Turista acidental


Nesse final de semana tentei ir à um mercado de pulgas em Eiganes, o bairro mais elegante de Stavanger. Corrigindo, fora assim antes da segunda guerra mundial.

Chegamos atrasadas. Uma senhora lá loira na antipatia disse que as atividades estavam encerradas. Na volta passamos pelos jardins de Breidablikk. Um papelzinho colado no vidro da mansão convidava as pessoas a visitar o local, apenas aberto aos domingos.

No dia seguinte, chegamos cedo, numa chuva triste que eliminava as folhas vermelhas, laranjas e amarelas das árvores do lado de fora. Na sala com livros havia uma mulher infinitamente mais antipática que a loira de sábado. Estressada estava na arrumação destes que chegavam sem cessar. Mostrava uma total falta de interesse daquele trabalho.

A minha filha propôs a visita imediata ao Breidablikk. E um mar de roupas e livros dos anos 2000 irão ficar encalhados até serem recolhidos pelas autoridades competentes. Quando chegamos à porta da velha casa de madeira, um menino muito simpático veio amavelmente nos dar um caloroso bem-vindo.

A residência de Breidablikk foi construída em 1881 pela família aristocrática Berentsen. O edifício oferece uma visão do modo burguês de vida na Belle Epoque e da arquitetura eclética em Stavanger. A fachada é moldada no estilo suíço romântico e pseudogótico. O interior é um ótimo exemplo para observação de movimentos históricos de estilo, com móveis do estilo eclético como novo rococó e pecas do art nouveau e art deco.

O menino que ali trabalhava não tardou em dizer que aquele espaço era o melhor museu de Stavanger. Viria a conferir que ele era muito otimista ou deveria estar no ramo de vendas e não de pesquisa e conservação.

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Lars

O cara que mandou construir a casa se chamava Lars. Ele é o exemplo do aristocrata do século XIX. Não me assustaria se descobrisse que ele era também maçom. Seu cunhado era inglês, seu ritmo de logística era com afiliações britânicas. Deveria ter dedo dele em praticamente todas as firmas que a industria pesqueira depende. Isso significa que na produção de cordas e teias, na escola do menino-artesão, na extração de gelo em Trondheim, na fabricação de barcos, na manufatura de vasos e barris para peixe, em todas essas áreas ele era o dono de pelo menos uma fábrica em Stavanger. Havia naturalmente outros grandes homens como ele, em que pai fora um desbravador e seus descendentes continuaram o mesmo trabalho. Mas esse Lars dominava tanto a cena, talvez por manter seus status religiosos imaculados de qualquer episódio imoral, que nomearam o cara para prefeito da cidade e mais tarde representante em Oslo.

Lars teve 4 filhos com Hendrikka num casamente que durou quase 30 anos. A filha mais velha casou mas veio a falecer de pneumonia na mesma época que o filho do Lars do seu segundo casamento nasceu. Elisa, sua segunda esposa passou a morar vizinha a Breidablikk depois da viuvêz, numa casa mais antiga e menor, contudo mais cheia de vida e de visitas. Só viria a falecer com 94 anos, dois anos antes do falecimento de Olga, a filha de Lars e última a apagar as luzes da residência.

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Erik

Erik era dois anos mais novo que sua madrasta, que apenas morou um curto espaço de tempo nesse palacete. Esse filho mais velho de Lars viveu junto as suas irmãs conservando esse patrimônio não apenas como uma herança cara, mas como memória do seu pai. É dito que Erik, Olga e a caçula não resolveram participar de nenhum projeto familiar privado.

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“Turista Acidental” failia do personage de Willian Hurt

Se eu não estiver enganada no filme “Turista acidental” com Willim Hurt no qual a trama envolve uma familia bem semelhante aos Berentsen. Hurt protagoniza um escritor de turismo, ele vai à Londres e Paris para desenvolver suas criticas chatas desses lugares maneiros. Numa certa cena do filme, Davis que protagoniza a antítese de Hurt, vai à casa da família dele. A irmã mais nova cuidava da casa e fazia comida pra os irmãos todos os dias!!!!!!!!!! Confrontando a personagem de Davis que gosta de rock e usa maquiagem com uma que se sente confortável em ser tradicional.

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Locacao “Accidental Tourist”

Por mais que eu ficasse atenta aos infindáveis detalhes artísticos, essa cena do filme, naquele ambiente era pertinente.

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Olga e a irma mais nova que falecera 10 anos antes dela. Foto datando de 1903

Chegando a cozinha de Breidablikk me deparei com um fogão da classe média. Poderia ser dos anos 30, mas era tão novo, tão limpo e inutilizado que desconfiava que era dos anos 50 mesmo. Se realmente só depois da guerra a Olga adquiriu aquele eletrodoméstico, ela já estava muito velhinha para poder manuseá-lo diariamente. É dito que esses 3 irmaos mantinham tudo conforme o modo tradicional. Quando o Erik faleceu, no meio da segunda grande guerra, o estilo de vida daquelas senhoras teve que mudar um pouco.

Olga parece que estava completamente sozinha no final de sua vida, além disso, suas condições economicas deveriam estar abaladas já que quem tomava a frente das decisoes adniministrativas da familia fora o Erik. Mesmo assim, ela teria de ter alguém com o compromisso de confeccionar a janta diariamente. Alguém que “cozinhasse para fora” e trouxesse a marmita todas as tardes à casa dessa anciã. Bem como muitos noruegueses ela deve ter vivido de pão e torradas com frios diversos por anos a fio.

Pode até haver muitas coisas ruins na Noruega e muitas coisas boas no Brasil, mas o que diferencia mesmo é como nos últimos 50 anos a Noruega que ainda nao era rica, passou a dar um olhar muito sério a vida da sua população idosa. Aparar arestas para um modo de vida mais independente daqueles que nao deveriam sempre ser independentes assim e ainda por cima sem familiares.

Fico boba em pensar que as comidas-prontas disponíveis no supermercado daqui atualmente tem uma qualidade excelente. Seriam a solucao para eliminacao quase que total de uma empregada doméstica. Nao há comida-pronta disponível no Brasil que se possa oferecer às crianças, aos excepcionais e aos idosos, ou que os mesmos possam fazer sozinhos.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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