Os lobos e a vulva


lobby é uma “atividade organizada e exercida dentro da lei e da ética”. Porém, existem áreas mal esclarecidas, sendo o maior foco de problemas o financiamento para a decisão governamental, facilmente conduzindo certas atividades lobistas a órbita da corrupção.Lobbyists

A transparência é fundamental para a segurança de ambas as partes: o agente de pressão e o tomador de decisão. (…) É interessante notar que, nos Estados Unidos, o lobby é mais frequente no poder legislativo, sendo realizado por grupos com estruturas financeiras e operacionais de tamanhos diversos que competem entre si pela defesa dos seus interesses.

imagesTodos devem ter acesso aos mesmos canais de informação para atuar nos processos de formulação de políticas públicas; o que no Brasil isso fica incrivelmente a desejar. Pra mim ainda o maior pesar nacional é esse disparate cultural de acesso a informação.


Esse final de semana eu visitei pela 4• vez a cidade de Bergen. Como já conheço bem o centro, fiquei atenta a detalhes da arquitetura que ainda não havia digerido. Um novo shopping de marcas mais caras está sendo usado no que foi o edifício de um banco. O edifício em questão coberto de mármores diversos é um exemplar fabuloso do estilo Art Decó, contudo desgastado e mal cuidado. Para os bergianos esse edifício seria o que é o edifico que abriga o CCBB pra os cariocas.

Ao lado dele, sem surpresa nenhuma, está uma antiga câmara de comercio. Hoje reutilizada para novas e mais efervescentes atividades como uma praca de alimentação :/. O local antes coberto de escriturários e telefones pesados sobre mesas, aonde papeis simbolizavam os números dos peixes, hoje passa a cheirar ao sashimi passado. Esse edifício carrega painéis dos mais incríveis que eu vi na Noruega.

Esse estilo do modernismo foi muito bem difundido por aqui. Como câmara de comercio resolveram repres268121-7-1348599299844entar todos os parceiros da cidade de Bergen, inclusive uma parte dedicada ao mundo tropical no Novo Mundo. Havia outra parte objetando a indústria, aonde se presenciava menos humanóides e as maquinas tomavam grande espaço do afresco. O painel com o cais de Bergen é o mais pertinente para mim com os bergianos em suas atividades diárias. No mural, todos os painéis aparecem com igual importância.

O Afresco da Bolsa de Bergen

Um mural decorando a antiga Camara de comércio de Bergen. A idéia apareceu em 1912 e se concluiria após a Primeira Guerra Mundial.

Axel Revold retrata Bergen como o centro do um comércio mundial. Bergen como porto apinhado de cargas e agitação. Contatos infidaveis de pessoas de todos tipos e todos os tipos de contatos. Pescados de lá e de Lofoten, a selva inexplorada e o cultivo de grãos.(…)

Pode – se ver a influência do cubismo e Matisse na estilização. O artista foi a Franca busblogger-image--1986759547car as novas tendências pra confecção do trabalho e deve ter se misturado com a galera D’ecole de Paris.

Revold foi o principal expoente na pintura muralista norueguêsa (1918-1950), grafando o estilo como: Freskoepoken (Era dos Afrescos). Observo que seu estilo descende de algo entre o Brancusi & Matisse em um mix no estilo do Rivera. Apesar que críticos e especialistas em artes DAQUI tendem a rever os murais desse artista local comparando aos clássicos renascentistas italianos :P.

Nessa capitação artística lembrei me logo de um afresco d’um edifício comercial de Stavanger retratando a cidade. O despertar de uma cidade que ainda se conserva como uma cidadizinha apesar de suas emancipações, aonde crianças pequenas brincam ao lado de um respeitado aposentado. Um painel que tem a ambição de retratar os confidentes anos 50, uma era próspera e calma, todavia o mesmo engrandece o homem comum, assim como encontramos no painel de Bergen focando os trabalhadores de lá ou os painéis do Rivera em Detroit na fábrica da Ford.

Mas tarde naquele mesmo dia fui me deparar com um post nas redes sociais sobre a queda de Rivera e ascensão do Pollock nos EUA, que alguém se submeteu a abreviar d’um artigo estrangeiro (que na corrida sensacionalista pra trazer mais leitores)  afirmavam sem meias palavras afim de chamar a atenção para um livro:

Em 1933 Nelson Rockefeller contratou Rivera para fazer um enorme mural em NYC. O magnata implorou ao artista mexicano fazer umas pequenas modificações e o latino se recusou. O contrato foi cancelado e no ano seguinte o mural foi demolido!

