Pilha errada


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Christal Fighters provenientes da Espanha

“I love London” de Christal Fighters.

Super aconselho a ouvirem essa musiquinha, cheia de graça, cheia de balanco, cheia de sotaque do inglês macarrônico que domina o globo. Essa expressão “macarrônico” é do James Joyce. Ora-ora ele era irlandês mas ficava naquele combate de todos dias pra aprender o francês & o italiano lá nesses países que morou boa parte de sua vida adulta.

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Dr. Esperanto num selo comemorativo dos anos 60

Eu só li um livro dele que foi editado depois da morte dele. Era uma carta para o seu neto, aonde ele usa do seu estilo, porém sem abusar. E essa palavrinha também tá lá. Ele criou esse negócio de criar palavras, ele, o Gil também usa & o Ludwik Lejzer Zamenhof, mais conhecido como Dr. Esperanto.

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Gil & Inês na cena descrita no texto, dirigida por Woody Allen

Sou mesmo daquele tipo, talvez influenciada pelos respectivos acima, que acha que a humanidade se torna mais sábia, mais cheia de graça se assim que se forca a mergulhar num ambiente totalmente diferente do que está acostumado. Mas os tupiniquins de cada canto, de cada cultura abominam essa idéia. E é patético quando caem na trama de ser objeto de tal possiblidade, viajar e conhecer culturas. Sempre quotizando Wood Allen, não quero perder esse tique, no filme “Midnight in Paris” a personagem Inês faz a maior cara enfurecida e diz:

– Nunca que vou morar fora dos Estados Unidos da América.

Saca isso, frère? Como não querer morar em Paris!!!!!????? Pois é, tem um mucado de gente assim. Agora imagine você se não é Paris, mas o Rio de Janeiro, essa gente deve preferir a morte. Felizmente, a praia não fica tão entupida assim.

A cerca de 5 anos atrás, fiz um curso privado para aprimorar as minhas noções na língua norueguesa. Das 5 piores professoras que que tive na vida 2 delas foram norueguesas, elas não só eram fracas na pedagogia como na cultura geral. Pessoas que parecem ter sido jogadas pra escanteio em sua monótonas vidas por não usarem o tal do sorriso. Saem do trabalho pra casa e de casa para o trabalho e acham que é assim que tem que ser com todo mundo.

Essa segunda professora norueguesa fez a questão de lavar na nossa cara que seu filho estudava medicina na Hungria, ganhava salário norueguês, escola e benefícios pagos pelo governo norueguês, pra aprimorar o seus estudos num país que historicamente tem uma medicina mais avançada que a nacional. Tudo custeado por nós que pagamos impostos mas que é quase impossível ter essa mordomia a nosso favor de volta, por causa do nosso “norueguês” deficiente.

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Anette Olsen – formanda de medicina a procura de estágio

Esse ano uma garota (loura-magra-nova), reclamou que mandara 40 requerimentos para estágio em hospitais sendo médica formada.  Michael, eles nao ligaram pra ela!  Só porque ela estudou medicina na Polonia e desde o momento que a analise de currículos da Noruega mudou radicalmente preferindo graduados em solo Noruegues, ela se sente descriminada. E ainda por cima a moca tem filhos, isso nao ajuda muito na sua carreira, ela fica com horários limitados. No regime atual, confeccionado pelos partidos de direita (Høyre & FRP), qualquer um que manuseie a lista de candidatos `a vaga deva dar preferencia àqueles que tem estudo & competência apenas na Noruega. Nao há concursos por meio de provas na Noruega, apesar que tem se levantado essa questão por aqui.

Mudando um pouco de assunto. Você já ouviu o termo “the Pale of Settlement”? Em português seria, a zona de assentamento judeu. Isso foi criado por Catarina, a Grande, em 1791, para remover os judeus da Rússia inteiramente – pra czarina os judeus obdeciam outras leis e deveriam ser tratados como estranjeiros, a menos que se convertessem a religião do Estado e as leis da Russia. As razões para a sua criação foram principalmente econômicas e nacionalistas.

