A realidade versus romance


Procurar trabalho é o meu inferno pessoal. Estive em muitos trampos temporários mais conhecidos como freelances. Não trabalhe com criação, a não ser que vc tenha costas quentes.

Na Noruega as costas congelaram de vez. Um dos únicos bizus que eu tive foi com o Otto, ele me assegurou ser guia no ONS. O Otto era um cara que eu gostaria muito de ter conhecido melhor mas ele morreu de câncer como a minha mae um par de anos depois.

No ONS eu conheci bastante gente do Rio e da Noruega, aonde firmei contatos que mal ou bem foram ou serão cartas do morto. Pra uma vida com mais trampos pela frente ou simplesmente mais rica socialmente. Entre todas as pessoas com bagagem de uma coisa ou outra, me esbarrei com uma baiano que morava em Sandnes. Sua aparência me causava verdadeiro horror, o tipo de cara que combina perfeitamente com a descrição social do bandidinho-de-merda que o Capote fez do Richard Hickock.

O Ricky era um cara que teve pai e mae mas nunca dinheiro. Pelas contas do livro ele arrasou com a vida dos pais, das duas esposas, dos 5 filhos e a do Perry Smith, que matou a família Clutter. Sim os dois eram desajustados, mas o Perry foi um cachorro sem dono a vida inteira, enquanto você se pergunta da onde veio o desajuste de Hickock. A sociedade formou o psicopata Perry, que se acionado como se aciona um botao seria mortal, mortal como uma arma ou como um cão. Hickock era pior. Ninguém estava o acionando, ele acionava o pior nas pessoas.

hickock
Richard Hickock

Pouco depois do ONS, o cara com pinta de bandido fora convidado a se retirar da Noruega e voltar a seu país de origem ou teria que cumprir um tempo na cadeia aqui. Ele preferiu voltar para a Bahia e esquecer da família que havia constituído na Europa. Havia saído uma pequena nota do jornal de Sandnes de um estrangeiro que em dia de semana aos berros e embriagado causava distúrbio e barulho no bairro que morava.

Muitos anos depois eu conheci um paraguaio que havia morado na Bahia. Esse sujeito falava português com sotaque baiano ratificando sua larga estadia no nordeste. Muitos paraguaios que conversei em ocasiões diversas nas ruas do Rio, ou centros culturais da minha cidade desenvolviam um português mais parecido com o do Paraná, o mesmo ocorria com os uruguaios que tem o português todo moldado ao estilo gaúcho.

A vida desse sujeito que não se limitou ao seu país e quiz aprender mais, viver mais em outros cantos do planeta era menos previsível que a do baiano. E da segunda vez que tive com esse cara ele me contou o seguinte:

– Acredito que voce nao tenha conhecido esse moco que trabalha comigo em Salvador, ele morava aqui, costuma falar mal da Noruega. Não gosto muito dele, mas ele é o cara no hostel que eu trampo.

Por que voce nao gosta assim tanto dele? – eu clamava por bizarrices

– Porque ele vacila muito com todo mundo, não serei eu sua próxima vítima. A última que eu até achei engraçada é que ele havia ganho um dinheiro de uma moca norte-americana para comprar um apartamento em Pituacu, não fez. Comprou uma casa numa praia distante pra caramba. Achava que estava fazendo jogo, levou um esporro da mulher. Mas ele disse que estava tudo bem porque sempre há mulheres e mulheres mais velhas. E ele fica nessa, por isso trabalha num hostel.

O moco que esse paraguaio se refiria era o mesmo cara que foi expulso da Noruega. Eu nao sei se essa estória que ele me contou do nada é verdade, mas tendo conhecido por um dia aquela pessoa e pelo modo que ela se portava, essas informações casam muito bem.

Não acredito que aquele paraíba (desculpe-me o termo) trate bem as mulheres, talvez trate melhor mulheres brancas com dinheiro do que mulheres mestiças e pobres como ele, lá da onde ele vem. Entendo que muita gente tem seus hábitos, manias, anseios, gostos sexuais. Não vejo nada de errado sair do standart. Mas eu sei o quanto o resto do grupo ao qual voce pertence irá ver voce de um modo diferente depois que vc admitir sua preferencia & seu modus sexual. Estamos presos a tribo que nos concebeu, como havia deliberado no post pro Theddy.

Essa semana em meio ao carnaval no Brasil e o resto do mundo que mal aguenta esperar pelo sábado perfumado de cherry cola do dia Sao Valentin, os americanos enfiam goela abaixo um filme de um livro tolo. Pra qualquer um que esteja as voltas com boa literatura isso é mais uma das piadas do século XXI, a média virou machiatto, o angu virou polenta, e a Sabrina virou 50 tons de cinza.

A Izabela ilustra de tal forma:

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50 tons de cinza poster do filme que estreia amanha

“Eu tinha 11 anos quando um amigo de sala trazia Sabrina e ficava lendo as passagens mais sexuais no intervalo da escola e debochando da literatura decadente. Onze anos!!! Quinta série! 

O estilo de literatura do livro foi batizado de pornografia de dona de casa, todas as minhas conhecidas brasileiras e norueguesas que gostam desse livro não fogem a regra. Mas fiquem vocês com as palavras do Sensacionalista, que consideraria uma das melhores sínteses da obra :

“Essa coisa de sadomasoquismo-light parece algo como conhecer Paris no Epcot Center

O que difere a obra da realidade é que as personagens são perfeitas. O cara é rico, poderoso, forte, inteligente; ela é nova,  despretendida, graciosa e educada. Na vida real somos gordos, desesperados, doentes, pobres, fracos, etc…

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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