A fuga


Eu tenho umas fugas e uns delirios viajantes. As fugas se manifestam quando eu estou triste pra caramba. A saída é justamente pensar no futuro, se acontesse isso ou aquilo como eu me comportaria? Como algo iria reagir? Ou as vezes ainda, como outras pessoas  iriam lidar com a situação? Tudo pra eu me desligar do presente que não me agrada e não me conforta.

Os delírios viajantes acontecem quando eu estou fazendo uma atividade que não necessita atenção. Na maioria das vezes é somente um trabalho continuo. Ambas as ocasiões eu gostaria de gravar o que eu estava pensando e escrever as melhores partes.

Isso, tanto um como o outro, pode ser classificado genericamente como sonho. Não adianta falar de “sonho” pra mim porque eu penso primeiro no donut carioca de padarias antigas.

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“Sonho”, na Noruega e nos países de língua germânica esse quitute é conhecido como pão de Berlim ou bolo de Berlim.

A tadinha da minha mae quando era normalista frequentava uma padaria dessas nas imediações da Barao de Mesquita, que eu frequentei também em ocasiões diversas. Ela costumava comer sonho ou pão com mortadela. Dali, ela ía à pé ao Instituto que levava uma boa meia hora. Uma vez ela estava com muita cólica menstrual, então resolveu tomar condução, e  abstraiu o lanche na padaria de costume. Seu desafio não era ficar sem o café, mas replanejar como chegaria ao seu destino. O transporte público não obedecia a mesma regra de locomoção que ela estava acostumada. Ela teve que ir à Av. Conde de Bonfim ver qual seria o ônibus. Pegou um coletivo com um número familiar. O ônibus era certo porém ía na direção errada, o que fez deixá-la na Usina.

Ela tinha 16 anos e não se lembrava se havia ido a Floresta da Tijuca antes – pelas suas contas, provavelmente não. O sol na Praca da Bandeira deveria estar fumegante e só pioraria sua dor localizada. Ali naquele bairro de classe A (“A” de abastada), de repente ela esqueceu dos seus constantes e mudos questionamentos a figura de Deus e voltou a acreditar numa forca bela e magnifica que talvez rege por nós. Que tenha traçado de leve um erro no seu planejamento diário pra que ela viva mais do encantador mundo que temos.

Lá ela se deparou com uma temperatura bem mais amena, em apenas questões de minutos do burburinho do centro do bairro da Tijuca. Que segundo ela, já era ameno o bastante em comparação à planície desmatada e aterrada da Penha. Deu umas voltas na Usina, apreciou o local e voltou pra escola. Ela me contou diversas vezes essa passagem e aparentemente isso fez com que ela sempre cogitasse morar na Tijuca, um bairro de classe B até hoje (“B” de bestaditaduraw1181h827¹).

Na boa, ele precisava, ela merecia uma fuga. Deus é a obra de uma mente que raciocina intuitivamente também, em onda paralela.


Obs.: Essa fuga da Dona Marcília se passa no ano do golpe militar e a padaria se localiza em frente ao Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Isso era um órgão subordinado ao Exército criado durante o novo regime inaugurado com o golpe militar de 31 de março de 1964. Esse departamento era destinado a combater inimigos do regime militar. Como outros órgãos de repressão brasileiros no período também conhecido como anos de Chumbo, reclamava-se como um sistema de Segurança Nacional, igual a SS funcionava no sistema nazista.

¹) Esse adjetivo está com o sentido de “metida”, que é outra gíria local.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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