Bonecas de soldados


Até 1983 eu morava na Penha. Meus pais se mudaram para o IAPI da Penha¹ com a mesma idade que eu me mudei para a Tijuca. Eles cresceram num conjunto habitacional construído na época da guerra, no governo do Getúlio Vargas.

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Olga Prestes

O Getúlio foi idolatrado pelos trabalhadores mas caçou intelectuais e simpatizantes do socialismo que começavam a por as manguinhas pra fora nessa época. Uma coisa que mancha mais seu nome na história brasileira é ter mandado a Olga, mulher do Prestes, pra Berlin. Olga era uma judia.

A Penha pra mim era um lugar especial, clima de cidade pequena porém a minutos do centro da cidade mais famosa do continente. A minha mae não via a hora de sair dali e ir para o burburinho do Rio. Ela se referia as pessoas desse bairro ilustrando com o que uma senhora perguntou uma vez à ela:

– Esse seu bebê aí é adotado?

– Como assim? – Minha mae devolveu…

war is hell vietansoldier– Ué, ela tem cara desses viet congs², filhos dos americanos com as meninas do Vietnã. Branca com olho puxado!

Em torno de 30 mil crianças nasceram das tropas norte-americanas estacionadas no Vietnã durante a guerra 1965-1973. (…) Em 1987 criaram um visto, o AmerAsian, depois que o Congresso cedeu aos apelos diplomáticos internacionais (…). Postado pelo Global Post. Esses filhos da guerra que visualmente mostram a carga genética estrangeira nunca receberam a cidadania vietnãmita, cresceram num campo de trabalho soviético nesse país até 1981, recebendo pouca ou nenhuma educação. Hoje a grande maioria vive em extrema pobreza. 

De 1974 à 76 algumas dessas crianças que não recebiam nenhuma assistência na Cochinchina (Vietnã, Laos & Camboja)  foram mandadas para o Brasil. Pois é sabido que no Brasil havia uma mistura étnica como não se encontrava muito em outros países do mundo.

Acredito que essa política não é estreante no Brasil nos anos 70, pois nos anos 40 deve ter ocorrido algo semelhante. Eram dezenas de países europeus que foram maltratados pela ocupação nazista e com existência da barreira imigratória dos EUA por causa disso ou daquilo, não havia muita saída para os fugidos europeus se não a América do Sul.


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Hillevåg

Exatos 20 anos depois que eu me mudei para Tijuca, me mudei para Hillevåg, numa casa enorme dividida em 2 apartamentos. Ela foi construída pelo bisavô do meu marido e ficava ao lado da linha do trem. No dia 17 de maio de 2003 o trem parou um tempão em frente a essa casa, estava apinhado de crianças com bandeirinhas e cornetinhas. Eu não conseguira sair para ver os desfiles e curtir a festa pois estava muito mal da Hiperemese gravídica, Por um acaso da sorte ou o dedo de Deus a montanha veio a Maomé, da janela tive a pitada das festividades.

O apartamento superior era ocupado pela dona da casa, a filha mais velha do bisavô do Sverre. Ela não fazia idéia quem era o seu vizinho, pois estava senil. Já o Sverre não podia precisar sobre a sua tia-avó, qual era a idade dela ou se ela havia trabalhado.

A Aslaug era bem murchinha, um trampinho de gente, com roupas antiquérrimas que cobriam todo o corpo. Nessa casa que morávamos havia um quarto que pertenceria ao apartamento dessa anciâ, mas ela nunca ía lá e este permanecia fechado. Quando a mocinha da prefeitura vinha limpar a casa, seu trabalho se limitava ao andar que a velhinha usava.

Um dia eu entrei nesse quarto, era mais bizarro do que eu imaginava, primeiro porque ele não estava trancado com a chave, como eu esperava encontrar, a chave estava descansada no chaveiro ao lado da porta. Certamente aquele quarto não recebia a visita de humanos a décadas. Logo um espaço que na sua era áurea fora concebido para visitas. Mesmo assim ainda repousava um sofa torto no meio do cômodo, 2 grandes pinturas que pela poeira pouco consegui distinguir. Já os quadros da escada que dava para o apartamento dela eram recortes de revistas e impressos de paisagens. Ao analisar esses recortes numa outra vez descobri que eram todos dos anos 30, protegidos pelo vidro e pelo falta de luz do ambiente, mal perderam seu glans original.

