Pen Pal Feio II, a revanche.


Uma vez eu li que “milagres acontecem todos os dias fora de casa”. Nos últimos anos está na moda usar o jargão: “sair da sua zona de conforto”. Em fim, frases motivadoras para sair a luta.

No texto do Pen pal eu escrevi sobre um cara que foi muitos anos da minha classe na escola. Na verdade eu nunca desperdicei uma camaradice com ele ou puxamos papo um com outro e nem emprestei uma borracha se quer. Ele era o tipo de cara que queria chamar a atenção e fazer parte da gangue dos meninos mais cobiçados. Sem dúvida ele conseguiu realizar a primeira atividade mas mesmo com muito esmero nunca foi aceito entre os garotos maristas mais populares.12002756_1184187698274853_7820222022267507889_n

No Impacto, na turma pré-vestibular ele se deparou com um outro universo. Ali a maioria dos estudantes vinha de instituições do governo e nesse ano que prestariam concurso à uma vaga numa universidade, de preferencia do governo, então resolveram investir num ensino de “qualidade”. Havia até mulheres casadas e mais velhas. Muita gente fora do bairro da Tijuca. E como havia falado antes, num outro texto similar sobre estudantes, havia meninos super cabeça.

Ali o Feio, esse valete inconveniente, ficou a ver navios. Entre todos os problemas de matemática, física e química ou as regras doideira da última flor do Lácio¹, esse meu antigo colega de classe ficava a perguntar: “quem eu vou estabelecer contato nessa classe?” e “Quem são os mais atuantes da turma do agrião pra eu fazer algazarra junto?”

Todas essas memórias sobre esse sujeito que eu reato aqui poderiam estar apagadas pra todo o sempre. O Feio deixava bastante claro que ele não tinha nenhum adjetivo positivo para o meu gosto, então marginalizava-o. Até que um dia do nada ele se sentou atrás de mim numa determinada hora do dia. No intervalo de troca de professores ele chegou mandou provavelmente a pior cantada que meu ouvido teve o desgosto de capitar. Nesse momento olhei pra ele como se ele estivesse cantando uma canção antiga e antiquada em falsete. Apesar do meu susto inicial eu acabei por rir bastante desse cara.

Obviamente ele nao gostou e disse estar surpreso com o meu rebote. Aonde o machismo tenta se justificar, eu deveria de alguma forma ser bastante educada e cordial com ele na recusa da proposta, porque afinal ele havia mostrado interesse no meu produto. Pode enfiar o seu interesse no seu e eu NAO PRECISO MOSTRAR CORDIALIDADE NENHUMA. Eu não falei  isso, mas pensei. Um anjo passou. Achei de melhor tom, dado o local da conversa, expor dessa maneira uma explicação:

– Preciso te lembrar que voce é conhecido como Feio, Feio.

– …é, mas fiquei com a garota tal… (apontando para uma menina loira que também era antiga aluna marista) – A menina em questão era sim no nosso antigo colégio bastante popular mas não nesse. Nunca conversei com ela, não lembro o nome, ela não era bonita nem bem vestida, tinha até muitas espinhas, porém era loira e alta. Num dado momento dessa conversa até achei que esse focus do Feio com as loiras era só problema dele, mas será que era de todos da classe média naquela época?

Voce está me comparando com aquela menina com cara de pizza? Vai na fé e tenta ficar com ela mais vezes. Ninguém está te impedindo não… só que comigo é fora de cogitação.

Nunca mais vi o Feio na minha vida e dei graças a Zeus, Baco & Athenas. Com os anos esse papo ficou mudo. Naquele dia tudo sobre o Feio na verdade deveria ter sido enterrado. Só que comigo a experiência não morreu ao acaso. Ela deixou marcas. Elas podem dizer mais do que disseram outrora.

A bobeira de valorizacao de gente de tez clara-loira de olhos azuis, com o qual o Feio era partidário, tem uma explicação muito triste. Será que o Feio não queria ser parado pela polícia quando subia ao morro pra comprar drogas? Será que o Feio não queria levar bronca quando pixava a casa de velhinhos? Será que o Feio só queria ficar com uma cacetada de garotas, ou garotas de melhor qualidade, se assim apresentasse uma ex-namorada loira-maravilhosa? Ele acreditava que o real inconveniente dele era ele nao ser caucasiano-claro.

O real inconveniente dele era ele usar tanta energia pra chamar atencao e nenhuma pra se tornar sagaz.


rachel-dolezal-435Rachel Dolezal estudou um monte de coisas e lutou para que pessoas com ascendência negróide conquistassem o seu lugar ao sol assim como os descendentes de europeus anglo-saxoes conquistam nos EUA. Acredito que ela descobriu que ela era bem mais bonita e mais sensual com a pele colorizada e com o cabelo no estilo Black power, dando mais auto confiança. Sua estória de transformista étnica ficou viral e de modo algum as pessoas dao crédito, elas criticam, tudo é muito novo e original. O meu entendimento essa multidão que não entende a Rachel quer que a Rachel fique quadradona dentro de casa, igual a eles. Ela faz muito mais fora.

“(…)apesar das grandes diferenças na forma como as etnias são percebidas e privilegiadas por outros, tudo isso é baseado em mito, que as diferenças são intrínsecas e intrinsecamente perceptíveis.” Escreveu Steven W. Thrasher, colunista do The Guardian.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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