Movimento neutro


“Se nao lutas pelo menos tenha a descencia de respeitar outros que lutam.”

Jose_Marti_headJosé Martí

A minha mae trabalhava no Banco do Brasil e em 1987 ela é transferida pra o centro do Rio. Pra ela isso significou terminar a mordomia de andar até o trabalho apenas um km., agora ela teria que tomar o metro até o emprego. 

No centro, ela não poderia evitar participar das demonstrações, com isso acompanhei alguns processos democráticos. Lembro-me de pausas na pizzaria comendo em pé e tomando um suco entre sindicalistas. Nesses lugares dirigidos ao público proletariado tanto o ketchup como sucos eram soluções² dos mesmos.

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Cristaleira da casa Paladino, que opera na Uruguaiana a 110 anos.

A noite depois que a demonstração dispersava viria a verdadeira janta nessas tabernas clássicas do centro do Rio. Esses restaurantes tinham uma média de 60 anos naquela época. Os mais antigos tinham pra mais de 100 anos, como o Beco das Sardinhas, o Bar Luiz (que foi rebatizado em 1940, antes se chamava Bar Adolf pois o primeiro dono era um Alemão) e uns outros lá pelas imediações da Av. Marechal Floriano. Nós jantávamos com todos o seus camaradas do banco e eu tinha que acompanhar o papo da galera, que parecia sair do filme “Bar Esperanca”, um clássico dos anos 80 com Marília Pera & Hugo Carvana.

Uma dessas amigas da minha mae fora designada pra coordenar a inauguração do centro cultural do banco, pois já estava escalada pra administração de eventos do mesmo. Ela parecia bem feliz e não deixou de avisar à todos os seus camaradas de diferentes repartições do banco. Na semana do bendito evento da mesma forma que ela havia espalhado a boa-nova³ teve que desconvidar essa gente. Inaugurariam sem a presença de proletas. Haveria diretores e representantes do governo que viriam direto de Brasília, além de empresários das grandes empresas clientes do banco, faziam questão de deixar o evento fechado. Achavam de mau tom misturar clientes e público. Seriam entidades que se chocam.

O descontentamento tomou conta das colegas da minha mae. Um noivo de uma lá, também funcionário da empresa observou que isso não impedia a presença deles como funcionários, a única questão seria apresentar um convite. Os funcionários e familiares não se acanharam com a notícia negativa a apareceram lá em peso na sexta 12 de outubro de 1989 e fomos barrados no bailo, owo, isso é que dá voce querer frequentar – quotando Eduardo Dusek.

A festa só havia começado. 30 cabeças formaram um piquete na porta do centro cultural. Não contente com isso, tínhamos um agente infiltrado lá, a sujeita da Eventos BB. A cada meia hora ela nos dava novos flashs° do comportamento que se manifestava dentro do edifício. Como ainda estava fresco as demonstrações das Diretas Já¹ ecoava expressões reivindicativas na imaginação de cada palhaço de dentro. Carros pretos com chauffeur voltaram ao local e alguns homens brancos de preto foram embora. Logo veio a nossa agente nos dizer que algumas pessoas estão super nervosas  e  acham que toda a Av.Presidente Vargas está tomada por demonstrantes. pag_168

Durante uns anos mais comentávamos essa passagem meio mais ou menos no próprio CCBB. O ambiente absorvia os melhores cariocas que eu tive a oportunidade de encontrar. Lá em 1991 foi a primeira vez que me deparei com uma pessoa vegetariana, um senhor com quase 60 anos, pequeno, moreno, forte e magro, parecia sim ter 40. Inquiriu a minha mae, se ela também partilhava desse estilo de vida porque ela também parecia bem mais nova.

– Nao. – Sorrindo inibidamente o respondeu. Isso nunca havia passado pela cabeça da minha mae e seria problemático lidar com esse tipo de idéia com o seu marido, porém acrescentou. – Eu gosto muito de legumes crus.

A vida com a cenoura crua é muito legal. E a partir daquela conversa com aquele senhor desconhecido, passei a comer também legumes crus. Mas por que a minha mae me motivava anteriormente a comer legumes cozidos se na preparação dos mesmos ela comia cru? Isso se chama indução. Essa indução é extremamente disseminada na sociedade e dirige as pessoas a se comportarem de tal modo mesmo que isso seja prejudicial pra elas. Os legumes cozidos perdem até 40% do seu valor. 

Na mesma década de repente começou a brotar em tudo quanto é canto vegetarianos, uma delas eu apenas conhecia através do ICQ. O ICQ era um mensenger sem imagens. Eu tinha vários amigos estrangeiros e os meus amigos mais próximos do Fundão, totalizava umas 30 pessoas.

