A experiencia da Dona Maria


–       E aí, Maria? Estás empolgada pra conhecer o Brasil? – perguntou Joaquim.

MI 1913-01-12 emigrantes portugueses
Emigrantes portugueses no cais do Porto

–       Sim & não. Estou dando graças a Deus que lá não tem inverno, então não vai faltar couve para o sopa. Mas e os negros?? Tenho medo. Como nascem escuros? Como Deus fez os assim? – respondeu Maria no porto de Porto. (Eu sempre quis escrever essa frase. Sim, porque é ridícula.)

Ano passado escrevi tudo que pesquisei sobre o Joaquim. difícil achar o passaporte deles, aí parei um pouco. O passaporte é o documento-chave para poder achar os nomes dos pais deles. Pode ainda haver uma luz no fim do túnel se conseguir ver algum documento arquivado de batismo ou da instituição de ensino do Joaquim se um dia visitar o Porto ou de uma maneira mais razoável através da internet.

A Maria nunca teve o prazer de ter frequentado a escola. Vai vendo, talvez ela própria não fora batizada. Especulando. Dá, por sua vez, a uma margem enorme de resultados que seriam por exemplo: o pai ter se suicidado ou a mãe ter sido violentada, e assim vai… (barreiras que a Igreja adorava montar – porque aparentemente a vida dos outros parece fácil).

Casa de Manhufe-Amadeo Souza-Cardoso
Amarante

Quase impossível saber sobre a vida da Maria através de documentos apenas, ainda sim acho que tenho o bastante para montar uma cena sobre essa personagem da minha árvore genealógica. Entre todas as tataravós, ela conseguiu manter alguma espécie de relação comigo através de um laco fortíssimo com sua primeira neta. Todas as outras não conheceram seus netos, os meus avós. No caso da Maria ele recontou algumas experiências próprias repetidamente para sua neta primogênita, a Dona Alzira, que contou para mim, também sua neta primogênita.

Outra grande aquisição as pesquisas são as obras de arte e literatura dessa época, desses lugares. O livro “As Cidades e as Serras” do Eca de Queiroz é uma mina para estudar quem eram o Joaquim e a Maria. O livro se passa em 1900 cravado, tendo sido lançado na verdade depois da morte do autor no ano seguinte pelo seus editores e amigos. Adendo, saindo já de nossa conversa, Eca & Oscar Wilde viviam em Paris saudosistas de suas pátrias e línguas e morreram em Paris no mesmo ano de 1900.

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Eca de Queiroz

Eca descreve os homens de boas famílias, da classe dominante na Serra, como desapegados a igreja, sendo isso ainda sim um esporte das tias, mães, avós e das classes menos favorecidas, sobretudo intelectualmente. São extremamente virilizados, enquanto os homens das cidades pelo stress, poluição – dentro de um estereótipo mesmo – estão afetados e desapegados ao exercício sexual. Parecia não haver qualquer problema pra o “Zé Fernandes” (aquele que protagoniza o português filho da Serra da Estrela da classe abastada) se envolver em um relacionamento com uma camponesa, fora do seu quadro social. No caso do “Jacinto”, antes residente em Paris, parecia impensado tal aproximação. Aqui uma observação que Eca, no melhor do estilo Eclético, faz sobre as mulheres da classe operária da serra:

– Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha! – Pulei, imensamente divertido: – Ó Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?…

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Emile Bernard “A woman washing herself” from 1888

O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a moça… Que olhos, dum negro tão líquido e sério! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que graça de Ninfa latina!

E apenas pela porta desaparecera a esplêndida aparição:

– Ó Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma coisa!… Que olhos, que corpo… Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra…

O meu Príncipe sorria, com sinceridade:

– Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta… Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto… Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou… Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo… são porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso.

E a Dona Maria e o seu Joaquim deram no pé dessas circunstâncias acima dramatizadas pelo maior expoente literário da Belle Époque portuguesa.

aspecto do mercado semanal norte de portugal
aspecto do mercado semanal norte de portugal 1910

O avô da minha avó nunca de violência usou, claro. E a tataravó minha nunca foi considerada uma vaca. Aliás o que aconteceu bem foi que ela subiu honrosamente o seu estatus na sociedade e ele ficou como standart da classe média urbana e burguesa carioca.

Em 1888 o Brasil estava com a política de porta abertas para os caucasianos livres e saudáveis. E já iniciava nos EUA uma espécie de intervenção na chegada de tanta gente fugida das rígidas regras de costumes, principalmente, costumes religiosos. Boa parte das igrejas norueguesas ainda guardam como uma espécie de souvenir dessa época de diferenças sociais abissais, os nomes das famílias nos bancos da igreja. Aonde os ricos se sentavam harmoniosos e os pobres se espremiam numa espécie de curral no fundo da igreja – mal se ouvia o apostolado.

No Rio, a Dona Maria morou nas imediações do Estácio, na rua Maria José 66, vizinha a primeira sede do América Futebol Clube – um bairro classe média alta na época. Provavelmente numa casa antiga pra época, com quintal aonde cultivava alguma espécie de parreira, ervas e, é claro, couve ora pro caldo verde, ora acompanhando o feijoada.

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Acesso da linha férrea aonde seria a estacao da Praia Formosa nas imediacoes da Francisco Bicalho. Hoje, aonde essa foto foi tirada, já está tudo modificado e esse requício de trilho deve estar soterrado ou jogado fora. Irao erguer edíficios lá nessa febre empreendorista da Copa e dos Jogos Olímpicos.

Minha avó me disse que diariamente sua avó cruzava aonde era linha do trem na Praça da Bandeira. O que ela iria fazer ali? Seria algum mercado de peixe ou mercado com iguarias portuguesas? Ela andava então cerca de 5km, ida e volta, no todo.

Nesse trajeto, em pleno sol de janeiro, ela se machucou e ainda por cima estava no oitavo mês de gravidez do seu Antonio, o meu bisavô (nascido em fev. 1889). Minha avó conta que ela dizia ter ficado horas ali sentada numa sombra com uma cesta pesada tentando pensar como ela iria andar tudo de volta, ainda mais subida.

De repente surgiu um negro, com um ferro enorme no pescoço, apenas usando um short de algodão todo surrado. Ao invés dela chamar por ajuda, fingiu que não era com ela. É agora, “miséria sempre vem acompanhada”, se lembrava dessa cena como o maior medo que já havia vivido; até:

– Não tenha medo, sinhá – disse o ex-escravo, enquanto a examinava. Rasgou parte da bermuda que vestia, ficando ainda mais curta, pois seria muito desrespeitoso rasgar a saia da moca. Pegou umas folhas que cresciam silvestres naquele mesmo lugar que estava sentada, deu uma cuspida, amarrou tudo bem firme no machucado e disse pra ela respirar fundo, levantar e ir andar aos pouquinhos. Se ficasse ali parada não iria curar e ainda prejudicar.

Ela se levantou devagar, olhou para o amarradiço, quando se lembrou de agradecer o negro, nem a poeira dele estava mais lá.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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12 comentários sobre “A experiencia da Dona Maria”

  1. Adorei a história. Minha mãe (sua tia-avó) é a cacula dessa família e foi criada por sua Avó Maria Pinto de Souza. Também já me contou várias passagens da sua vida com Ela.
    Tem hoje uma boa formação moral e espiritual graças a Ela. Também curto isso de ancestrais e estou adorando seus artigos. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

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