O assassinato da assinatura


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Indiana Jones & o Hitler

O Alex está muito fa do Indiana Jones. Agora todos os finais de semana de 2015 tenho que ver um dos filmes da trilogia. Debato algumas das cenas com eles. Como um bom garotinho de 8 anos ele é vidrado¹ nas cenas de ação, eu já acho que elas consomem uma boa meia hora de chatice/sandice. Todavia tem uma parada que não deixo passar em branco², o Nazismo.

No cinema a cena que tomou conta de mim foi a que o Indiana Jones se encontra na cova dos Leões³; justamente, em Berlim. A personagem que é um professor de historia e arqueologia segurava na mao (de novo, uma palavra muito repetida nesse meu blog) o libreto-diário das pesquisas pessoais do seu pai sobre o Santo Graal. Aquele livro para a personagem tinha um valor sentimental um pouco maior, porque ali estava a maior paixão do pai dele que também era professor de história. Indy disfarçado de nazista como em muitas outras cenas, de repente se depara com o próprio Hitler prostrado na sua frente e ele sem pensar muito deu o dito livro para o psicopata autografá-lo.

Essa ocasião retratada no filme foi a qual estudantes uniformizados como militares na universidade debook-burning-2 Berlim queimaram livros que desconectavam das ideias nazistas. Encabeçando a lista estavam as figurinhas batidas  de Karl Marx, Sigmund Freud & Stephan Zweig. Isso era uma espécie de cerimonia de assassinato indireto a esses grandes pensadores judeus-germânicos. Os livros foram re-impressos com o fim desse pesadelo histórico da WWII, mas a assinatura contida desses grandes pensadores em seus livros nunca mais foram reproduzidas. O Zweig por exemple morreu em 1942 em Petrópolis.

Queimar livros ou demolir qualquer estrutura arquitetônica é um erro fatal. Gerações futuras deixaram de entender a si próprio ou tirar um proveito econômico do seu legado.The-Path-of-God-Leap-of-Faith-from-Starling-Fitness

Na última quarta feira, visitei uma das salas mais belas da cidade de Stavanger, a biblioteca do centro de arte Contemporânea. Discutia-se justamente a renovação do Nytorget.

O Nytorget é uma area aberta de luz e ventilação em uma das  partes mais urbanas de Stavanger. Historicamente essa praca seria designada aos proletariadaos residentes de Storhaug. Numa epoca que era evidente a divisao social abissal na sociedade norueguesa. Esse átrio do centro é coroado com a igreja de Sao Pedro construida com o melhor tipo de material que aqui se viu no século XIX, os tijolinhos vermelhos, brevemente dissertado  aqui. PA0354_U_0045_960x

Essa area foi remodelada cerca de exatos 100 anos atrás. Construíram um muro que traria ao lugar uma bossa, uma dispersão do minimalismo que tomava conta dali. Também completaram a area com um edifico de 5 andares, projetado numa ótima medida entre a simplicidade reinante de um lugar abastecido outrora pela religiosidade e austeridade e com as novas tendências do art decó, ainda um tanto tímidas.

Nytorget1aO edifício marcou esse lado da cidade, que é uma cidade praticamente é revestida de casas de madeira. Lá se instalou um supermercado mantido pelo sindicato dos trabalhares industriais. E foi um certo sucesso até os anos 60 quando os supermercados se estabilizaram retirando esses mercados das cidades e o sindicato já havia fortalecido a classe trabalhadora.

Numa altura dessa reunião um senhor expôs sua mais sincera impressão sobre a demolição desses landmarks (o edífico que abriga a biblioteca acima referida, o centro de arte contemporânea, 2 galerias e a oficina gráfica; & o murinho de pedras no estilo art nouveau). Alguns pontos foram ignorados mesmo porque não dá pra se lembrar de tudo ou monopolizar toda a crítica a essa infeliz solução de remodelar o que eu acho umas das mais pertinentes paisagens urbanas dessa cidade médio provincial.

Ele fez questão de atribuir essas demolições e a ampliacao desmedida da Tinghuset (cartório & cento do judiciário) como um claro sinal de corrupção por aqueles idealizadores. E frisou o que foi destruído não pode ser reconstruído, porque não há nem material, nem tecnologia e o custo de hoje é ainda maior. Para se ter uma noção, o murinho foi erguido com trabalhadores desempregados e bem mal pagos.

O político presente, muito pé no chão, disse que se não tentarmos frear essas imposições de remodelações ego-centradas será bem capaz deles ainda derrubarem mais árvores e mais casas centenárias da cidade.

A defensora de tal nova ordem era a típica senhora nova rica, uma Loiola° na vida. Com unhas e dentes repetia ela a mesma ladainha:

– Deixem que a nova geracao de arquitetos produzam coisas belas…

Por ela qualquer coisa como mais de 20 anos deveria ser posta pra fora da cidade. Bastaria apenas ela, se fôr esse o caso. O que me fez lembrar que o Estado Islâmico programara vandalizar estátuas históricas no Iraque como o “O touro alado” nessa mesma semana.

A pedra do Touro Alado que se vê no video é original de um dos portões de Nínive, que remonta ao século VII.

