Claustro Utstein


Aqui na Noruega quando voce está sem muita idéia pra fazer no final de semana voce acaba indubitavelmente indo passear no campo ou na floresta. As vezes tenta-se ir a praia, mesmo no inverno, porque é só usar a roupa adequada a temperatura. Essas são as ofertas que poupam o seu bolso, pois ficar de rolézinho no shopping ou mesmo na cidade vai de alguma maneira fisgar voce pelo seu lado fraco e acaba-se por abrir a mao e soltar a grana. O problema é que não é um troco pequeno como acontece no Brasil e ainda por cima o serviço é muito ruim.

Os noruegueses sao os que mais rejeitam esse tipo de estilo de vida, um tipo de povo que desconhece os serviçais & rolézinhos.

gamlingen_dag_01Num sábado findando o verão houve um show de despedida da piscina aberta de Stavanger que funcionou por 60 anos. Umas 10 bandas iriam tocar lá, bandas locais e desconhecidas. Ingressos por 225 coroas (96,57 reais cotação desse dia) por cabeça, sem isenção, sem desconto se voce é isso ou assado. No poster do evento também informava que era pra trazer lanche de casa pois não haveria cantina ou quiosque abertos.

Não teve jeito e a primeira idéia foi: visitar Rennesøy. O lugar é muito interessante, aberto, diferente, bucólico, perigoso, belo e fácil. Não é o meu ideal pra passar uma data comemorativa, mas foi legal.  Há muito tempo que eu gostaria de conhecer o lugar, aliás. Eu podia ver essa ilha do alto do meu outro apartamento em Rosenli. Uma grande falésia terminava o campo de visão das ilhas que margeiam o horizonte e de repente subindo o morro eu vi que estava sobre esse lugar mesmo. De lá via outro ângulo da Stavanger rasteira.

Haviam vários nichos por cima dessas falésias um ao lado do outro como se fosse um museu aonde várias câmaras dao um cenário novo na tentativa de mostrar os hábitos de uma determinada época. Na campanha do Sverre em guiar o dia e suas  atividades ficamos a mercê dele, quero dizer: a mercê de seus erros. Um cara que tem pouca ou nenhuma coordenação geográfica, talvez comum entre os taurinos e por falar nisso, esse primeiro nicho que a gx75291445ente chegou sob o comando do chefe estava ornamentado com vacas pretas, completamente pretas, mais altas que as conhecidas holandesas. O pastoreio era uma área médio-silvestre, o que aparentemente significou pra mim que os donos daquele rebanho tem menos responsabilidades com esses animais deixando essa parte enorme, floresta e campo para as Angus¹.

As vacas pararam de comer imediatamente com a nossa interferência, gostaria de pensar que era para com respeito com os humanos, mas acredito que a nossa visita inesperada ao local não fazia a menor harmonia coma a plasticidade reinante. Tudo mais como odor, emissões sonoras e a figura descompacta das cores diversas no nosso vestuário tirava o apetite dos bichos. Na verdade elas pareciam aqueles monges ortodoxos dos países eslavos ao se depararem com turistas e invasores culturais do ocidente.Førsvoll 2 - Rennesøy

Demos várias voltas e depois de um tempo, achei o verdadeiro lugar pra eu voltar lá um dia. Esse espaço que determinei ser o meu favorito na ilha de Rennes deve ter sido uma fazenda, um típico sítio norueguês como havia visto no Folke Museet em Bygdøy, Oslo. Algumas pedras e ruínas de uma construção aguçava a minha imaginação, como seria os seus moradores anteriores, como seria essa vida no campo.

DCF 1.0

Já dentro do carro promovi uma esticada do passeio já que a chuva ainda não havia chegado. Desviamos nosso caminho para direita em direção à Mosterøy, aonde se encontra um convento famoso local. Chegamos lá e com grande precisão a tempestade também. Não deu muito tempo para aproveitar ou passear entre as lápides, entao entrei dentro do objeto arquitetônico, aonde 4 pequenos blocos de pedra cobertas de cal se reunem formando um átrio no meio. Um edifício bastante comum em qualquer bom filme de terror pra ser o cenário principal da estória.

E assim como o Gamlingen, a clube aquático administrado pelo governo aonde ocorria os diversos concertos de rock nesse mesmo dia, o Utstein Kloster (Mosteiro da Pedra de fora) é também administrado pelo governo a 60 anos. Contudo a data de sua construcao remonta ao ano de 1260. Esse museu é o único mosteiro medieval preservado da Noruega.

Possivelmente apenas uma parte dessa construção que conhecemos hoje serviu como castelo do rei Harald Hårfagri na Idade Média, sendo que tudo sobre ele fora escrito 300 anos depois de sua morte. Há um poema que insinua essa informação da qual ele ha220px-Flateyjarbok_Haraldr_Halfdanvia morado por lá, mas o endereço principal desse rei estava a 350 km ao norte da ilha de Moster. O que me faz atribuir o local como se fosse um canto de retiro de férias, ou retiro espiritual ou ao contrario, base militar ou conversão de trabalhos específicos fora dos mexericos da corte.

Estou muito longe de ser qualquer unanimidade sobre história medieval norueguesa. O que eu tenho concluído é que a chegada do cristianismo nessa parte da Europa foi por volta dos anos 1200 e 1300 que coincidia com todas as revoltas de pequenos reinados e principados. Estes guerreavam entre si e seus vassalos e camponeses ficaram abertos à novos senhores dominantes. A Igreja Romana deve ter contribuído para que essas pequenas confusões e guerras perdurassem assim ela seria procurada apara apaziguar, salvar e o que mais fosse necessário para se firmar entre essa população. E esse casarão passa a ser um mosteiro agostiniano.

