O cronograma


Sempre tive amigos no Rio que vivem de fazer comentários sarcásticos sobre acontecimentos bizarros da nossa Terra Brasilis. Parece que é defesa diante da impraticabilidade de contra-atacar. Uma vez um determinado cara no Aeroporto Internacional do Galeão agia dessa forma e bradava em alto e bom som seus comentários.

recreio
O paraíso chamado Recreio

Em outubro de 2008 o nosso voo via Air France estava marcado para as 5 horas da tarde. Saíamos do Recreio logicamente 1 hora da tarde. Nós não dormimos tarde na noite anterior; nós não fomos a praia naquele dia de viagem, mesmo que o dia estivesse agradabilíssimo; nós pulamos o lanche mais sugestivo da padaria na esquina da nossa rua de frente pro marzão para aceitarmos aquela comida de rodoviária que o aeroporto teve a coragem de fazer licitação. Em fim, obedecemos o cronograma que diz estar pelo menos com 2 horas de antecedência no aeroporto antes de voos internacionais. Aeroportos maiores como é o próprio caso do Galeão, é sugerido estar com 3hs de antecedência!

As 4:45 h o aeroporto e a firma Air France já se desculpavam muito pelo atraso que estava por acontecer. Usávamos enquanto isso bem o tempo, eu sempre estou com um livro a tiracolo. Espera pra mim não é problema é tempo dado para leitura e fotografia.

Os meus filhos brincavam de pique com outras crianças e começaram os adultos a se perguntarem por que dessa espera toda. Cada hora falavam um troço: estão reabastecendo a nave, não – virá outra conexão de SP, não – alguém muito importante da primeira classe estará nesse voo e ainda não chegou… Aí, neguinho já saiu malhando socialmente a hierarquia da América Católica com toda a razão. Mas ainda não era a resposta certa desse teste de múltipla escolha. Finalmente vazou a verdade: o puto do comandante francês não havia chegado ao aeroporto e estava preso no trânsito da Linha vermelha! Oh, mon Dieu.

Eu estava me divertindo. A cada nova apresentação de desculpa das empresas havia aquela distribuição de ataques reivindicativos pelo tempo chato de espera pelos passageiros da Air France. O estrangeiros de forma geral quietos e resolutos que tudo era um problema brasileiro, das condições brasileiras. Esse carioca, quiçá fluminense, moreno, magro, com barriga de chopp e usando óculos que engana uma certa competência numa carreira acadêmica, não parava quieto. Uma piadinha atrás da outra oscilações raivosas e sem paciência. Até a hora que chegou o dito cujo do comandante. Para a nossa surpresa e azar do piloto, o francês estava queimadaco de praia, um camarão. Quer dizer ficou na praia até o 12/1hora da tarde tomou a sua caipirinha antes de “subir”. Subir, pra quem não sabe é um termo usado pelas empregadas que moram no pé da serra, ou seja baixada fluminense, muito longe da orla carioca onde trabalham.

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trânsito congestionado em todas as faixas na Linha Vermelha

Como deve ter sido o desespero desse cidadão francês à caminho do Galeão? Sozinho apenas acompanhado do motorista de praça, que muito raramente, fala inglês ou francês. Será que depois de um tempo esse comandante da Air France que possivelmente tentava falar seu inglês cheio de sotaque viu que era melhor mesmo aportuguesar o francês pra se comunicar eficientemente com o taxista nativo? Se fazer entender de que precisava urgentemente avisar ao Aeroporto que estava preso no trânsito.

– Calma, amigo. Agente chega lá. – Deve ter ouvido do motorista e o pior entendido tudo, um par de vezes.

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escada do Aeroporto

Quando chegou no portão de embarque, tentou passar batido, mas infelizmente ouviu uns reclames por causa do descontentamento geral, no meu caso, fiquei só rindo mesmo. Daquele moço que descrevi acima ouvi um desabafo um tanto direto, um tapa na orelha, num inglês meia boca:

–     Late swrimp… I bet you will sett the air conditioner litt stronger this time. – Depois ele se vira e dá o seu recado para neguinho perto dele:

–     Porra, mermão! O maluco fica a manha inteira enchendo a cara de caipirinha na praia e o sol avisa quando está pronto. Isso aqui não é carga não piloto! – Aí, parei de rir, passei a me lembrar das tantas das vezes do trajeto Rio Sul – Cinelândia em que os motoristas queimavam pneu sem a menor cerimonia, ouvia justamente a mesma frase.

Ainda bem que viajante não falou algo mais ofensivo pra o carinha que iria pilotar a nave de volta à Paris. Vai se pega o gringo na maior frustração? O Comandante é responsável por mais de 200 pessoas geralmente mau educadas.

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oficial da marinha brasileira apresentando no sétimo de dia de buscas a área infindável onde partes da estrutura do avião estavam perdidas.

Menos de 8 meses depois desse episódio da Air France, a empresa é abatida com uma notícia trágica de que o Voo Air France 447 caiu no meio do Oceano Atlântico deixando de se comunicar com a costa Senegalesa em determinada hora. O acidente ficou conhecido pelo acidente aéreo ocorrido durante o voo da noite de 31 de maio para 1 de junho de 2009, efetuado pelo Airbus A330-203, deixando 228 pessoas no mar (216 passageiros e 12 tripulantes).

Na lista de passageiros aparece uma série de catedráticos da UFRJ e outras federais, além de casais de família tradicionais em Lua-de-mel. E ainda, um moço, de apenas 26 anos que seria o quarto da lista de sucessão da família Bourbon & Braganca se essa voltasse a reinar o Brasil ou pelo menos fazer desse estado um principado.

 

 

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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