Eu só descobri isso quando reli o manuscrito da peca “A dança dos Vampiros”. Lá pelas tantas, o que era comum na época (séc. XIX) e aparece sútil no filme do Polanski, o pai da Sahra usava a empregada eslava como escrava branca. Eles moravam numa vila judia. A empregada, como muitas garotas de famílias pobres eslavas, iam procurar trabalhar lá porque não haviam achado emprego com outros eslavos. Agora pense você, as norueguesas trabalhando em lojas de hortifrútis dos turcos nesses bairros guetos de Oslo ou as meninas do Leblon como empregadas dos nordestinos mestiços na favela. Ruim de engolir. Forcaram os judeus a se mudar, e eles mudaram, muitos vieram para os EUA & Brasil como avó do Woody Allen ou a mae da Clarice Lispector; ou foram para Alemanha. Na WWII esse antissemitismo tomou uma nova e ainda mais forte impulsão.

“…acho os noruegueses em sua grande maioria uns mimados. Concordo que rola imigrante demais e refugiado demais, mas acho que eles tem que tomar um sacode, aprender a fazer o próprio matpakke*. Acho um SACO esse monte de matérias contando sobre como e difícil ir morar num hybel*; vai se foder! Difícil(…) é pegar o 485 lotado ate o teto, mijar em pé no banheiro da faculdade porque nao dá pra usar o banheiro (…).“ Retrucou a Glenda uma vez.

Me apavora essa direita plantar sementinha errada todo santo dia. Eles exaltam o que uma garota loura pode passar, imagina neguinho que não é.

O negócio é não deixar a peteca cair, quantas vezes eu não percebo adolescentes ou mesmo adultos tomarem um certo cuidado comigo, só porque eu venho de um país que não é nem a Dinamarca, nem a Suécia, Islândia, Inglaterra ou EUA.

A flor do deserto nessa aridez é justamente saber mais um pouco da cultura deles, ou diferentes aspectos que eles nao dao atenção. Só sentar num bar e responder questionários de jornais ou se envolver em jogos de perguntas e respostas dos pubs.

Numa dessas, quando eu bebia café com uma amiga eslava, ao nosso lado duas típicas norueguesas bebiam suas cervejas e respondiam um questionário sobre a Monarquia. Conseguiram errar todas e errariam a última que tomei a dianteira respondendo:

– “Maud!” Herre Gud*. – E é claro que a minha amiga ficou rindo e comentou comigo:
– Fica ruim mesmo nem saber o nome da sua própria primeira rainha norueguesa da Noruega moderna.

– Mudando de tópico… Voce já estudou alguma coisa sobre The pale of Settlement quando estava na escola lá na Moldávia?

– Sim, eles faziam sabao dos judeus. – Adela responde

oucth!

Só a cultura pode mudar isso.

MATPAKKE: merenda

HYBBEL: quitinete

HERRE GUD: caceta

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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3 comentários sobre “Pilha errada”

  1. Muito bom! E viva o Imperialismo… Dos que emigravam há 100 anos atrás. Tenho ouvido muitos comentários absurdos do tipo: Não temos espaço para abrigar os refugiados. Mas voltando ao tema, você acha mesmo que se aprofundar na história e cultura deles (e língua) faz com que a maioria nos valorize? Eu tenho a impressão que impressiona sim, mas 1 ou 2. Porque a maioria continua não tendo o menor interesse em FALAR conosco.

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  2. Marcela, excelente iniciativa de abrir o espaço pra discussão, porque eu não posso dizer que eu tenha uma resposta quadrada pra coisa, eu não estou guarnecida com nenhuma fórmula pra dar certo ou não. Por todo o blog acabo caindo na mesma tecla, só a educação e cultura salvam; refletindo talvez na única coisa que verdadeiramente eu acredite…

    Mas voltando ao caso ali das norueguesas, é o seguinte, seria fácil dizer que eu estudei isso ou aquilo e não acreditarem, por isso eu mostro o que eu sei quando dá, é como fosse um tapa sem mao.

    Sobre integração, interação dos estrangeiros com os noruegueses, que apenas há pouco se interagem entre si, enquanto não saberem o mínimo da cultura de um e do outro, não vai rolar.

    Quando eu chego no pub Martinique sempre tem mesa pra mim, falo com geral por lá, sou uma cara conhecida. Mas em qualquer outro lugar tenho que estar com o norueguês afiado pra responder certas perguntas insolentes, principalmente quando se fala de musica… um papo pra outra hora. Assim como no Brasil existe mercado confeccionado pela tv, dizendo o que vc deve gostar, não é o meu perfil…

    Ainda, imperialismo, o Brasil se fosse mais peitudo…, somos 250 milhões de pessoas falando português todos os dias já estaria fazendo imperialismo por aí. Aqui são menos de 5 milhões contando os outros 2 países vai pra 30 milhões. Eu faço o que posso pra aprender mais das línguas escandinavas e ter maior visualização da informação.

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