O mundo casto


Em 1988 eu passei a estudar no Colégio Marista Sao José da rua Barao de Mesquita, na mesma avenida algumas quadras a baixo se encontra o Colégio Militar. Os 2 educandários até tinham muitos professores em comum.

Pra mim muita coisa mudou quando eu fui para o chamado externato, o colégio Marista localizado na Conde de Bomfim era chamado de internato, isso perdurava até pelo menos 1991 quando saí dessa instituição. O fato de ter a liberdade de ir a pé até à escola era um momento mastercard – não havia preco. Para se chegar ao internato só havia 2 maneiras, transporte público ou os ônibus do colégio que botavam 3 crianças em cada banco! Sem agente disciplinar, ou seja, sem qualquer adulto amparando as crianças dentro do veículo caso ocorresse algo desgovernado. Mas a frota não era pequena, havia cerca de 20 ônibus no estacionamento ao lado do pequeno zoológico do colégio que se estendia a Floresta da Tijuca. colegio-marista-7

Mas voce pode pensar será que essas crianças todas não tinham pais que a pudessem levar ou pegar na escola? Pais eram proíbidos de entrarem nas dependências estudantis da instituição. À esses era reservado um canto ao lado do Teatro do colégio caso viessem pegar ou deixar alunos. Clamava ao meu pai para fazer isso. Um dia ele veio me pegar. Foi aí que eu reparei que das poucas crianças que tiravam a onda de não usar o transporte marista, essas tinham maes cheias de maquiagem, que fumavam e usavam salto alto; uma delas chegou pra mim e disse:

– hei, aquele ali é o seu motorista? – quando o meu pai assenava chamando pra eu entrar no carro.

Não voltei a pedir ao meu pai uma besteira dessas, que havia me dado um trabalho do cão, fora que o transporte marista já estava embutido nas contas da escola para gente pagar. Passei a pedir pra trocar de colégio, ir para o Batista Shepard porque era o colégio mais próximo de casa. Minha mae me respondeu que esse era o único colégio na Tijuca que eu nunca iria estudar. Ela havia examinado o currículo das instituições e em um par de anos ela me perguntaria o que eu achava dos meus colegas maristas ou dos meus camaradas do prédio que estudaram no batista.

Realmente, os anos passaram, se tornara impossível desenvolver uma idéia com algum aluno Batista, eles pareciam até gente boa eu não saberia dizer. Já com um aluno Marista nada era impossível. A diferença era a seguinte, o aluno marista podia ser o que fôr contudo era preparado academicamente.


Um dia daqueles que antecede o Carnaval onde a maior parte da turma enforca a aula, os professores fazem das aulas uma espécie de roda de conversa.

Nesses raros movimentos pedagógicos um aluno encorajou a debater sobre a Aids. Não me lembro o que os alunos disseram, mas eu fiquei estarrecida com a posição do professor de biologia. O comentário que ele fez, sorriu e repetiu foi o seguinte:

– Panela velha é que faz comida boa…

camisinha-grc3a1tis-nos-hotc3a9is-e-motc3a9is1Ele até explicou isso, ele era um cara novo. Deveria estar casado a um par de anos, como bem comentara. Ele referiá-se que ali no final dos anos 80 estava deflagrado uma nova era e de quebra muito provavelmente a volta da repressão sexual, ao qual a Aids era a grande culpada. Voces são/serão a geração da camisinha. De fato que já se confeccionara tal ferramenta, mas consumida como irá ser nos anos 90, nunca fora. Ele alimentava também a idéia de que eliminar parceiros e manter monogamia seria melhor e mais salutar, pois a camisinha não era infalível.

Poderia ter concordado com ele, mas não acreditava nele de jeito nenhum. È como ele dissesse pra ele mesmo manter a monogamia na vida dele e nada tinha a ver com a gente. Era como tentar manter a dieta casta resumida a comida perfeita de frutas, legumes e cereais, diante de tantos doces coloridos e fabulosos na sua frente que nada fazem de bom ao seu corpo e ainda dao dor de barriga. Ele se entregava.5e91c67a3fc94b01ae35b777f3171a5f

Depois pensei como era difícil um dia desses para um professor. Ele acaba observando ou dividindo algo pessoal com os alunos. Diga-se de passagem os alunos mais canalhas que eu tive prazer e desprazer de conhecer na minha vida. Talvez ele estava só refletindo a filosofia do colégio com medo de represálias dos irmaos maristas.

No ano seguinte ele não estava mais lá. Entao foi a vez do prof. de matemática fazer a roda viva. E eu acho que como um ex-aluno-marista esse era infinitamente mais esperto pra desenvolver uma estória com a galera dali. Novamente alguém sugeriu o tema relação de namorados. E o professor contou uma passagem da vida dele igual eu escrevo aqui no WordPress.

Seus pais tinham uma casa em Paty de Alferes, ao lado da casa morava uma menina da mesma idade dele, a mesma idade da gente, só que 30 anos antes no túnel do tempo. Ele via a garota ali do lado da casa dele sempre, um dia passaram a conversar, no terceiro dia de conversa o pai dele chamou ele e disse pra ele não mais VER a garota. Ele discutiu com o pai, pois estava muito feliz fazendo o que estava fazendo. O pai alugou a casa e logo ele ficou proibido de visitar o local com outros conhecidos um bom tempo. E ele termina dizendo:

– Era assim os anos 50 com os tijucanos. Não só as mocas, mas os rapazes éramos excessivamente castos. Eu obedecia o meu pai.

Eu como a turma nos sentimos uma mescla de pena do prof. e valorizacao da nossa liberdade contemporânea. Ele se amargava completamente de ter obdecido o pai dele, 16 anos nao sao a mesma coisa que 23 anos. E no caso, ele não estava tentando dirigir, beber ou fumar, mas se sociabilizar quicá, amar.


PS: O Colégio Marista Sao José só passa a admitir meninas em 1978, 5 anos antes de eu iniciar nessa escola. Já o colégio militar foi em meados dos anos 90.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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6 comentários sobre “O mundo casto”

  1. É engraçado como você tem muito mais histórias da época do colégio do que eu. Eu até lembro coisas da Escola Técnica, mas antes disso, do Bahiense, não lembro de muita coisa. A história do professor de matemática é ótima.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pois é Luiz, desde do ínicio eu queria me lembrar mais da minha época na EBA, mas é como nada tivesse rolado que realmente fosse dramático ou cômico. Nada.

    Esse prof. de matemática era fino como o Sverre, eu tive a sorte de te-lo 2 anos nesse colegio, ele era neto de alemaes. Eu nao me lembro se era Paty & Miguel Pereira a casa dele, mas é fácil confundir essas cidades. Mesmo assim fico boba comigo mesmo da riqueza de detalhes que ainda preservo na minha cabeça de coisas que somam muitos anos.

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