Tradicao


Nessa virada de ano estou me socializando mais com a uma galera portuguesa. Eles são de diversas partes de Portugal e estão marromeno metade de tempo que eu estou em Stavanger.

Quando eu estava a tanto tempo como eles, conheci um engenheiro aposentado que já havia morado aqui. Ele veio passar um tempo aqui afim de ver a filha e neto. Durante o dia a filha dele me requisitou para dar umas aulas de desenho pra esse senhor. Ficávamos conversando, observando a vida norueguesa, desenhando e ainda tirava o meu troco.

Lá pelas tantas, ele deixou uma impressão sobre a sua própria filha:

– A Ana Carla tem amizades de fazes, iniciou com os noruegueses, depois ficou amiguinha dos brasileiros, agora só quer saber das chilenas.

Elas eram da mesma idade dela e solteiríssimas assim como a Ana Carla. Ele nem se quer me perguntou como eu me dava por aqui, afinal comprometida estava com meus filhos e o meu marido. Seria  até atrevido falar do universo de tipos brasileiros que existem mundo a fora.

Os diretores de cinema norte americanos sabem disso sobre os tipos yanks e permeiam seus bons filmes com tipos norte americanos conhecidos deles lá. O Tarantino vai a caça nos subúrbios infinitos de Los Angeles com bárbaros e urbanos, montados em carros como cavalheiros medievais montavam em cavalos. Já o universo do Woody Allen é um oposto, ele não se sujeita a espelhar outra coisa se não o seu próprio mundo, a classe média. A classe de pessoas que desconhece a textura da Kalashnikov, que pega metrô, que corre no parque, que casa, que está as voltas como problemas de cagar pra religião, só não faz, porque é educada o bastante pra entender que isso faz sentido para outras pessoas.

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os normais

Esse universo woodyalleniano é o que eu habitava no Rio. Como no teatro o cenário é uma alegoria menor, o que pesa mesmo é o texto; entaofacilmente troquemos a neve de Manhattan pelo sol majestoso do Rio e o Jazz pela Bossa. Não só eu, porém todos os meus amigos de lá viviam dentro de um filme do Woody. Boa parte desses meus camaradas eram da EBA, escola de belas artes do Rio de Janeiro.

Um dos estudos do qual eu me empenhei mais na EBA foi sobre o folclore. Pesquisei sobre a Umbanda e dissertei algumas páginas sobre o assunto. Li diversos livros sobre, não havia colher de chá de Wikipédia. As informações básicas sobre isso não batiam. Pelas minhas fontes, a criação da religião fluminense oscilava entre 1808 e 1889, justamente o período coroado do governo na cidade maravilhosa (na internet se disseminou uma única informação sobre a criação e se impregnaram com essa data). Essas fontes minhas eram 70% de livretos, todos sem exceção de editoras desconhecidíssimas, algumas pareciam que só imprimiam textos e livros para divulgar suas práticas, práticas religiosas. E os 30% faltantes foram informações recebidas através de entrevistas com a minha avó e outras pessoas meso-praticantes. Ou seja, um trabalho com fontes imprecisas também.

A única carta na manga que me sobrava era esse domínio de história que é necessário pra a entrada na universidade federal. Eu deveria estar apta para apontar qual foi o pulo do gato, qual foram as maiores influências na concepção dessa instituição religiosa. Eu também tinha um certo domínio sobre a mitologia grega & etrusca, poderia até trançar paralelos múltiplos. Esses que já ocorriam no catolicismo com a infinidade de santos e mártires.

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Maria Magdalena na Cathedral de Sao Joao na Polonia, poderia muito bem achar que era Venus.

Essa questão imitativa das tradições dos etruscos a formação dos cristãos,  tradições romanas que passaram a se ajustar depois de mais de 5 séculos da morte de Cristo, foram passadas de boca. Costumes que foram passados através de festas e não de documentos escritos. Pouco encontrei de leis, modos e costumes afirmados em carta, em documento, do culto da Umbanda por exemplo. Essa manifestação espiritual por uns vistos como pagã, por outros vistos como interseção e ainda outros como solução religiosa de todas essas culturas que se fundem no Rio de Janeiro.

Isso era a minha onda boa no Rio, adorava discutir, intercambiar visões ou fragmentos de conhecimentos com amigos e convívios. O tempo passou e aqui nada se sabe sobre a Umbanda, nunca numa festa ou espaço acadêmico consegui alinhar essa conversa com a galera porque teria que explicar um catatau de coisas antes, jamais saia monopolizando porque fica chato pacas.