No site do Utstein Kloster expressa o seguinte sobre os capuchinhos do local:

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Frades Franciscanos. Gravura exposta na Real Biblioteca de Compenhagem

Eles tinham uma rigorosa disciplina de oração, leitura e feiras. O mosteiro trabalhava com apenas 12 monges, todavia existia também um número significativo de funcionários que se alternavam na produção agrícola, marcenaria e cozinha. A abadia era proprietária de terras consideráveis e tinha renda suficiente para alimentar 250 pessoas por ano.

Os frades deveriam administrar o mosteiro como um relógio funciona. Não acredito que exista algo arquivado dessa vida nessa abadia, porém há uma série de livros que falam sobre o assunto em ordens nos países como a Franca, Inglaterra, Italia e a própria Alemanha. Eu guardava um que afirmava que os monges no Mosteiro de Cluny só tomavam banho um vez por ano, no dia 25 de dezembro, como uma espécie de renovação. No livro e filme “O nome da Rosa” retrata muito bem isso, aonde um plural de corrupções em todas suas nuanças envenenava a raiz da instituição, requerer uma revolução era primordial pra restaurar a base falida.

Esses frades Agostinos eram peregrinos. O próprio St. Agostinho foi um dos grandes precursores da romaria no ocidente, que em forma de busca espiritual ou penitencia dava a idéia que todos os cristãos em alguma vez da vida deveriam experimentar ir de Roma à Terra Santa (Jerusalém), ou de algum outro santuário à Roma. Ou seja: viajar (!), nem que fosse apenas a pé (na verdade era preferencial). Os Peregrinos como confraria carregam o peró como seu símbolo maior,  são mais conhecidos por desembocarem em Santiago de Compostela vindos de locais como Lisboa, toda a Espanha, Roma, certos locais sacros da Franca & Cantebury. Eu de propósito levanto essa questão da particularidade da palavrinha em tupi, aonde peró significa concha. Contudo “peregrinos” vem da locução per agros, “pelos campos” em latim, ou no português claro: “mundo a fora“. O local que se encontra esse patrimônio, objeto dessa crônica tPeregrino2ambém está a beira de uma praia em forma de concha. Ser Peregrino é participar de uma instituição internacional aonde castelos ou casas que exibam uma concha em suas portas recebam os membros dessa confraria com pão e um lugar quente pra dormir.

Com a Reforma, logo esses frades foram postos pra fora ou forcados a assimilar a nova ordem. Bem, essas são as mais plausíveis justificativas que encontro. Eu não achei exatamente o quê aconteceu com os monges, só porque eles não se reproduzem entre si, não quer dizer que eles não substituam o faltoso por um outro. Ou que um dos vassalos agregados a eles (muita das vezes filhos bastardos deles ou da realeza) “mostre uma tendência especial”, uma aptidão aos estudos assim como eles requeriam, sobretudo quando a maioria (o populacho) era apenas programados para trabalhos braçais.

O Lutero criou a sua própria religião, o Luteranismo, pois estava as voltas em protestar contra a hierarquia romana dentro da Igreja e um monte de outras coisas que ele descordava, mas devia ter concordado antes. Ele era dessa ordem italiana de frades agostininianos que havia sido criada no século XIII. O Santo italiano viveu no século VI numa época que a Alemanha e Italia tinham um outro mapa, uma outra língua, bem diferente da época do Lutero o qual o Humberto Eco explora muito bem. Mesmo porque o romancista italiano é do norte da Italia, aonde na Idade média era território Germânico.

UtsteinKloster7-720x576É posto que esse conjunto de edifícios ficou desabitado um bom tempo, que pode-se ser lido como: também virou uma favelinha, pois pobre não conta em fatos históricos.


Na época das luzes o aristocrata Christopher Garmann se mudou para lá e redecorou o local ao seu gosto
e a moda de sua época, ao qual funcionou sobre o seu título até 1930! Com influencia desses barões e suas esposos e agora com a administração do conjunto de museu Must, eu ainda vejo o símbolo da concha em pequeninos detalhes nesse “castelo”, infelizmente pouco explorado como uma marca por organizações que divulgam ou usam o local para vender souvenirs.


1024px-utstein_kloster_01Pela proximidade com o mar, muito do que foi confeccionado em papel ou tecido com mais de 200 anos deve ter sido destruído. Os frades se encarregavam de 12 tarefas administrativas e profissionais ao qual o homem comum (e sobretudo as mulheres) estava impossibilitado de aprender para não se tornar mais hábil que os próprios padres e assim continuar dependente da Igreja e seus conselhos. Além da leitura e escrita, havia o desenho e a encadernação; a música; a confecção de artigos como jarros, roupas e instrumentos; a conservação de alimentos; a cadeira de direito dentro e fora da Abadia; a administração dos internos e camponeses; as relações exteriores & economia.Munk_I_Arbeid,_historie

Confabulo um monte de coisas quando começo a me enveredar por essas estórias locais mal contadas. Uma geração desses frades pode muito bem ter usado o ambiente e crescido economicamente, onde trouxeram para esse canto da terra o cultivo de certas hortaliças e a criação de ovelhas.  Mas daí, vem outras gerações que se acham serem o poder absoluto, serem a lei, serem indiscutíveis em seus modos. Lá pelas tantas a população se encontra traída, desgovernada, desobedecida, humilhada e se insurge contra esse pequeno poder. E o arraial se extingue.


¹) um raca de vacas pretas para criação extensiva aqui em Rogaland. Esse tipo de criação só foi a primeira viabilizada em 1959!

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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