A maldicao nos tornozelos das babushkas


Uma conhecida norte-americana, poeta, desabafa da seguinte maneira para seus amigos do outro lado do Atlântico:

The fact that Norwegians have a word for together-livers, while Americans just call them living-in-sinners, probably has something to do ex-patriotism and ex-citizenry. – Em 27 de agosto de 2014 às 15:01hs – Cohabitant is not exactly a “kosy” word, is it? Meet my cohabitant… nah.

– I like partner. Probably not poetic but sounds like you are doing life together. Work partner, you do work with. Life partner, you do life with. But I am hopelessly un-poetic and literal. 
- ‪Kelly deixa sua melhor opinião finalmente às 
15:26hs.

40 minutos depois eu entro, meio acanhada, nessa conversa. Comentei do uso mais que correto e comum na minha língua, a palavra “companheiro” que pode-se usar em inglês “company”. Por sua vez, lembrei que essa palavra também já era usada na antiga Roma e significa literalmente aqueles que dividem o pão. Baseado nisso, da cultura latina, a lei tomou forca no Brasil. Não entrei em detalhes na linha de comentários da Ren porque eu não tenho toda as informações sobre a lei. Só eu acho que a “vida a dois/divisão de bens” deveria ser o tipo de coisa mais discutida em sala de aula. Pois é coisa de gênio chegar e saber formular uma pergunta sobre o qual será o meu futuro depois do meu futuro, tá longe demais pra cabeça dos adolescentes…

ParqueCentenrio
Parque Centenario na Cinelandia, depois da demolicao do convento D’ajuda e antes da construcao do edificio Amarelinho, a Camara Municipal e o Odeon. Existia esse Tivoli aonde o meu tataravo tinha um snackbar

Meus tataravós viviam juntos, mas nunca foram casados. Assim um dia lá minha avó me falou, pois eu, exclusivamente eu, estava muito querendo saber mais sobre eles. É um trabalho arqueológico, quase. Eles tiveram uma casa de pastos, que abordei sobre em “Tataravós”. Graças ao trabalho dela como como ama de um médico muito rico na última década do século XIX, é que eles puderam custear aquele espaço privilegiado do centro da cidade. Após a morte do seu marido, o Joaquim, ela dividira tudo entre todos os seus 7 filhos homens e seu filho mais velho, o Antônio, ficou para tomar conta dela e ela a tomar conta de suas netas, Alzira, Célia & Elza.

Pode ter havido mais de uma coisa pra que não houvesse uma oficialização dessa união. Um, o lance dela ter ficado grávida sedo demais, dando uma resposta visual da sua imersão na vida conjugal. A outra, é dela não ter sido batizada ou não ter feito a tal da primeira comunhão já observados na “Experiência da dona Maria”; ela era impura para as normas religiosas d’outrora. Por essas razoes também, o seu filho mais velho e meu bisavô optou por participar da religião carioca, a Umbanda e se desconectar da Católica Apostólica Romana.

daytime-dresses-1910 Há uma estória que a minha avó contava sobre ele. Que ele no trabalho no bonde da companhia Light ficava o dia inteiro tentando ver as pernas das mocas e senhoras que entravam no bonde. Era uma dificuldade, afinal de contas, ele era quem guiava o bonde, e ao invés de tomar conta do trânsito de veículos e pedestres, ficava de olho no subir das donzelas no bonde. Pra evitar tropeços as mocas levantavam a saia e mostravam o tornozelo. E mesmo assim o tornozelo de uma moca de família, no calor colossal do Rio de janeiro, era coberto com meia! Na década 1910 fora revolucionário deixar o tornozelo a amostra, assim como a minissaia foi para os anos 60. O seu Antônio Pinto de Souza, por exemplo, não chegou a ver a minissaia.f01150ace8b12f950aa03b2565cf249d

E volte e meia ele arranjava uma namorada. Numa dessas ele pediu para ver o tornozelo de uma lá e encontrou uma grande cicatriz – terminou com a moca no dia seguinte. Ele é a personagem mais antiga da minha família que mais documentos consegui e conservo.

Com o dossiê que ganhei de presente da própria Light, que hoje também tem um museu aonde conserva todo um arquivo sobre os empregados e até um jornal interno, me fez ver que o seu Antônio estreou no trabalho com apenas 19 anos. Com 21 ele casou com a minha bisavó que não tinha cicatriz nenhuma. A minha avó termina a estória dizendo que foi ela quem pagou pela maldição encomendada da dona da cicatriz e ex-namorada do pai dela.

– Como assim vovó? – eu costumava perguntar.

– Quando a minha avó se mudou pra Ramos, o quintal era um roçado, eu tropecei e me arranhei o tornozelo em alguma planta. Meu erro foi tentar esconder que havia me machucado – coisa de criança, a dona Alzira explica – a ferida ficou marcada pra sempre.

Quando a Katarina tinha cerca de 4 meses eu passei por uma porta pesada de uma loja com o carrinho também pesado e também antigo. O gancho da porta pregou no meu tornozelo como se fosse um pregador de clips gigante. Com muita dor fui andado para casa que ficava a 1200m do local. Em casa ao retirar a meia cheia de sangue, notei a perfuração e o estrago que o gancho de uma porta pesada havia me feito. Cerca de 6 meses depois fui ao cirurgião plástico que tratava das minhas queloides no Rio, ele disse que aquela nova queloide no tornozelo poderia estar bem pior pois havia enganchado no nervo e se eu não tivesse andado mesmo mancando de volta pra casa, eu talvez também não estaria andando agora.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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