Camelo


De volta de Oslo pelo trem uma voz metálica feminina anunciava as estacoes de desova de passageiros. Os nomes são incríveis e realmente caem muito bem pra os moveis do IKEA. A língua escandinava é bem diferente do inglês e quando ela anunciava a mesma frase em inglês que o trem se aproxima da estação tal, a sua performance em pronunciar o nome do lugar voltava pra a fonética norueguesa. Não era assim nos tempos dos protetorados ingleses. Beijing passou a ser Pequim, porque os ingleses acharam melhor ou porque eles achavam difícil falar “Beijing” e saía “Pequim”.

O que faz eu lembrar desse lance dos bichos muito comum em outros protetorados ingleses no Norte da África. 

A primeira vez que eu ouvir falar da diferença entre camelos deve ter sido por volta de 1978/79. Minha mãe havia comprado um saquinho com animais daqueles tipos de bichos que todas as crianças conhecem, mas só dá mesmo pra ver ao vivo se você for num bom zoológico. Esses animais sempre são Africanos, além dos camelos, os outros eram: o gorila, o leão, a zebra, a girafa e o elefante.

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brinquedo

Minha mãe, como ser normal, comprou e deu o brinquedo. Sua tarefa terminava ali, ela já iniciava outra no intuito de ganhar o dia. Meu pai sentou com a gente, observava como brincávamos. Tentou nos ensinar qual era o nome dos bichos, todos eram familiares com exceção do camelo asiático. Este não apenas mostrava a diferença brutal para os olhos das crianças no número das corcovas como também na pelanca do pescoço.

Eu cresci sabendo então que os 2 são camelos, o de 2 corcovas é o dito asiático. Mas será que essa terminologia estava certa?

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Camelos

1985 foi a primeira vez mesmo que notei que a maioria dos meus próximos faziam real distinção dos camelos para os Dromedários. Não dei um pio, a minha presença não era muito querida na escola que estudava, então porque atiçar as onças com varas curtas? Enquete seria uma solução que me acompanhou até o ano de 2000.

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Nesses 15 anos anteriores a Wikipédia, a primeiríssima coisa que fiz depois da aula naquele dia foi ver os Dicionários Ilustrados da Melhoramentos edição de 1969. Eu não tenho mais esses livros, ficaram para o meu irmão, porque eu mudei de país, mas essa coleção foi uns dos livros que mais manuseei na minha vida, sinto ainda como os tivesse na estante. Ilustrado, porque cada um tinha cerca de 4 páginas coloridas com desenhos, e outras fotos perdidas, poucas e pequenas em PB pra ilustrar certas coisas, como o próprio caso dos camelos. O Dromedário (Camelus dromedarius) pela edição do dicionário da Melhoramentos de 1969 tem de fato 1 corcova. E o Camelo-bactriano, duas.

A certeza das pessoas que um é Camelo e outro Dromedário meio que me assusta. Aonde e quando foi dado essa info? Fui perguntar ao meu pai.

–       Eu tive um conhecido lá na Penha. Ele era árabe e me disse que tem haver com os ingleses renomearem os bichos da maneira deles lá. Esse mesmo cara que me disse que o povo deles chamam os dromedários, só de CAMELO.

–       E o outro camelo?

–       Eu não sei. Dever ser também chamado de camelo, mas os ingleses não gostavam de pronunciar o camelo tipo tal.

Como esses papos de Dromedários e Camelos nunca surgiram, nunca foi matéria de vestibular, nunca se perdeu tempo ou esquentaram o Chopp com essa discussão, então de vez em quando muito eu me dava conta dessa parada. Passaram-se os anos num piscar de olhos, e eu estava fazendo foto I na EBA (Escola de Belas Artes), fui acompanhada de uma amiga de DIPV (desenho industrial – produção visual) tirar foto no Zoo a conselho da Andrea Capella pelas enormes variedades de texturas. Contei esse histórico aqui acima grafado sobre Camelos, pra ela não me deixar esquecer de visitar a parte desses bicho exótico e conferir o que postaram na plaquinha. A mesmíssima coisa estava escrita nas placas do Zoo – RIO do que publicaram no velho dicionário da minha mãe, inclusive a Lhama tava junto, ela é da família dos camelos.

Aí, dei como encerrada a sessão.

Na Noruega em fim, vendo um programa de tv com Sverre, na época que estava muito mal, uma ressaca fudida, conhecida simplesmente como enjoos de gravidez, o locutor manda essa:

–       Qual desses é o Camelo?

–       Os 2 são camelos. – eu respondi

–      Você não pode saber mais que a Tevê, Flavia. – O Sverre me dá um chega-pra-lá.

–       A questão não é saber mais que a TV. A questão é saber o que está disseminado.

O disseminado (“broadcasted” a discussão se deu em inglês) não estava no vocabulário do meu marido, até estava, mas não com a mesma ênfase. E ele contou em forma de pilheria pro pai dele no outro dia. O pai muito calmo, muito convicto como leite é branco, camelos têm duas corcovas me disse, e mais que imediatamente, abriu o dicionário vagaba dos anos 50 norueguês e lá afirmava o mesmo.

Em uns instantes comentei partes do histórico sobre camelos.

Anos e anos passaram e o Arne foi visitar o Egito e a Líbia. Ele volta com um sorriso grande na cara para me dizer que aquela minha estória era real, os ingleses realmente fizeram essa trapalhada com a nomenclatura dos árabes com os bichos deles lá. Ele & a Liv tiveram um guia na excursão deles que sempre dizia aos turistas que todos são camelos.

As pessoas acreditam nas próprias fontes, acreditam demais, porque gostam dessas fontes, fontes que não são instituições sérias, não são livros, ou muito menos algo ligada ao estudo. Acreditam porque confiam. Confiança que existe por causa do carisma que essas fontes ofertam. Suas fontes, de tudo que você acredita pode ser os seus progenitores, a doce professora da escola primária, a tv indiscutivelmente, a sua fé ou o governo que rege. Mas qualé o certo mesmo? Aonde está a fonte certa? Será que todas as fontes já estão poluídas?hermeneutica

Não estão tanto. Todas as fontes são boas a princípio mas não são infalíveis. Mesmo a tevê passa coisas incríveis que se precisa peneirar e procurar saber mais, pra não minguar-se na superficialidade das coisas.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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Um comentário sobre “Camelo”

  1. ISSO é a internet, com essas foto que tem como cabecalho uma idéia alarmista. A pessoa gosta da foto, já vai dando ok, nem para pra pensar se é certo/correto ou nao.

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