Essa menina que havia me contactado através do ICQ era bem diferente de mim. Ela queria obter explicações sobre a vida no Rio, a cultura, as famílias e sobretudo um lugar específico: a Casa do Estudante Universitário (CEU). Era mais fácil usar o inglês, mas mesmo assim ela teimava comigo a língua latina. Sua preferencia musical era o Hip Hop e a MPB, odiava britpop ou indy rock – justamente o que eu não parava de ouvir nessa época.

0O CEU foi sua residência durante os anos 80. Nas suas lembranças era o lugar mais feliz do mundo e que as pessoas eram loucas e festeiras. Expliquei à ela o que havia ocorrido em 1995 com edifício para residências estudantis e enviei alguma coisa disponível na internet daquela época sobre a evasão forcada do complexo de apartamentos. Partes da estrutura estavam abaladas e pra evitar pequenos consertos pelos populares a prefeitura re-localizou os moradores no Flamengo & Centro.

Comentei com ela também que passei a minha vida inteira por ali, um par de vezes fui a pé de dia para reconhecer melhor a fachada. Numa dessa visitas ao local uma das coisas que me chamou a atenção foi o pipoqueiro morar lá e ter sua carrocinha presa numa parte da arquitetura. Não houve uma vez se quer que consegui ver aquela arquitetura fabulosa iluminada, esta estava sempre escondida entre as árvores fartosas tropicais que carregam toda sombra do mundo evitando a luz do sol de dia e bloqueando a luz da lua de noite.

Meus pais falaram que os militares conseguiram muito antes tirar os estudantes dali. “Não sei quem mora ali agora, mas como estudantes iriam estudar sem luz?” Outra coisa que não flui no meu entendimento é a adesão feminina a universidade pública. Como uma pensão estudantil funcionou com os 2 sexos? Como se deu e se dá isso nos dormitórios norte-americanos? Será que nos anos 60 havia uma parte exclusiva para mocas nessa república? No Rio?…em plena ditadura militar que incentiva um modelo conservador social?

Voltando a menina do ICQ. Ela tinha 19 anos enquanto eu tinha 24, me contou também que seu irmão era profissional em skate. Eu tinha um leque de amigos aficcionados nesse esporte, todos de diferentes nichos, um deles era de fato profissional e iria competir na Noruega. Ao primeiro momento que encontrei esse meu vizinho profissional em skate fui averiguar com ele a existência do sujeito que essa garota havia me passado, ele nunca ouviu mais gordo. Automaticamente pus o assunto de lado. Entao fiz uma última pergunta a garota e reportei aquilo que eu havia colectado. Ela havia sido deixada pela mae em Viena num orfanato, quando a mae veio passar uma temporada de 3 meses com o circo na Europa em 1989.  A cerca de 3 anos tentava localizar a mae e o irmão sem sucesso. Ela havia chegado a maioridade e dividia um apê com o namorado.

No verão europeu de 89, conheci uns skatistas de Jacarepaguá num hotel de Madrid. Uma galera que usava bordões como “friaca“, estavam ali sendo pagos por uma empresa de calcados difundir o esporte na Europa. Apesar da  plausibilidade da estória dela, que me conquistou apesar das diferenças, não podia ajudá-la nem instiguei a luta dela pela sua família perdida.


Observacoes:

Em 2000, a UFRJ teve aprovado pelo Ministério da Cultura, nos termos da Lei Rouanet, o Projeto RB 762 – Revitalização de espaço histórico para a ciência e a cultura do Estado do Rio de Janeiro. (…)Vista do mar

Em outubro de 2009, com a aprovação, pelo Conselho Universitário, do Plano Diretor UFRJ-2020, ficou estabelecido que o conjunto da Avenida Rui Barbosa sediaria o Colégio Brasileiro de Altos Estudos. A escolha não poderia ter sido mais feliz,(…) – Página da Colégio Brasileiro de Altos Estudos.

Nesse meu blog em pelo menos outras 2 vezes menciono  casos parecidos aonde brasileiros vem fazer turnees em países europeus, veja Tradicao & Aja 3 vezes antes de pensar.


¹: Foi um movimento para devolver ao cidadão o direito de escolher através do voto direto o presidente da república, marchas foram organizadas essencialmente em 1984. Mas até 1992 no impeachment do eleito diretamente Presidente Collor várias demonstrações semelhantes aconteceram, aonde várias classes profissionais se encontravam nos centros urbanos da maiores capitais brasileiras.

²: Diluicao em água, o solvente universal.

³: Expressao bíblica usada no Novo testamento, referindo aos atos  fraternos de Jesus.

º: Termo jornalístico, referente a imagem de um determinado acontecimento.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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