200px-Valbergtaarnet(Jarvin)Realmente é de muito mau gosto querer destruir um patrimônio que gerações anteriores tiveram muita dificuldade de erguer.  A própria torre de Valberg poderia ter sido um alvo fácil de demolição nos anos 30! No local construiriam a escola técnica – eu li isso naquelas publicações que completam bodas do Aftenblad. A escola de Ledaal formou os primeiros técnicos que se tornaram os primeiros a lidar com a fábula do petróleo em 1961. Valberg só não virou poeira porque nas implementações do projeto, veio um arquiteto da Universidade de Oslo impedir a demolição da torre que o município ainda não conseguia enxergar naquela construção algo interessante. Essa torre é do século XVIII,  servia de farol e outros serviços como: bombeiros e segurança pública pra o vilarejo.

O Stavanger Aftenblad escreveu também com entusiasmo em 25 de novembro de 1950:

“A instalação é de primeira classe com o melhor equipamento disponível e contém mictórios para 12 homens, 3 toilet e 2 lavatórios para homens e 4 casas de banho e 2 lavatórios para as mulheres. (…)”

Isso era o banheiro publico que se localiza quase em frente ao Martinique. Desse pub aprecio esse espaço que querem modernizar. Nesse processo podem extirpar toda a sua singularidade, toda sua alma, que são o edifício, as árvores, o murinho e sobretudo a galera desse nicho que dao ar de cidade grande por aqui, cheio de histórias complexas. Bebo meu suco de cevada, leio meus livros e encontro com a minha rapaziada. Aqui dependendo do minha lua posso fingir que estou com Cortazar em Palermo, com Picasso em Montmatre, Basquiat no Soho, Pessoa no Chiado etc… toda boa cidade tem seus musos em certas coordenadas especiais e pra eles não pode faltar um cenário adequado.


¹: colado no vidro literalmente, o vidro no sentid de vitrine, aonde ficávamos prostados querendo aquilo exibido mas infelizmente sem poder ultrapassar o vidro…

²: Esquecer, abstrair, negar, ocultar, etc…

³: Daniel na cova dos Leoes, figura biblica em que o maluco aí é jogado juntos aos Leoes e com uma Deux et Machina ele se salva.

º: Uma nova rica dona de padaria & supermercado moradora da Barra da Tijuca. Uma das mulheres mais cafonas do Rio de Janeiro.


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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias cinema, urbanismo & arquiteturaTags, , , , , , , , , , , , , , 5 Comentários

5 comentários sobre “O assassinato da assinatura”

  1. Oi Flávia, bom post.
    Sinto pena por você ter que assisitir ao Indiana Jones, porque eu acho a trilogia uma gradissíssima MERDA! Na verdade, todas essas trilogias famosas de Spilberg, Jorge Lucas e afins eu acho uma bosta. Gostei quando era moleque, mas logo que cresci um pouquinho passei a desgostar.
    Seguinte, você falou de uma palavra que é muito dita no seu blog, e me lembrou uma coisa que descobri a um tempo atrás. Eu não lembro o nome exato, mas a ess~encia é a seguinte:
    Analisando textos selecionados e representativos da totalidade dos estilos da literatura inglesa, um matemático cujo nome eu esqueci descobriu que existe uma relação matemática entre as palavras. Assim, a palavra mais usada aparece 3 vezes amis que a segunda, que aparece 3 vezes amis que a terceira, e assim suscecivamente.
    Nao satisfeito, ele testou essa hipótese para outras línguas e descobriu que essa relação se repetia.
    Isso parece ser tão certo que é utilizado hoje em dia para verificar se uma escrita nova é silábica, ou se cada caracter representa uma palavra, por exemplo. Se o caracter mais presente estiver seguindo a relacao matemática com o segundo mais presente, e com o terceiro, descobre-se que a escrita não é silábica.
    Incrível não é? Vou tentar descobrir o nome desse camarada e dessa teoria.
    Boa sorte com o Indiana Jones. Sujeito chato pra caralho.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Oba, Luiz.

    Ri muito da sua critica direta ao Indiana Jones. Alguns dizem que existiu mesmo, mas tinha outro nome. Sim, era um pesquisador um tanto esporte para um pesquisador. Acho que o cara era inglês e esteve passeando pela Noruega & Alemanha, não acredito que tenha ido tao longe tantas vezes. Tô pra achar o nome dele, mas vivo esquecendo essa personagem…

    Não vi o primeiro filme da série no cinema, os outros 2 eu vi com a galera do meu prédio, o quarto eu já morava na Noruega e Indiana Jones praticamente não é conhecido por aqui. Eu tenho essa caixa não-masterizada, está dublada para o Alex se familiarizar com a língua. Lembro de torcer o nariz quando aceitei ir ao cinema pois odiei o primeiro filme do Indiana Jones. O terceiro filme, do qual tem essa cena descrita no texto, fez eu pesquisar muito sobre historia, inclusive me fez escrever durante o verão de 1991 cerca de 10 páginas sobre o Graal; fiz desenhos, mostrei as minhas amigas…

    Essa do matemático é bem interessante, pois vivo voltando lá nos tags. Agora na viagem do final de semana prolongada da páscoa fiquei pensando o quanto os tags consomem psicologicamente os “escritores” de blog. “Rápido, rápido dá as tagadas”, o blog pede. Eu vou pescando aquelas que aparecem no meio da frase. “Será que eu estou fazendo certo?” me pergunto…

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