O urso dorme


A minha mae me faz muita falta. Cada passo certo meu é uma espécie de agradecimento por tudo que ela me ensinou. Esse ano irá fazer dez anos de sua partida.

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Finalmente esquiei pela primeira vez. Sabia da dificuldade daquilo. A concentracao era ineficaz. É preciso experimentar, o presente me dá de bandeja essa oportunidade, o futuro continua incerto, e por essa incerteza optei me envolver logo de uma vez.

Tivemos que nos deslocar até a província vizinha, cerca de 100km de distancia daqui. Lá a neve cobria tudo como se fosse um manto de Chantilly. Para os turistas esquiadores de Sirdal esse esporte é uma das mais importantes atividades familiares. Purificar a cabeça da poluição do trabalho burocrático e moldar um corpo esbelto.

Sirdal até meados do século XX era distrito de Tonstad. A emancipação de Sirdal se dá pelo estatus do esporte e o próprio crescimento do polo tecnológico de Stavanger. Antes desse sortudo episódio d’ouro negro¹ nessa região, não havia assim tanto do tempo livre. E Sirdal era menor, não passavam de 500 habitantes por todo o vale. Houve um descarado aumento que oscila entre 1500 e 2000 habitantes nos últimos 50 anos. Mas há 100 anos atrás não passavam de 100 habitantes. Esses que ali se encontravam nesse lugar ermo, geralmente eram mulheres e velhos. A vida provincial aqui era regrada a maneira religiosa e essa era a mais radical de toda a península.

Pela localizacao geografica misturou-se conceitos puritanos proveniente da Escócia e luteranos da Alemanha. Tantos os germanicos como parte dos britanicos faziam parte da rota comercial de Hansen que desaguava em Bergen do qual tratei brevemente no post “Pintura sujeita a especulações“.

Nessa época se as mulheres engravidassem, indiferente a violência que poderiam ter sofrido, se anciões não encontrassem mais espaço de trabalho nas vilas e fazendas, se crianças fossem banidas por não se adaptarem a ordem de conduta, todos terminariam nas casas batizadas pelos ingleses como “Working houses“. Eram verdadeiras prisões, aonde seus internos cuidavam uns dos outros e aos aptos (menos maltrapilhos, menos maltratados) seria designado a busca de mantimentos como pedintes. As working houses tinham também suas filiais no campo ou afastadas do centro. Obviamente havia gente que fugia dessa vida nefasta e tentava a sorte na floresta fria dos vales mais obscuros. Não era fácil a vida na neve.

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“Birkiebeiner” – uma pintura ultra-romântica nacional norueguesa 1880, militantes da coroa norueguesa em Nídaros, atual Trondheim escoltam o infante e futuro Rei pelas serras a fim salva guarda-lo contra as forcas da Igreja Romana. Nídaros seria o último reino Europeu que aderiu a cristianização por volta de 1260.

O esqui além de ajudar na movimentação e o trenó no transporte de cargas era mais uma ferramenta de proteção distanciando o contato direto da neve com o seu calcado feito a mao que sabe lá quanto tempo iria durar. Novamente nos anos 60, aonde se deu uma longa lista de inovações quando não, revoluções, o homem chegou a lua. Pra mim o mais interessante dessa história foi a confecção da roupa do astronauta que deveria atender disparates de temperatura Kelvin.

O mais frio que se registrou em Sirdal foi menos 33 graus em 1983. O mais quente que eu sobrevivi no Rio foi 48 graus. Ambas as ocasiões, o ar condicionado e as roupas acolchoadas estavam a nossa disposição. Antigamente não havia essa moleza.

Tantas eram as atrocidades da vida em plena Revolução industrial. A fome batia a porta no inverno. As pessoas do século XIX moradoras de Sirdal, passavam as noites curtindo coro, unindo peles e fiando lä na confecção de roupas e acessórios para o ambiente, para uma proteção contra o frio. Eles tentavam ser autônomos com disciplina, que o frio e a fonte de energia limitada requerem, mesmo que a sociedade já houvesse os taxado de indisciplinados, se não esses, seus progenitores.

E como em todos os cantos do planeta, os problemas não param aí, ainda existe a fauna. Lá pequenos carnívoros encontraram também um lugar protegido da ira, da loucura dos homens. Hoje existe a proteção aos lobos mas há grupos que ainda defendem a volta da caca desse animal. O rio que corta o vale era rico em vários tipos de Ørret (truta) que alimentava os predadores e os poucos habitantes faziam dessa caca uma fonte econômica. Hoje apenas um dos tipos de truta lá se acha. A caca de peixes, aves & mamíferos é controlada pelo governo desde dos ano 70.

Quando a caca nao era controlada pelo governo muita coisa deve ter escorrido para a Inglaterra. Numa pequena publicação de 1907 do Aftenblad que eu li em 2007 na coluna de publicações aniversariantes de 100 anos, siddianos comemoraram no Torget (Largo da Sé) a chegada de uma caravana de caçadores que havia abatido um grande urso na localidade de Bjerkheim. Justamente, essa vila se localiza exatamente na metade do percurso entre Stavanger & Tonstad.

Até hoje nao vi uma data concreta do extermínio dos ursos marrons na Noruega. Acredito mesmo que deve ter sido na década de 1910. Nessa década a caca já havia se tornado um esporte popular, a manufatura e consumo de armas estava ao alcance da classe média e a acessibilidade à serra era sem igual. Os primeiros carros chegavam a Stavanger da Alemanha e o governo se cocava pra atender a demanda de estradas melhorzinhas. Não havia saída para os ursos.

Os ursos sao presas mais fáceis do que podemos imaginar. O inverno era a melhor ocasião pra abatê-los. Eles durmiam e de uma certa distancia com um bom número de caçadores, todos atiravam com seus rifles. Os caes ficavam de guarda. É dito também que antes dos rifles, homens abatiam ursos com caes e facas apenas. Com rifles e esquis a vida do caçador se tornará uma água de coco.

Uma antiga música de ninar norueguesa:

Bjørnen sover, bjørnen sover i sitt lune hi. Den er ikke farlig, bare vi går varlig. Men man kan jo men man kan jo aldri være trygg. (Os ursos dormem, os ursos dormem no seu abrigo escondido. Não tem perigo, vai de vagarinho. A gente pode, mas nunca estamos realmente seguros.)tumblr_m61xmfzdEV1qiu8k8o3_250

Andava morro acima mais rápido que os meus filhos com esqui, porém ladeira a baixo era impossível, os ski tem uma velocidade impressionante. Na segunda vez eu consegui um grande progresso, a minha cunhada me perguntou se eu iria notificar meus parentes na minha primeira investida nesse esporte.

– Nao. Receio nao ser interesse deles.


Dividiria o final de semana com a minha mae,
aonde ela participava da minha vida como se fosse uma extensão da dela.


¹) petróleo

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias biologia, cultura saber, memóriasTags, , , , , , , , , , , , , , , , , , 4 Comentários

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