Ela, a Hiperemese Gravídica


cachinhos de ouro com 12
Cachinhos de Ouro com 12 anos

Da cozinha para sala uma vez ele me chamou pra sentar na mesinha azul, ele acabava de fazer mingau de maizena, que levava de tudo. Aquilo era mesmo um creme de baunilha, doce, corpulento que engordaria as crianças da África oriental, eu não precisava. Sem muita vontade de encarar aquilo, meu pai me falou que aquele preparado feito com todo amor podia me deixar loura! “Você não vê esse pessoal loiro dos filmes e dos livros, eles comiam muito mingau quando eram crianças.” Na dúvida, aceitei sem contrariar meu pai, que ficava todo feliz em me alimentar.

cachinhos deouro com 33 anos
Cachinhos de ouro com 33 anos

Nunca mais toquei no assunto com o meu pai sobre o mingau. Acho que ele deve ter feito mais vezes, mas agradeci a oferta dizendo que eu mesmo poderia me arranjar. Com o tempo eu aprendi que aquilo me engordaria muito. Mais um pouquinho depois estudaria que mingau nenhum mudaria a minha genética. Eu não teria nem cabelos lisos nem loiros se não fosse ao cabelereiro. Lá também, seria bem capaz de ouvir outras pérolas como essa do meu pai.

Nessa época mesmo, passeando pelo playground do Edifício Palácio de Buckington alguma criança achou uma casca de uma cigarra. Eu peguei a paradinha, era a tal da ecdise que eu tinha aprendido na escola no ano anterior. Ali estava uma cigarra toda branquinha sem carne, sem a sirene.

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exesqueleto da cigarra

Eu e meu irmão mostramos ao meu pai que comentou o seguinte:

– A cigarra canta tanto que explode!  – eu estou rindo até agora. Não consigo figurar muito bem se é o lance do meu pai ter dito algo estúpido ou a idéia que as cigarras se suicidarem com a sua própria ópera.

Daqui pra frente não esperaria mais conselhos do meu pai, eu tinha que me preparar pra ajudá-lo no futuro.

Meu futuro chegou na Noruega, e logo que cheguei a esse porto tão distante fiquei grávida. Eu não tinha prática, pois nunca havia ficado grávida antes, e o pior, não tinha praticamente nenhum conhecimento teórico que não fosse aquilo visto em filmes ou, mais ou menos, abordados por todos em conversas.

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Tratamento para uma mulher considerada bruxa no século XVIII

Acredito que foi um dos momentos menos divertidos da minha vida, mas não foi traumático. Eu estive indisposta por 9 meses consecutivos e ininterruptos. Vomitei 3 vezes em média por dia. Houve dias que vomitei 10 vezes todas as cores do arco íris, contudo houve pelo menos 3 dias que não vomitei nada. Era uma situação igual você mostrar uma alergia a algum tipo de comida ou estar de ressaca por ter misturado fermentados com destilados. Se eu estivesse trabalhando no Brasil eu perderia o emprego de imediato. Se eu vivesse aqui em Rogaland antes de 1814, os moradores dos vilarejos teriam requisitado a minha morte, alegando bruxaria, por não fazer nada o dia inteiro.

Em julho daquele ano que tive a Katarina voltei ao Rio. Nesse pequeno intervalo atmosférico, ganhei peso, pois eu havia perdido 5 quilos nos 5 meses iniciais. Encontrei com 3 pessoas que disseram coisas que nunca mais esqueci:

– Flavia, você ganhou peso nesse mês que esteve aqui no Rio. Tem comido mingau do papai? – Ginecologista amiga da minha mãe. Resolvi nunca mais voltar lá.

– Você teve Hiperemese gravídica. Deveria ter sido diagnosticada no início, agora aconselho que não faça nada, isso realmente pode desaparecer. Os enjoos significam que você está produzindo leite. – Meu tio um obstetra famoso.

– Poxa, Flavia, você está grávida! Que merda… você não vai poder beber nem fumar com a gente. – Joao Mors.

Não deixei de encontrar com o Joao ou ir a Matriz. Definitivamente foi o mês de gravidez mais ativo meu e também passei a comer. Nessa saída falei que me encontrava escrava dos enjoos e talvez uma visita à noite carioca me libertasse disso, pois lá estaria ambientada. Falei também do terror que seria se estivesse nesse perrengue sozinha, se me dessem qualquer remédio contra aquilo que me torturava eu seria capaz de aceitar. Talvez não, se você acha que uma boa educação e cultura geral podem realmente salvar as pessoas da auto medicação ou o infortúnio do envenenamento.

Joao lembrou bem sobre o remédio distribuído no Brasil criado na Alemanha, a talidomida.

“A talidomida esteve no mercado pela primeira vez na Alemanha em (…) 1957. Foi comercializada como um sedativo e hipnótico com poucos efeitos colaterais. A indústria farmacêutica que a desenvolveu acreditava que o medicamento era tão seguro que era propício para prescrever a mulheres grávidas, para combater enjoos matinais.

Foi rapidamente prescrita a milhares de mulheres e espalhada para todas as partes do mundo (46 países), sem circular no mercado norte-americano.” – extraído da Wikipédia.

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A farmaceutica norte americana

Em 1960 passa a dirigir o Conselho de Comida & Medicamentos dos EUA (Food and Drug Administration – FDA) Frances Kathleen Oldham Kelsey (1914 -). A primeira mulher a dirigir essa instituição. Ela era farmacêutica e deve ter tido um pressentimento. Negou de imediato a distribuição dessa droga nos EUA.

Pressentimento é o ato de sentir instintivamente e idealizar uma hipótese sobre o que pode acontecer. A minha mãe pensava assim principalmente em termos econômicos. Ela dizia que sem pressentimento todo estudo dela não valeria de nada. Ela também mostrou visíveis marcas de diferença quando ficou grávida de mim. Seu cabelo de louro ficou tão escuro quanto o meu é.

A cerca de 3 anos atrás contei tudo isso a uma amiga portuguesa que acabava de se mudar para Rogaland com a mesma idade que eu tinha quando me mudei. Ela é psicóloga e entende que a hiperemese gravídica foi uma forma de cabala espiritual do qual eu retirei do meu corpo tudo de impuro que carreguei muitos anos no Brasil para renascer em solo nórdico. Tanto que deixei de ter alergia ao camarão e aos frutos do mar e passei a mergulhar no mar salgado sem qualquer problema, apenas depois que eu tive a Katarina.

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“Saturno devorando seu filho”. Pintura de Francisco Goya, 1819 Na verdade Saturno devorou e vomitou todos os seu fihos. Uma estória belíssima de tao sinistra.
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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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8 comentários sobre “Ela, a Hiperemese Gravídica”

  1. Nao te contei nao? Aqui em Rogaland, fylker – regiao, aonde Stavanger é a capital, culturalmente era a área mais crista fundamentalista da Noruega antigamente. O biscopado católico foi praticamente inexistente, nao fundaram escolas aqui, como em Bergen houveram. Acredito que no século XIX muitos já eram presbiterianos tanto quanto havia luteranos. Mas do século XVI até a constituicao da Noruega existir, queimavam direto as “bruxas”. Aquele moco que estava no museu da sardinha quando nós visitamos ele conta bem essa história e passeia pelo centro da cidade falando sobre isso. Matavam qualquer mulher de bobeira. Era só criar um motivo.

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