Essa velhinha se despediu do único endereço que conheceu  antes de nós nos mudarmos para Storhaug. Um dia alguma coisa caiu no apartamento dela e fez um estrondo tremendo, subimos para averiguar se havia alguém ou algum bicho por lá. Uma dessas reproduções de pinturas caíra da parede. Era como visitar um apartamento congelado no tempo, congelado mais de 50 anos. Talvez os artefatos mais recentes não foram adquiridos depois do ano de 1962. Na cozinha estava a tesoura com o nome dela, que deveria ser o utensílio mais usado na confecção de suas refeições. Como havia explicado antes, tendo uma das populações mais velhas da Europa a Noruega oferece no mercado uma das melhores comidas prontas para consumo no mundo.

Das coisas que o meu sogro não se livrou da Aslaug foi um desenho que ele mesmo expos ao lado de fotos de familiares que já se foram. Mostrava uma moca alegre, com cara de interiorana, mas afinal, era só um desenho de um amador. Perguntei se ela não teve filhos pra ajuda-lo com a venda do imovél e ele me disse que não. Ela havia perdido o seu marido antes da guerra.

Quem desenhou isso?

– Foi um soldado nazista. – Daí o Arne me contou toda história que eu nunca tinha ouvido falar.

Muita gente na Noruega inteira apoiou o nazismo eram engenheiros, professores, fazendeiros, qualquer classe. Ao findar dessa era alguns políticos morreram, foram internados & exilados. A coroa em 1940 havia deixado claro sua antipatia pelo estado fascista.

As mocas que foram apontadas como visíveis relações sexuais de soldados nazistas em sua maioria não faziam idéia o que era fascismo ou nazismo. Em uma da pesquisas conduzida naquela época em outro fylker (província) norueguês, fora dito que 90% dessas mulheres apenas tinham 4 anos na escola (folkeskole).

O Estado como infrator

As Tyskertøs ou tyskejente (menos pejorativo) putinhas dos alemães como foram conhecidas na Noruega não obstruíam nenhuma lei. O Estado, no entanto, desfez princípios jurídicos fundamentais. Ao invés de proteger as mulheres, começaram a infringir punição e perseguição ao longo de décadas.

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Adolescentes festejam em frente a Domkirke Skole no centro (a escola de segundo grau público mais antiga de Stavanger) no dia 8 de maio de 1945

Pelo menos dez por cento das mulheres norueguesas entre 18 e 35 anos foram conhecidas como Tyskertøs, chegando a safra de 100.000 mulheres. Os números variam de acordo com a definição do termo, umas por terem aceito apenas um cigarro até relacionamentos íntimos e longos. Por Lena Cristian Kare

No dia 8 de maio de 1945 o país parou e celebrou o fim da desocupação nazista. As cidades estavam em festa e além de tudo era primavera. Porém uma caca as bruxas foi deflagrada. As Tyskertøs tiveram seu cabelo arrancado e cortado de uma forma brutal por vizinhos e populares. Depois de várias marchas de prisioneiros soviéticos e ingleses libertos pelas avenidas, passaram essas mulheres carecas e maltratadas, algumas foram deportadas pra Alemanha e perderam sua cidadania.

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Ilha aonde ficariam as mulheres que foram taxadas de “tysketøs”

Em Oslo elas foram condenadas a uma hospedaria numa ilha afastada. Na época afirmaram que 75% delas estavam contaminadas com doenças venéreas. Com a mudança de governo 4 anos depois, o novo ministério condenou o absurdo dessa resignação social e que o local lembrava por demais um campo de concentração nazista. Em Rogaland pelo menos 600 crianças nasceram filhos de soldados inimigos.

Esse tvingeklipp/ skamklipp (“escalpo”) nas garotas dos alemães poe em cheque a democracia norueguesa. Deve ser o ato mais covarde cometido por “cidadãos de bem” no século XX nesse país. O pior que não foi uma área isolada, mas todo o país se engajou em atormentar essas mulheres; o que me faz pensar que foi anunciado no rádio. Um arquivista histórico que guarda várias fotos desse episódio deixou bem claro que nega a enviar aos jornais esse material para a publicação. Em alguns lugares da Europa o bullying a elas foi tao marginal que tiraram as roupas das mulheres enquanto carregavam seus bebes!

Imediatamente depois de uma guerra que durou mais de 5 anos as mulheres que AMARAM tiveram que pagar por todo ódio semeado.


1176469798_f¹) O IAPI foi construído pelo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários a fim de financiar a longo prazo aos seus segurados, num outro modelo de previdência. A Praça Santa Emiliana foi executada pelo arquiteto Azevedo Neto.

²) Viet Congs era uma guerrilha local contra invasão estrangeira durante a guerra do Vietnan, mas é claro que uma senhora vai se referir se generalizando o termo corrente.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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