Pen pal feio


Assim que começou o ano letivo, no primeiro ano do segundo grau, a minha vizinha de ida à escola me mostrou o Pen Pal. O Pen pal foi institunalizado na Finlandia no final dos anos 60 para que crianças das escolas pudessem ter um outro amigo fora do cerco do seu bairro & escola e se inclinassem ao hábito da escrita. Estariam promovendo discussão e revendo seus conceitos e moda com outros iguais de outra área. Logo o Pen Pal se expandiu pra toda a Escandinávia e só no final dos anos 80 chegou ao Brasil através de periódicos como Capricho e outras revistas de moda para crianças e adolescentes na faixa dos 9 aos 19 anos de idade.

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Tudo era através de cartas. Requeria-se o questionário por um telefone publicado em um pequeno comercial nessas revistas. Após o preenchimento mandávamos de volta o questionário à central na Europa. Ali perguntava sobre pessoas de que nacionalidade voce gostaria de trocar ideias. 96% de todos os que eu conhecia ali no Sao José, no Tijuca Tenis Clube, na Cultura, na Alianca & no Palácio de Buckingham¹ marcaram USA.

Eram 4 países diferentes que deveriam ser marcados. O segundo bem cotado entre esses meus próximos foi Portugal. Claro, pela facilidade de comunicação. Tinha gente que não cursava línguas. Eu optei pelo UK ao invés dos Estados Unidos, mas não obtive sucesso. Nunca chegou ao meu endereço alguma carta de alguém desses países (Inglaterra, Escócia, Gales & Irlanda do Norte. Da Franca chegou e quebrei a minha cabeça para escrever corretamente francês em algumas poucas linhas. Não deve ter ficado bom pois não recebi nenhuma resposta até hoje. A amiga lusitana que ganhei através desse programa teve um longo capítulo na minha vida. Depois de 2010 ela se tornou obsoleta, os programas atuais de sociabilidade e comunicação pela escrita induzem voce até passar a achar que é melhor criar novas amizades e bola pra frente.

Isso é uma outra estória, voltando ao impacto do Pen pal na minha turma escolar. Os meninos não ignoraram a Suécia e uma boa parte deles marcou esse país, com o intuito mesmo de se comunicar com uma loira. A expectativa era grande e os passos eram calculados quando comentávamos e racionalizávamos essa nossa nova investida.

A primeira carta que chegou da Escandinávia tinha um desenho de uma televisão e explicava o funcionamento do aparelho. A carta iria ser projetada no lixo pelo dono, mas foi salva e serviu de entretenimento um bom tempo pelos estudantes como uma relíquia exposta em sala de aula. Como explicar ao remetente que o Brasil teve transmissão colorida antes que TODOS os países europeus com exceção do Reino Unido pela BBC? Como? Entre outros avanços todos que tínhamos dentro da produção para televisão que não condiziam com avanços prioritários da nação.predictions-60-3

Depois dessa, me recolhi. A francesa não quiz papo, não recebi nenhum pen pal britânico ou italiano e as únicas cartas que eu estava condenada a escrever seriam para uma menina portuguesa sabor baunilha². Dependeria só de mim manter esse contato pra ver se um dia irá produzir algo da nossa distanciada amizade.

O grande lance era mostrar para turma a foto de alguém de um país do primeiro mundo que fosse do sexo oposto e também bastante bonito. Inacreditavelmente, comicamente, absurdamente, surrealisticamente, inconcebivelmente os dois coleguinhas da minha turma Marista que vulgarmente eram conhecidos pelos apelidos de Cuca♠ & Feio receberam pen pals invejáveis.

A Cuca recebeu um pão³: um gajo português de longos cabelos negros e intensos olhos azuis. Ele mandou uma foto SEM CAMISA completada com uma guitarra a tira colo. De longe a mesma menina que espalhou a idéia do Pen Pal me chamou pra passar mal. Vi a foto do dito cujo adida a um texto carregado no dialeto regional lusitano sobre a mesa da garota que não tirava o sorriso do rosto gordinho apimentado de espinhas. Dava pra ver o brilho nos olhos claros dela mesmo atrás das grossas lentes do seu óculos cor de rosa.

Com o Feio nao foi diferente, um par de meses antes ele não recebeu uma foto de uma sueca, porém de uma californiana loira e malhada, bem malhada para uma adolescente. Na foto que ela mandou ela estava de calca com caimento St. Tropez♥. Era confuso o que estava enquadrado nessa foto dela, mas aparecia um poster de surf e um skate num canto outro do quarto. Não dava pra ver o rosto, ela usava um óculos de sol enorme na ponta do nariz. Impossível identificar essa pessoa, o que gerou questionamentos naquela semana entre nós todos de sala. Nada que fosse uma crítica ao prêmio que o menino havia revelado, até a Cuca perguntar o por quê da barriga dela ser daquele modo. Ela foi intensamente zoada apenas pelo Feio e infelizmente a Cuca era uma das meninas mais gordas da turma. Ele descarregou tudo nela das ridicularizações que sofreu pelos outros meninos por dois dias seguidos após mostrar a turma a foto da californiana. Ele mostrava a foto todos os dias.


Essa moda não durou muito apesar da minha sóbria perseverança. Escrevia & recebia uma carta da Tereza por mês por quase 10 anos. Chegamos a nos encontrar 3 vezes, 2 em Lisboa e uma no Rio. Ela nunca usou programas sociais pela internet.

O Feio era adotado, sua família era classe média e viviam no Alto da Floresta da Tijuca numa casa linda e grande. Ele nao estava dentro dos padrões tao radicais pedidos na sociedade carioca, seu cabelo e sua pele denotavam os gens comuns ao que no século anterior faziam parte da camada social escravizada. Até aí, beleza; tira poeira, dá a volta por cima, abstrai essa bobeira e bola pra frente. Não, ele dava trela…


¹) Era o nome do condominio de edificios que eu morava.

²) Vanilla, uma gíria usada entre os rapers americanos designando os brancos, as pessoas classe média normais.

³) Uma gíria que pode se dizer que caiu em desuso. Foi bastaste  comum no final dos anos 50 aos 70, pra designar homens queimadinhos do sol, macios, fofos & naturalmente, QUENTES.

♠) Personagem do Sítio do Pica- pau Amarelo. Um jacaré que é uma bruxa.

♥) Calca ou saia com caimento mais abaixo do umbigo.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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4 comentários sobre “Pen pal feio”

  1. Ela teve a mesma história que a maioria dos noruegueses que eu conheço. Ela é de uma cidade pequena, os pais dela tinham um sitio com vinhedos e oliveiras (no caso) do qual eu provei e um dia vou recitar sobre essa experiência também. Estudou em Faro, um balneário badalado no verão e cidade universitário o resto do ano. Trabalhou em Lisboa, depois que casou se mudou para cidade aonde o marido dela trabalhava e residia, teve filhos na mesma época que eu. Como ela não escrevia tanto por que ficou adulta, eu parei de escrever também. Mas tentei por um contato através da internet, mas ela nunca usou…

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