O tema para Polly


Meu maior sonho é ser uma cineasta. Mas é tao distante da minha realidade… que eu acabei optando por fazer algo mais construtivo, acabei desviando meu sonho para algo real que me desse logo de uma vez uma resposta ao meu anseio estético.

keyVolte e meia esse meu sonho me pertuba como um pesadelo, vive remoendo na minha cabeca e nao consigo achar a chave para soltar o bicho. Eu sei que ela deve estar em algum lugar, todavia parece que ela está dentro de uma caixa pequena também trancada com uma outra chave, que eu também não sei aonde está essa outra chave.

No meio do caminho procurando essas malditas chaves descobri um monte de coisas. E aprendi outras. Sem jeito, os rios de paixões sobre determinadas áreas desembocam quase que sempre na bacia literária.

Por hora escrevo aquilo que eu desejaria muito um dia poder tocar o barco a minha maneira e passar de forma contagiante um drama que me emocionou profundamente para  o mundo inteiro, gente que nunca iria se ligar em tal parada.

Uma dessas fábulas é sobre a Polly. polly

A Polly não tem arquivo antes dela se unir a um cara chamado Jack Lennon. O Jack como pai dele, trabalhava nos armazens do centro de Liverpool fazendo o trabalho mais inferior na escala hierárquica da indústria, eles eram toneleiros. Aqueles marceneiros que só fazem toneis.workshop-of-a-cooper-barrel-maker

O pai do Jack fugiu bem novo da roca da Irlanda. Veio parar nessa metrópole que lidava com peixe, que recebia carga de outros cantos do mundo, de um monte de coisas exóticas e distribuía pra todas ilhas britânicas, inclusive pra a Escandinávia. Mas o Jack e o pai dele nao sabiam muito sobre a Escandinavia, sabiam que aqueles produtos coloridos como banana, laranja, tabaco & vinho, eles não tinham dinheiro pra comprar. Se lá na Irlanda o pai do Jack continuasse, nem que a vaca tossisse esses produtos chegariam a sua mesa, isso ficava ainda mais caro pelas bandas de lá. Ali em Liverpool estava muito bom. Curiosamente se levava 28 dias do Rio de Janeiro a esse famoso porto britânico, e esse percurso acabou sendo apelidado de ciclo menstrual.

O Jack se casou também cedo como seu pai. Afinal a vida só faz sentido mesmo quando se está apaixonado. Já viu ficar trabalhando a vida inteira como escravo dessas corporações gigantescas? Que no caso do Jack, um reles trabalhador, logo pode ser substituído. Nada se leva pra debaixo da terra.

A vida da mulher do Jack não se estendeu muito morando numa favela vitoriana de Liverpool. Ela não completou seu aniversário de 23 anos e deixou 2 bebes com ele. O segundo bebe era um menino, e sem mae para amamentá-lo, ele também não resistiu. O Jack também sabia que ele não ia resistir sem mulher e logo arranjou a Polly.

A Polly não tinha passado, nem família, não sabia ler e escrever, veio pra limpar a casa desse sujeito e por lá ficou. Ele enrolou o quanto pode, prometendo casar e nada. Até que ele ficou doente e casou pra não deixar mal a Polly, que foi tao boa pra ele nos 20 anos que passaram juntos.

Ela sim teve uma pitomba de filhos, foram 15 partos, 8 crianças sobreviveram a idade adulta. Ela teve 3 abortos naturais, totalizando 18 vezes de gravidezes. Tá na cara que o catolicismo tomava conta desse bairro proleta, Toxteth. Eles moravam num quarto que era sala, cozinha e banheiro num só cômodo, com essas crianças todas, mais ferramentas de uso diário – que não eram muitas – e um saco de mantimentos ali no canto pra não se morrer de fome. copperfield

No inicio da década de 1910 o Jack morreu, foi enterrado numa cova sem nome com outras tantas pessoas. Seus 2 caçulas foram pra o orfanato um tempo depois e as outras crianças que podiam trabalhar seguiram o rumo delas. A Polly se virou a maneira dela, sabia ser a pessoa certa no lugar errado. Seu ganha pão era ver o futuro e as vezes contava uma piadinha pra galera esquecer que é pobre.

Esse caçula mais velho se chamava Alfred, quando ele chegou no orfanato tiveram que tratar das mazelas que o garoto sofria. Ele cresceu por lá com as pernas arcadas, clara demonstração de falta de vitaminas durante os primeiros anos da infância. Ele teve uma vida também muito difícil, foi até preso no noroeste da Africa logo depois da segunda guerra. Assim como seus ancestrais uma coisa em particular ficava muito clara: achar uma moca.

Polly visitou diariamente e cuidou da gravidez da nora que ganhou, levando janta pra ela pois ela não morava distante. A família da nora da Polly havia deserdado a moca, não aceitaram o Alfred de jeito maneira. A guerra comia solta na Inglaterra, todo dia caia uma bomba nazista naquele país, de noite nao havia energia e muitas maes ficavam com outras mulheres mais velhas, porque os homens estavam no mar.

A guerra acabou e a nora da Polly deixou o seu filho John com a sua irma Mimi. A Mimi morava em outro bairro,  num bairro classe média, distante da gentalha-gentalha (quotando a Dona Florinda) que ficava margeando o burburinho do centro. O John nunca mais viu a sua avó. Mas eu acho que a Mimi viu e imagino a seguinte cena:

– Nao olhe agora, mas aquela senhora obesa e sem dente é avó do filho da minha irma – Mimi falando para o seu marido num passeio ao centro para comprar o peixe do brunch de domingo.

Logo foi a vez da partida da Polly. Ela não teve muito, não fez muito, mas o que ela fez foi bom.

Royals

I’ve never seen a diamond in the flesh * I cut my teeth on wedding rings in the movies * And I’m not proud of my address, In a torn-up town, no postcode envy

(…)

And we’ll never be royals (royals). It don’t run in our blood, That kind of luxe just ain’t for us. We crave a different kind of buzz. Let me be your ruler (ruler), You can call me queen Bee And baby I’ll rule, I’ll rule, I’ll rule, I’ll rule. Let me live that fantasy.

Quatro anos atrás eu comecei a minha nova pesquisa sobre árvore genealógica. Eu olhei na internet, em sites que tinham sobre isso e li sobre o estudo e pesquisa. Notei que os peritos estavam engajados em pessoas famosas, figuras simbólicas, como os Kennedys nos EUA, já que não há realeza por lá. Então eu pensei no Lennon, encontrei facilmente toda história genealógica dele.


Nessa época que havia lido tudo sobre a Polly que tento resumir a minha maneira aqui, re-contei para um brasileiro e uma norueguesa. O meu amigo disse que não sabia que eu gostava tanto assim dos Beatles e a minha conhecida achou a Polly íncrivel.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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4 comentários sobre “O tema para Polly”

  1. Nao e nem vi o filme. Deu pra entender porque vc fez esse tipo de associação com o norte-americano. Pode-se dizer que ele é o criador do movimento Beatnick. Toda a galera que foi beatnick nos anos 50 fizeram a cabeça da galera que se tornou os hippies nos anos 60. O próprio nome da banda Beatles seria uma referencia a isso, somos uns beatnicks. Mas quando um movimento de cunho lado B passa a ser mainstream, ele se dissolve. Outra geração toma conta também com mais forca, mais entusiasmo. O Plinio Marcus era beatnick e o Julio Cortazar também. O movimento é norte americano até mais lógico, o cara ser bem mais velho.

    Vou procurar o livro na biblioteca, valeu.

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