O ápice de uma história profissional


Semana passada fui ao Ikea, há muito tempo que não comprava nada lá. Jantamos na cantina toda pop do local. Depois da janta, como de costume, fico desenhando com a Katarina, criando com as infinitas possibilidades de sortimentos de papelaria que essa grande marca também investe.

Atrás de mim uma família iria jantar. Ouvia um burburinho normal de conversa numa lingua estranha. Num instante depois chegaram as bandejas de comida e a minha concentração no desenho afetou-se com os sons do que acontecia fora do meu campo de visão. Pelo som, passei a imaginar o que ocorria, talvez um mamífero de grande porte estava se alimentando. Não precisei olhar para trás e logo comentei com a Kata que deve ser uma família chinesa; o pai mandou sua filha e mulher comprarem a janta e agora ele se abastece.BLOG HOMEM PORCO 2

Katarina confirmou que eram asiáticos e não nórdicos. As mocas mal falavam. A cada garfada o chefe da família dava arrotos bizarros como acolhendo, recebendo os pedacos de comida na sua boca.

Eu já falei com todo tipo de estrangeiro na Noruega. Sempre conversas rápidas. É realmente complicado estabelecer um papo com alguém da Asia que acabou de chegar aqui. Eles tem até o intuito de conhecer a maioria com quem se vai lidar e aonde está pisando, o país e seus cidadãos. Contudo sendo brasileira, fica um buraco questionativo. Os orientais na Europa  parecem não ter ideia o que é o Brasil ou quem são os brasileiros. A pergunta mais comum que ouvi é aonde na Europa o Brasil está? Mas forcando a barra¹, troquei ideias² com as chinesas ao longo dos anos.

Não vejo muita diferença entre o Brasil, países que pertenciam ao segundo bloco e os EUA. Aquela galera que teve acesso a informação decente, ao estudo adequado, a visita a algum outro continente, imigra na paz e sonha com mais. Obviamente todos esses lugares que eu sugeri são enormes e não conseguiram homogeneizar a informação, a educação direita para o sujeito comum.

Muita gente míngua e vai querer sair do buraco a qualquer custo. Nos últimos 20 anos, como num toque de mágica, os governos de todos os lugares implantaram muitas universidades com nomes de pessoas ilustres, de professores, o que uma vez o Luiz Felipe Alencastro, o letrista do Zumbi do Mato chamou de escoloes-fábricas de emprego.  Isso tinha nome antigamente e se chamava escolas técnicas, escolas profissionalizantes. Sim, eram nível de segundo grau. O terceiro grau hoje é nível segundo grau dos anos 50.

Mas será que aqueles que estão peneirando novos assistentes, funcionários, encarregados concordam comigo? Entendem o histórico social e a trilha que vem se moldando nos últimos 100 anos da escola para o emprego? Esse pensamento vem me perturbando silenciosamente há muito tempo. Mas eu não sou a única, desde 2011 diversos jornais na Noruega vem publicando artigos que identificam um problema com o RH das empresas. Eles tem de pouca à má vontade de achar um bom candidato – usaram essa frase com um chamariz para a coluna.

Stavanger inicia 2015 com recessao, nos últimos 6 meses resolveram enxugar a máquina geradora da fábula do petróleo e muita gente perdeu o emprego. Sverre comentou que muita gente de valor está aberta a qualquer tipo de proposta.

Em uma das classes de norueguês que estudei conheci diversos europeus de diversas areas profissionais, todos eles eram formados em engenharia, enfermaria & medicina, e todos falavam bem inglês, viam de mala e cuia procurar emprego aqui. Um chines um dia abriu a boca e disse que não irá haver problema para o contratarem porque ele era o melhor engenheiro do mundo. Falando ele seriamente.

2 semanas depois dessa cartada o mesmo maluco refere-se as mulheres de forma geral como serem inferiores intelectualmente, dignas de pena e amparo masculino. Certamente foi o pior comentário sobre mulheres de toda a minha vida, posso até dizer que a figura do Borat criada pelo artista Sacha Baron Cohen não ultrajara ninguém tao fortemente naquela sala como esse energúmeno.

61BxgDxZlLL._SX258_BO1,204,203,200_Essa besta quadrada logo achou emprego, as vezes culpo a total crenca em si próprio. Encontrava direto com ele no ônibus de manha e quando eu ía buscar o meu filho no jardim e lá ele ía buscar a namorada chinesa que trabalhava nesse creche.

Esse tipo de comportamento nos faz perguntar que tipo de escola formou esse sujeito em engenheiro? Será que não só era um curso técnico? Essa época em questão, 2009 foi o ápice cronológico da chamada de engenheiros para Stavanger como nunca houve antes e acredito que não irá haver mais.

Para muitos daqueles europeus em classe e principalmente para os noruegueses que iriam ter de lidar com esse sujeito, tudo isso é encarado como natural porque ele não era um sujeito ocidental. Já que a mídia coloca entre letras garrafais que ocidente são países de predominância caucasiana e de preferencia protestante.

A imigração pode ser uma experiência positiva e enriquecedora para os próprios imigrantes e para as sociedades de origem e de acolhimento. No entanto, a realidade para muitos imigrantes é discriminação, exploração e abuso. São frequentemente vítimas de apelos ao ódio, perseguição e violência. São objecto de discriminação generalizada. A crise econômica e financeira global agravou a vulnerabilidade dos imigrantes. Muitos países reforçaram as restrições à imigração e adotaram medidas mais rigorosas para combater a imigração irregular com isso pode-se aumentar o risco de exploração e abuso. Neste Dia Internacional dos imigrantes, apelo a todos os governos para proteger os direitos humanos no centro de suas políticas de imigração e promover uma maior sensibilização para a contribuição positiva que os imigrantes fazem para o desenvolvimento económico, social e cultura nos países de acolhimento. “ban ki mom

Ban Ki -Mon, Secretário-Geral da ONU, 18/12/2009.

Na segunda passada houve uma marcha anti-islamizacao em Stavanger. Alguns mulcumanos me perguntaram de que se tratava e quem era o lado forte ou o certo. Já os jornalistas locais acharam um iraniano que simpatizava com a causa. E foi usado pelo grupo. Espero com muita franqueza que o chines tenha voltado para China menos misógino, tratando sua mulher  como ele trataria seu irmão, seu pai ou o seu filho, como um sujeito civilizado dos anos de 2010.


¹: tentar, provar, insistir, teimar.

²: conversar, passar um bom tempo.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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