Sonho semi-recente


A 5 dias atrás eu escrevi quase de imediato um sonho que eu tive. A descrição do sonho depois de textualizada vibrava estranhamente real – estranhei a coerência da cadência das cenas – podia ser uma espécie de ato da capitação da memória em prol do fundamentalismo de organização. Não contente com isso, as pequenas cenas tinham alto valor de verossimilhança, que irei analisá-las por um prisma, por hora o sonho:

Eu estava andando de encontro a um hospital/morro – parecia com um lugar no centro/Gamboa. Aliás parecia mesmo com as imediações do Cais do Valongo.

Obras do binário no Porto do Rio
Obras do binário no Porto do Rio

No meu caminho eu estava indo bem até que passou um mulato magro de seus vinte tanto anos que queria empurrar brochuras desses protestantes neo-pentecostais. Logo agradeci secamente a oferta e de volta o maluco foi descendo o calão muito mais abaixo as escavações do cais. Fui andando sem olhar pra trás mas devolvia a carta no mesmo peso.

Já passando por 2 anciões que trabalhavam na rua, com o mesmo tipo de fisionomia do jovem evangélico, me desculpei pelo palavreado. Os velhinhos bons entendedores que são, me perguntaram se eu estava com pressa, o maluco deveria voltar afinal ele era da área. Disseram-me que o jogo agora do Malafaia, a igreja que aquele moleque pertencia, está com esse tipo de abordagem, se vc rejeitar a palavra deles eles partem pra cima. Tem gente que eles até batem… assim falava os velhinhos. Um deles era estofador de cadeiras, aquelas de fazer trança e outro riscador de jogo do bicho.8961-1

Fiquei lá trabalhando com o estofador até o do jogo do bicho me chamar pra subir ao morro. Ele iria pra ao escritório levar as contas. O escritório se localizava numa escola municipal. A iluminação do local era precária, boa parte era natural que escoava do cobogós ou vaos abertos nas paredes. Uma sala me reteu por ser um armazém de coisas semi-novas, depositadas lá pra serem leiloadas numa determinada época. A maioria era itens de cozinha de marcas caras, mas havia livros e outras coisas. Cheguei a comprar alguma coisa antes com esse velhinho.

“Uma sala me reteu por ser um armazém de coisas semi-novas, depositadas lá pra serem leiloadas numa determinada época.” Começando pelo final. Nos últimos anos tem crescido o meu interesse pra o hábito e o estudo sobre objetos usados, o designe, o preço no mercado do material e etc… Existe incomparavelmente mais facilidade por esse tipo de esporte aqui na Noruega hoje. Boa parte da comunidade norueguesa tem emprego fixo e dinheiro sobrando, coincidentemente o mercado para objetos de uso diário ou decorativo; sejam: roupas, eletrodomésticos, arte, tecidos; estão mais em conta que no Brasil no momento e a qualidade é superior.

Por isso sempre que há um mercado, leilão, loja de antigos ou usados; hei de visitar. Passo um bom tempo observando e colhendo detalhes, ao findar, retorno com um livro ou um vaso feito à mao. De maneira geral, apesar de ter várias coisas que gostaria de ter, foco numa que eu esteja necessitando. O que mais me assusta é a presença de marcas caras em algumas da feiras menos populares. Quanto mais impopular é o lugar mais fácil de se obter um objeto de qualidade.

Não sei se é uma regra, mas tem acontecido assim comigo. O que eu preciso lembrar é fazer um estudo apurado sobre isso. Parece que vai ser a décima terceira missão de Hércules. Trazer bloquinho pra feira, desenhar/tirar foto o objeto, anotar o nome do designer e calcular ano e preço.


“(…) me perguntaram se eu estava com pressa, o maluco deveria voltar afinal ele era da área.” Nessa reconstituição do sonho, eu tive plena certeza que já ouvi isso de senhoras ou senhores típicos das ruas dessa minha cidade. Gente que até queria fazer melhor pelo local que mora, mas não sabe por onde começar. Eles são bastante intendidos da impotência que carregam, mas não deixam de dar o bizú quando podem, um salve todos. Um bizú que não irá ser um tiro no próprio pé, por que ainda que sejamos inteiramente impotentes, somos também uma massa que no mínimo tem que se manter em pé. Essa é a idéia, a idéia de união, sobrevivência & compaixão pelo próximo.

Em retribuição ofereci trabalho de graça que serviu como um workshop (!),Fiquei lá trabalhando com o estofador até o do jogo do bicho me chamar (…)” Eu gosto muito de participar, já estive um dezenas de workshops, isso está sendo considerado o legado dessa e da próxima década, ensinar e montar cursos dirigidos àqueles que tem tempo extra, que além do emprego querem dinamizar seus recursos, suas habilidades. No caso específico do trançador de cadeiras que vem se extinguindo por completo das ruas, completamente desvalorizado nos últimos 20 anos, ao contrário do que tem acontecido na Europa, em 2010 na Inglaterra cobrava-se 5 libras por hexágono trançado.

Entao, justamente, eu visitei o Valongo pela primeiríssima vez esse ano em julho. O lugar me fascinou, em todas as suas diretrizes, em todas as suas épocas. A primeira coisa que eu vi foi um curso de dança afro ao pé do cais. Nunca ali havia estado pelo fato que o bairro era considerado uma zona proibida, nada ali se associava a minha realidade de vida e seria de mau tom explorar o local a pé ou sem companhias locais. Mesmo assim tentei algumas vezes abstrair esse tipo de barreira e por os pés no local que eu tinha como um futuro para bons empreendimentos arquitetônicos, no qual trouxesse a classe abastada vir morar mais perto do centro como acontece nas Green Villages¹.

Bertichem_1856_cemiterio_ingleses_praia_gamboa
Ficava ao lado do cemitério dos Ingleses ao lado do bunker da companhia de distribuição de filmes.

Uma dessas ocasiões que me rebelei e fui explorar o bairro, fui ao bunker da Severiano Ribeiro. Um belo & simpático mulato me deu um poster gigante do “Alta Fidelidade”, um filme com John Cusack. Através de um e-mail havia requerido o regalo e fui certificada que poderia voltar a mandar e-mails para ele para obter posters de filmes gratuitamente, assim que saíssem de circulação, os que não eram usados nos cinemas acabavam no lixo.


¹) O termo já é re-usado, na Inglaterra servia para identificar cidades do campo que observavam um certo perfil. Nos EUA denominaram as cidades que servem de population park, ou seja, cidades dormitórios, criadas a partir da idéia de urbanismo em órbitas, o centro com as instituições mais importantes, a igreja, a biblioteca, o cinema, a praca, a escola. Cercado pela órbita da população com maior poder aquisitivo, numa órbita maior a de mais baixo poder da pirâmide e a maior órbita com a classe média que dependeria do consumo do carro. Em NYC, Londres & Oslo é bem claro esse sistema urbanista.

Anúncios

Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias atualidade, cultura saber, especulacao, memórias, urbanismo & arquiteturaTags, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , 2 Comentários

2 comentários sobre “Sonho semi-recente”

Qual seria a sua perspectiva sobre esse assunto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s