E não mais que de repente a Ana Carla me leva ao apê de um arquiteto amigo nosso, um dos muitos aficionados pelo Brasil que conheci por aqui. Ele havia voltado do Rio com um cara que conheceu na Lapa, um instrutor de dança; logo promoveu um workshop de danças afro. Nessa ocasião tive a oportunidade de discursar o tema da Umbanda. Nesse papo o mestre de dança iniciou um workshop de terror.

Ele deve ter crescido como muita gente de zonas enfraquecidas economicamente. Num ambiente imprensado entre paredes de seitas afro descendentes e esses neo-protestantes, ditos pentecostais e evangélicos que sugerem a volta dos piores anos da idade média pro Brasil (!).

O dançarino carregava experiências e explicações um tanto macabras do Candomblé, o que me surtava era a maneira natural com que explorava a conversa, defendendo ser tudo muito normal, todos os assuntos de natureza sexual. Logo depois o papo esquisito desse instrutor de meia tigela descambou, não me lembro porque cargas d’águas, para o que estava acontecendo durante o carnaval, a pílula do esquecimento. Fora publicado que uma garota foi ao médico porque acordou com dor e após ser examinada o laboratório confirmou 12 diferentes tipos de sangue na parede uterina.

– Tá… Vou nessa Ana – Parei de beber e fui pra casa.

Na quinta da semana seguinte houve a segunda reunião da Associação brasileira cultural em Stavanger, que eu e a Ana Carla montávamos, dessa vez estaria a peca chave que movimentaria recursos junto a embaixada. A Ana veio me pegar de carro. Na carona também estavam uma amiga chilena e o dito cujo. Fui no banco de trás com ele. O carro começou a andar e foi como se alguém tivesse posto a agulha num disco de death metal, esse idiota emanava o papo mais funesto pela boca. Dessa vez, me contou que lá em Curitiba ele conheceu uma moca linda, branquinha, muito parecida comigo que largou a família e teve com ele uma louca aventura entre outras merdas.

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Cena do Pulp Ficton que o Vicente destraídamente atira na cabeca do carona… foi um acidente.

Não iria terminar limpando o carro da Ana Carla na garagem do própro Tarantino entao respondi algo que ele não iria entender para tirar o sorriso de Exú da cara desse sujeito

A última vez que estive em Curitiba eu ganhei uns cds da rádio local porque41 eu sabia o nome das bandas da selecao de músicas que havia tocado, uma das bandas era o Extreme.

siira
Tiazinha – uma gíria mais usada em Sao Paulo se referindo pejorativamente a mulheres mais velhas. Como ser mais velha é relativo, o termo abrange mulheres novas que estão fora de forma ou mais velhas que o grupo em questão.

Receava a minha segurança pois pra mim era lógico que o cara era maluco de verdade. Ele mandou aquele caô tétrico que me fez transpirar ódio. Contudo me concentrava obstinadamente na Ana Carla e nos papeis que eu havia escrito durante a semana para mostrar a advogada. O cara não parou de falar asneira na reunião. A tiazinha que havia concedido o lugar emburacou (gastou uma grana) na associação, mais tarde fui saber que ele havia se mudado pra casa dela e não estava mais com o arquiteto. Consegui mostrar a advogada quais eram minhas idéias e vendi meu peixe. Mas infelizmente a associação não foi pra frente. A tiazinha pôs esse maluco a frente do setor cultural, eu e a Ana Carla descambamos. Encontrei com a Ana Carla um mês depois na chocolataria do centro:

a fofoca

– Aí, Flavia! … Tá voltando pro Brasil.

– Graças a Deus, já vai tarde.

– Na cara dura ele foi pra cama com uma outra lá. A tiazinha me contou que só a comia por trás; toda triste porque foi traída.

– E vc está me contando, pode? O cara faz um estrago desses sem saber falar “como vai vc?” em inglês… ou em português.

PS: Esse cara aparentemente nunca mais posou por aqui. Ele se vendia como fosse o dançarino mais famoso do Brasil, aonde realmente há dançarinos profissionalíssimos, entretanto ele era só mais um atleta de rua. Era um tanto ofensivo o seu uso do português, concordâncias eram abstraídas, denunciando que ele não havia completado a escola primária. Depois de ter ouvido o verde que ele tentou me jogar compreendi por total o que aconteceu em Surpresas que na época não atinava muito bem quão imbecil certas garotas podem ser ou simplesmente entender a opcao pelo mau gosto mesmo. Dei por mim que eu tenho corpo fechado.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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