Conservacao comunal do império vermelho


Ontem foi um dia de muitos papos, ali e acolá, com gente conhecida, com gente desconhecida. Os dias de agito cultural em Stavanger são as quintas de outono.

Dessa vez participei do “Debate sobre o Futuro”, assim se chamava o evento, onde se reunia Helge, presidente do conselho municipal de Desenvolvimento Urbano, Eric político do partido de vertente centro (SV), Alexandria (arquiteta e presidente da Associação de Arquitetos de Stavanger) e Torunn Roux (cronista do jornal mais importante de Rogaland). Eles estavam ali a convite de um membro da Casa de Cultura de Stavanger, chamada Sølvberg, para discutir os empreendimentos urbanos atuais e as modificações crescentes dessa cidade nos últimos 50 anos, o que valorizamos, o que é prioritário.

Eu já havia estado em alguns encontros na Solvberg, que é uma espécie de Biblioteca Nacional & CCBB juntos. Encontros que geralmente envolvem lideranças políticas e artísticas; além dos cidadãos engajados.

Outra meta era por pingos no “i”s da mobilidade urbana e conversar mesmo para que cheguemos em algum lugar quanto a fabricação de moradia de acordo com o gosto local e as normas de preservação do imóvel.

Um senhor apontou que achava seu novo apartamento imperfeito, sobretudo no parâmetro de receber visitas. Ele foi arquiteto e urbanista nos anos 60, viveu como muita gente daquela época numa casa mais um pouquinho afastada do centro, aonde tinha espaço de sobra pra receber gente e tinha sua área verde privada. Andava de carro todo santo dia. Foi entao proposto que ele revisse se no seu condominio era ofertado o playground e salao de festas. Talvez ele nao soubesse dessa proposta ou estava tímido de usar esse facilitador. Já muito comum no Rio. Antes esse senhor cuidava do jardim, aparava a grama o verao inteiro e antes do 17 de maio tinha que pintar a casa. Agora está livre de tudo isso.

A idealização do homem que luta por um conjunto de coisas privadas está em completa decadência. O negócio agora é a revalorização da funcionalidade do que é comunal – comunal é cômodo.

A primeiríssima a apontar de leve essa discussão foi a arquiteta. Ela mostrou dados de pesquisa na qual o político Helge admitiu ignorar na grande maioria das suas considerações. Eu já acho fundamental. Ela falou que há um trend das pessoas e mesmo famílias virem morar no centro, ou mais próximo do centro de Stavanger, é uma moda a nível de mundo.

campus ullandhaug
UIS

A discussão ficou forte quando alguém tocou no assunto da Universidade da cidade (UIS) que tende a crescer e construir mais edifícios, tanto de pesquisa, quanto de moradia para os seus internos. A Universidade ocupa um espaço bom, acho muito difícil medir os espaços ocupados pelas universidades mundo a fora, por que são muitos critérios a serem adotados e é tudo muito relativo, como a arquiteta bem respondeu da mesmíssima maneira. Contudo adiantou, ela, que 50% do campus é usado apenas para estacionamento. Ela mediu isso no intuito de ter o que falar sobre o tema campus universitário caso viesse a tona. E veio, já que todo mundo tá afim de morar mais centralmente. Ela lembrou que dentre 10.000 alunos apenas 700 moram nas investidas imobiliárias da instituição, isso quer dizer que ao ver dela era necessário mais moradia estudantil, que é um passo a mais para liberação do tráfico de veículos desnecessários na hora do rush.

Possivelmente a pessoa mais velha na audiência era uma senhora beirando a idade de 80. O palpite dela foi levado com grande seriedade sobretudo pelos políticos. Eu particularmente achei que não havia resposta adequada a dar à senhora, simplesmente não há. Ela gostaria de saber se vai ser possível plantar para a auto suficiência – firme & forte com a filosofia de sustentabilidade. A outra pergunta dela era sobre os hotéis adotarem um espaço para os estudantes morarem temporariamente. Já que há um grande congestionamento nos hotéis em feiras ligadas a indústria do petróleo que apenas ocorrem no verão. No longo período de inverno os hotéis ficam as moscas. É ela estava falando diretamente com os políticos que tem o dever de pressionar os empresários, afinal são eles que estão com a faca na mão pra dividir o queijo que todo mundo produz.

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Ryfylkegate/ Storhoug øst – a rua que eu ando todo os dias a caminho do centro. White Chapel de Stavanger

Aliás todo mundo que levantou pra perguntar era aposentado, os mesmos que estariam no palco se a conversa fosse 30, 40 anos atrás. Eu não me levantei, gostaria muito de rever as demolições que foram feitas no meu bairro tao heteregeneo urbanamente, os planos de simplesmente apagarem a história da industria mens glamurosa de Stavanger. É de dar dó. Podem ser prédios velhos, arquitetura caixote pra você, porém pra mim são clássicos demais de uma específica era, e o pior, parece só ter um de cada tipo. Um exclusivo que mostra muito bem a vida do sujeito que trabalhava  naquela determinada era.

A resposta que eu ouço por aí, é que a conservação é mais cara que a produção de um novo edifício. Realmente não me interessa, porque reproduzir aquilo antigo que foi demolido é infinitamente mais caro e disfuncional. Aquela arquiteta presente tinha salvou um pequeno armazém em Oslo com cerca de 200 anos.red-brick

Muitas das vezes, esse material e seus mestres de obras eram importados da Inglaterra, assim como aconteceu no Rio, que é bem mais longe. Os tijolinhos simbolizam a revolução industrial britânica e o imperialismo. Todos os lugares que tiveram os dedo desses caras, tiveram um armazém onde suas paredes eram dos tijolinhos vermelhos e aonde os lobos (selvagens) não conseguiriam nunca derrubar.

James Orchard Halliwell-Phillipps
James Orchard Halliwell-Phillipps

James Orchard Halliwell-Phillipps é tido como o cara que lançou o conto dos “3 porquinhos”, muitas das vezes atribuído aos irmãos Grimm ou Andersen. Mesmo porque, sendo ele um pesquisador literário, ele deve ter modificado ao gosto vitoriano um conto folclórico de outro lugar, outra pessoa(s). O material de construção que é a maior alegoria do clássico. Aonde o lobo é derrotado, sua arma não vence a eficácia da construção adequada. Os outros porquinhos são os outros todos europeus que moravam e ainda moram em casas de madeira, ou os índios em casas de palha.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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