Somos todos abelhas


Os no mundo se voltaram pra Brasil, eles vieram de pouquinho em pouquinho e agora parece car no nosso país. Um monte de documentários são feitos, esses dias vi um de médio custo e com pouca sintonia com o social, economia e história. Ver um documentário desses não é muito diferente de ver uma revista de moda. Eram boas imagens com o tema principal da violência.

Vocês, bons leitores, devem estar logo comparando a um efeito Jornal o Dia nesse documentário. Vcs estão certos. E enquadrava a guerra das drogas – que não é igual as guerras que estudamos nas escolas, aonde o inimigo tem uma outra língua, um outro uniforme, etc… – enquadrava uma série de gírias e expressões daquela vida carioca que distanciava ainda mais o interlocutor com aqueles “primatas” observados.

O jornalista, fotografo e idealizador dessa série de documentários, falava um espanhol capenga, se comunicaria fácil em qualquer meio com a língua catalã. Já no Rio não absorvia nada da forma vulgar do português local usada e exigida entre os mais humildes da classe social da base da pirâmide. Ele estava acompanhado de um jornalista carioca que fazia as interpretações, mas esse não subia à favela ou ía pra Baixada. Aliás termos, como Baixada & senzala não foram submetidos a uma tradução, porque não há palavra correlacionada em inglês ou muito menos em norueguês.

Lá pelas tantas, ele extraiu uma muito boa de uma senhora até simpática: “Não é guerra de traficante com polícia e da sociedade contra a favela. Eles querem tirar a gente, mas não somos bobos não. A gente sabe o quanto isso aqui vale…”

Aquela senhora moradora da favela tem um espaço que construiu ilegalmente e bem mais caro do que se a mesma casa fosse feita industrialmente, ainda por cima ocupa sem infra estrutura, desvalorizando o local, faz um rombo nas contas do município com a energia que ela consome de graça, abrindo de vez para esses investidores canalhérrimos entrem como salvadores da pátria para os governantes e arrematam o espaço dela no futuro.

Cruzada 1980
Por volta de 1980

Engraçado que no dia anterior eu havia postado isso aqui abreviado:

O conjunto habitacional criado por Dom Helder Câmara parece uma colmeia em pé mesmo. Quando eu vi uma foto publicada por um arquivo de fotos antigas pensei que fosse aquelas gavetas de criação de abelhas e as crianças sem noção circulavam numa fazenda de apicultura provavelmente em um lugar tipo Jacarepágua. Pois seria difícil ter tido um tipo de fazenda dessas no séc. XX na zona urbana da minha antiga cidade. Mas era só um defeito ou efeito de escala olhando a foto através da tela do computador.

Procurei checar o que as pessoas responderiam a foto, se tiveram a mesma impressão com o tamanho dos objetos capturados pelo fotógrafo. Logo a famosa expressão “favela vertical” causou um certo auê nos comentários e pode-se dizer também que não são muitas as “favelas verticais” no Rio.

Por mais que muita coisa esteja mudando, a senzala ainda existe no Brasil. Neguino não quer pobre no meio do bairro bom, faz o serviço do pobre, só isso. É um serviço merda, ganha-se mal e ainda tem que se despencar da puta que pariu, é phoda. Quando o porteiro do seu prédio for um dentista aposentado, quando o menino do supermercado for um estudante de administração, quando a moca que faz suas unhas tiver uma sociedade empresarial com a cabelereira e a faxineira, ninguém será mais favelado, vamos todos viver melhor, inclusive com menos recessão e mais produção.

Cruzada-1958
Cruzada-1958

As condições das favelas verticais no Rio deveriam passar, como em qualquer outro edifício da cidade, pela mãos dos órgãos que cuidam do bem estar da galera. Eu realmente não sei se esses órgãos existem no Rio, se eles tem algum controle da população ou se tem alguma meta. Já os condôminos devem prever e requerer novas e úteis prioridades para renovação do ambiente junto aos órgãos do munícipio e estado.

Por isso que emperra. Fica todo mundo trabalhando e com muito pouco tempo de se insurgir contra o sistema que embola o meio de campo. Somo todos abelhas.

favelas praia do pinto
Favela do Pinto margendo a lagoa e alguns prédios da Cruzada já erguidos

‪Flavia Q. deu o pitaco dela lá:

”Nesse lugar havia uma favela chamada Praia do Pinto que se estendia até aonde ergue-se hoje o condomínio conhecido como Selva de Pedra.

Houve um grande incêndio que durou dias com o intuito criminoso de extirpar a favela. Construíram esses prédios no local e outros, no mesmo estilo, em Jacarepaguá, para onde foi realocada a maioria dos moradores desabrigados. Esse “acidente” é que deu origem ao conjunto da Cidade de Deus, com as casas e os Apês .

‪

cruzada 2006
cruzada 2010

Atualmente mora todo tipo de gente na Cruzada, como em qualquer favela do Rio. Mas eu considero um fardo para o bairro, pois há tráfico de crack e tem vários assaltantes da região que moram lá. (…).

‪Agora, com a obra do metrô, costumo passar de bicicleta por ela, pra cortar caminho, mas os moradores não gostam, ficam xingando olhando torto e gritando pra não entrar lá, do mesmo jeito que o pessoal de fora desse ambiente faz com eles quando passeiam pela calçada e até na praia.
”

Havia também uma favela no corte do Cantagalo antes de cortarem a pedra, que seus moradores também foram pra lá. Nessa época saiu até uma marchinha de carnaval que o meu pai sempre repete quando o governo quer tirar a forca os moradores de construções ilegais pra porem em objetos arquitetônicos feitos por empresas privadas: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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