e que “o homem silencioso e um pensador perturbador” (Stephen Hawkins), a frase é dele mas sim era um princípio popular monástico.  O mundo deu muitas voltas e muita coisa que estava presa com esse pessoal está acessível e de tão acessível parece que o homem está ofuscado com esse brilho, se cegando de bobeira.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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