Rockefeller decodificou seu olhar para arte brutalmente  e ativamente promoveu a arte abstrata, já que esta parecia estar destituída de idéias políticas. Ele estava convicto que artistas não entendiam do bem do capitalismo. Afinal a maioria vive na pobreza. (…)

A CIA gastou “milhões” promovendo exibições “mundiais”. Na guerra da propaganda, a obra de Jackson Pollock, Mark Rothko e Robert Motherwell eram supostamente prova de “liberdade intelectual” e do poder cultural que afluía d/nos EUA. (…)

Além de outras versos controversos postuladas. Lembrei do filme Frida, estrelado por Salma Rayek & Edward Norton:

Nelson Rockefeller: Señor Rivera, I must ask you one last time to reconsider your position.
Diego Rivera: I will not compromise my vision.
Nelson Rockefeller: In that case, this is your fee, paid in full, as agreed, but your services are no longer required.
Diego Rivera: It’s my painting!
Nelson Rockefeller: On my wall.
Diego Rivera: It’s the people’s wall, you bastard!

O Molina, acredito poder falar por todos nós, interpreta surpreendentemente o que seria a imagem que fazemos do pintor. Mas o Rockefeller do Jonh Cusack foi mais memorável que o do Norton que parece co-escrever o filme “Frida” (2002). Eu acho também, que o Norton queria ainda fazer um trabalho de campo e se entupir de responsabilidades. O magnata inicia o a construcao do conjunto Rockefeller center com os 27 edifícios no ano da quebra da bolsa de Nova Iorque.

Nesses anos árduos da recessão, o Rivera estava com 7 encomendas de trabalhos por todo os EUA, contando essa de NYC. Rockfeller estava sempre rodeado de um monte de conselheiros, homens habilidosos. Um dia, um desses indicou o Diego não pela sua veia política mas pelo valor que ele estava no mercado, um outro lá reviu a indicação analisando pontos de vista da clientela que iria observar ou ser observado pelo projeto  de arte final. Um desses conselheiros era o Poison Ivy¹, que pensou assim se o cu do Rockefeller estiver em jogo amanha ou em 10 anos por causa de uma pintura, o meu cu estará também.

Nesses filmes, no Jornal Nacional sempre será citado os artistas controversos, os politicos corruptos & os empresários visionários, mas entre eles circulam 2 figuras muito importantes: o lobista & o relações publicas. Acredito eu, que o Ivy Lee foi quem se responsabilizou pela descontratacao do Diego. Um Magnata não iria entrar em discussão no hall do seu edifício mais famoso de forma tao espalhafatosa como é reportado, apesar que os jornalistas da época defenderam isso e é o que circula nos livros acadêmicos. O painel foi “refeito” e está exposto na Escola de Belas Artes da Cidade do México. O Rockefeller encontraria muitos problemas nos anos seguintes se assim não reincidisse essa aliança com o artista. A política Macartista nos anos 50 iria tirar muito dinheiro dele e ficariam ainda mais poderosa no combate contra os “perigosíssimos” comunistas infiltrados na América.


Outra tese de conspiração, vizinha & contemporânea dessa época, porém de cunho literário, é a que o Capote possivelmente seria o autor de “To kill a Mocking bird” ou ao contrario que todos os livros do Trumman Capote foram escritos pela Harper Lee.Screen-Shot-2014-03-12-at-4.26.32-PM

Essas teorias são fascinantes e se alguém está com a responsabilidade de procurar mais informação que traga jus a esse tipo de controvérsia é louvável. Mas não opto por divulgar algo que é fresco, que é incerto, que pode ser apenas um lobby, uma jogada. Se a CIA promoveu a Acting art do Pollock essa é sem dúvida a melhor propaganda sobre a CIA que eu ouvi na minha vida inteira. 


Considerações gerais

O gap entre o episódio do Rivera em NYC & a conquista de Manhatan por Pollock é de praticamente 20 anos. O Pollock vivia na pobreza e foi sustentado pela sua mulher por muitos anos antes.

A arte figurativa não parou em nenhum momento na América. Os ambientes de trabalho, escritórios dos anos 50 aos anos 80 passaram a consumir a arte abstrata pela sofisticação que se tornou sinônimo. A arte abstrata pode ter surgido antes com europeus, russos (!), mas não poderia ter um impacto aceitável, um time certo em 1910 aonde a fotografia ainda não havia chegados sua maioridade, por exemplo. Em 1960 a rotina de publicações & a televisão abriu um outro olhar publico.

Quando eu cheguei na Noruega e até bem pouco tempo percebi que existe uma enorme massa de “artistas” pintando a mesma pintura meio abstrata meio uma pessoas_Kupp To Flotte Oljemaleri Av Siv Andersen01 magrelinha. Nunca havia pensado que arte abstrata se tornaria pop & vulgar como eu vi nos anos 00 aqui.

A escritora², que pode ser enquadrada como uma revisionista histórica tece todo seu estudo a partir de publicações de um jornalista de esquerda bastante respeitado no meio acadêmico britânico e norte americano, chamado Stephen Spender. Ele criou o estopim da coisa toda nos anos 60. Hoje com certa acessibilidade a documentos antigos ela vem arquivando uma série desses de órgãos governamentais com o carimbo vermelho escrito APROVADO pra sair patrocínio à cultura; além do material do Spender que provavelmente não foi publicado ainda.  O mais interessante sobre essa jornalista é que sua mae também é escritora de registros artísticos e elas são de uma longa linhagem aristocrática.

Michael Kimmelman, o editor de arte do The New York Times expressa algumas considerações: “Alguns revisionistas de arte moderna e da Guerra Fria afirmam que a arte norte-americana durante a década de 50 foi mais uma arma da CIA, isso é categoricamente falso, ou na melhor das hipóteses, contrária aos princípios historiográficos oficiais.  Está descontextualizado (…)” Deveria-se enquadrar melhor o papel das pintoras abstratas que de fato trouxeram ao movimento conceitos e técnicas, mas até hoje são postas em segundo plano.

¹) Ivy Lee, as vezes apelidado de Poison Ivy por seus concorrentes, é tido como o criador da profissão de relações públicas. Trabalhou pra o Sr. Rockfeller nessa era turbulenta chamada anos loucos. Também foi o indicado para conduzir a campanha presidencial dos Democratas, mas perdeu para o Roosevelt. Ele foi muitas coisas notáveis e ainda tio do poeta nova-iorquino William S. Burroughs.

²) Omitirei o nome da escritora pra não fazer propaganda de graça pra ela.

Bibilografia

FARTHING, Stephen. “This is Art”. London, 2010

HAZAN, Fernand “Knaurs Lexikon Moderner Kunst”. München, 1955.


Bibliografias são importantes, mas o exercício que faco de transcrever o que tem mais mexido comigo é único. Precisa de uma habilidade tremenda em fundir conceitos à experiência, dominar uma experiência, o reflexo da memória, etc…

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias arte moderna, historia, politicaTags, , , , , , , , , , , , , , , 3 Comentários

3 comentários sobre “Os lobos e a vulva”

  1. Flávia, quando estivemos aí te visitando e depois fomos em Oslo para o ano novo, vicitamos o lugar onde os prêmios Nobel da paz são dados e vimos lá vários painés incríveis. Realmente Incríveis. Aparentemente, juntando com esa informação fos painés de Bergen, me faz acreditar que a Noruega seja um páis com tradição em painés. Estou errado?
    Quanto ao Poison Ivy, que figura interessante ele deve ter sido. Lerei à respeito com mais profundidade.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Havia 4 coisas na minha cabeça que como havia dito à vc iria escrever muito e depois retiraria os “overs”. Nem comecei, vi logo que se alongaria demais da conta, isso seria juntar a foto icônica do the Who em NYC num muro art deco, o ministério do trabalho no Rio (fiquei por pesquisar, pouco ou nada achei do que eu queria nos meus livros ou na internet) mais o modernismo brasileiro de modo geral e o movimento francês abstrato (considerado o mais radical).

    Encontrei com uma amiga no sábado agora, na exposição dela. Tinha acabado de tirar a foto do afresco do hall do edifício comercial, pois não encontrei foto na internet. O cara que pintou esse afresco é pai do Hugo Wathnes um escultor fantástico aqui de Stavanger que simplesmente abocanhou quase toda a fatia de bolo, pois ele é versátil pacas, não dá pra dizer que a mesma pessoa!

    Esses afrescos de Oslo eu vi uma vez no jornal. Não sei responder a sua pergunta. A minha amiga confirmou isso que eu disse a arte moderna com intenso aspecto social perdurou por aqui…

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